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2.4 – Elementos para análise de dados

6. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Caminhar para a finalização deste estudo aponta para a reorganização dos conceitos abordados de forma a apresentarmos aqui a imagem da infância a que se teve acesso no desenvolvimento do trabalho de pesquisa. Propõe-se retornar o ponto de partida, indicando os pontos decisivos e marcantes do percurso, que aqui parte da: infância, cinema, mídia-educação e corpo.

Inicia-se retomando a infância tomada como pressuposto para o trabalho empírico. Parte-se da ideia de infância desligada do tempo cronológico, ligada a um tempo outro, aión, o tempo das intensidades, onde a experiência fica assinala como possibilidade assertiva. Nesse lugar de retorno, que é a infância, acessado na e pela linguagem, como mostrou Agamben, a dissociabilidade entre significado e significante permite a irrupção da novidade como forma básica da experiência.

A partir da leitura de Larrosa, pode se perceber a criança como o sujeito da experiência, que se expõe ao acontecimento e abre-se à perspectiva de transformação que ela carrega, lançando-se no mundo e ocupando seus espaços de forma lúdica, característica esta que Benjamin (2002, p. 104) ilustra na passagem:

Ou seja, as crianças são inclinadas de modo especial a procurar todo e qualquer lugar de trabalho onde visivelmente transcorre a atividade sobre as coisas. Sentem-se irresistivelmente atraídas pelo resíduo que surge na construção, no trabalho de jardinagem ou doméstico, na costura ou na marcenaria. Em produtos residuais reconhecem o rosto que o mundo das coisas volta exatamente para elas, e para elas unicamente.

Nesta perspectiva, a imagem da infância que aqui exposta neste trabalho, é, nada mais que uma exposição do encontro estabelecido, da aproximação

realizada, pois não há como reconhecer o rosto que o mundo volta às crianças. Nesse encontro, se reconhece o vídeo, como categoria genérica da linguagem audiovisual, um elemento em potencial para a expressão dos sentidos construídos no grupo, caracterizando-se como ponto de interesse comum entre as crianças, a escola e o pesquisador.

Na intersecção dos interesses, a pesquisa foi situada na disciplina de Teatro – que tinha o título de “produção de vídeo” – oferecida na Escola Parque 210/11 Norte, Brasília-DF, sob formato de oficina, e foi acompanhada pelo pesquisador durante todo o ano letivo de 2011. O estudo propõe analisar tanto o produto construído durante o período de aula pela turma, e os dois vídeos produzidos individualmente por duas crianças do grupo, no recreio escolar. E como objeto de apreciação, diferentes produções em vídeo –forma de expressão – construídas sob uma linguagem cinematográfica – conteúdo discursivo. Em análise, os três produtos em vídeo foram arranjados de maneira diferenciada, segundo relação das diversas mediações pedagógicas estabelecidas nos diferentes ambientes escolares – aula e recreio.

O primeiro vídeo, construído em sala de aula, sob orientação do projeto pedagógico mediado pelo professor da turma, mostrou características mais próximas ao cinema clássico. Apresentado sob o contorno de uma narrativa de ficção, as crianças criaram uma história e a partir daí que recriaram uma investigação criminal. A proposta de analisar a produção cultural de crianças em ambiente escolar, considerando seu papel em projeto de mídia-educação articulado à educação do corpo, pontou-se que as relações pedagógicas estabelecidas no decorrer do ano apontando para, a medida que desenrolava-se a cada etapa do processo, eram reforçando os laços criados entre os elemento do texto fílmico e a mensagem a qual o grupo se propôs a comunicar. Isto reforça as

elaborações de Metz (1971, p. 203) sobre este tipo de produção na direção de afirmar que “há um ‘grande sintagmática’ no filme narrativo”.

Assim, a validade das mediações pedagógicas se encontra ao propiciar o protagonismo frente à produção de cultura, favorecendo a criação e a co-autoria como catalisadores da ação crítica com as crianças. Nesse sentido, ao analisar o desenvolvimento do processo educativo com crianças envolvendo as dimensões técnica, crítica e criativa da mídia-educação, identificou-se nesta configuração os momentos propícios à experiência permearam a relação pedagógica se tornando evidentes na produção cultural criativa e coletiva e na ressignificação dos elementos do gênero abordado.

Os dois vídeos subsequentes foram produzidos por duas crianças desta turma, individualmente, durante o recreio, tendo como resultado duas produções que fugiram à configuração narrativa, dando ênfase à intensidade das imagens construídas, deixando de lado a comunicação do discurso. O cinema apresentou- se nesta oportunidade como manifestação da linguagem, onde, através de sua infância, encontrada nas imagens-tempo, possibilitou a experiência da criação, onde, às crianças puderam tentar novas conexões entre os significados (conceitos) e significantes (imagens) construídos para o cinema em seus vídeos.

Ao se investigar as dimensões do corpo, expressas nos produtos em vídeo digital construídos pelas crianças, foi interessante observar que, nesse momento de criação na infância da imagem, o corpo aparece em outra forma, a sua cotidianidade. O corpo que permaneceu nas entrelinhas do texto narrativo no primeiro vídeo, submetido à um utilitarismo, toma o protagonismo da cena nos outros dois vídeos, ocupando lugar de destaque através da brincadeira. Nela, o “fazer” do corpo foi considerado como informação importante a ser destacada nas imagens. As crianças deram o corpo ao vídeo e o corpo dá o que pensar (e deixa pensar) ao espectador.

Permite-se aqui desfazer as oposições apresentadas durante o trabalho, dentre elas, duas importantes: entre o tempo cronológico e o tempo aiónico; e entre as imagens-movimento e as imagens-tempo. Primeiramente, a intensidade em aión não pode se dar em outro sítio que não a cronologia, assumir uma outra temporalidade não prescinde a supressão da cronologia. Da mesma forma, imagem-movimento e imagem-tempo participam concomitantemente do conteúdo do filme, porém, destacam-se uma da outra por suas relações com o espectador.