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CONSIDERAÇÕES FINAIS

No documento fernandoadaodesafreitas (páginas 144-147)

Nescire autem quid ante quam natus sis acciderit, id est semper esse puerum. Desconhecer o que aconteceu antes ter nascido é permanecer sempre uma criança.202

(CÍCERO, Orat., 120).

As palavras do famoso orador romano Cícero servem para ilustrar o que motivou o caráter historiográfico que o nosso trabalho tentou apresentar. Procuramos, através do pensamento gramatical de Santo Agostinho, produzir não só uma descrição dos elementos gramaticais presentes na Ars breuiata do bispo de Hipona, mas também proporcionar uma interpretação desses elementos, como eles dialogavam com o contexto da Antiguidade Tardia, e em que medida serviram para propósitos distintos em relação às demais obras gramaticais do período e às obras exegéticas e filosóficas do próprio Agostinho.

Considerando sua importância para os princípios teórico-metodológicos da Historiografia da Linguística, buscamos construir o “clima de opinião” no qual Santo Agostinho estava inserido. Para isso, tentamos dialogar com a tradição historiográfica, considerando, a partir da perspectiva endossada por Peter Brown (1971), que Agostinho é um autor da Antiguidade Tardia e que, por isso, suas necessidades enquanto intelectual do século IV-V. d.C. eram indissociáveis dos aspectos culturais do período. Dentre os muitos temas investigados por Santo Agostinho, escolhemos dissertar a respeito das observações que ele produziu sobre a língua latina, reflexões, portanto, metalinguísticas.

Assim, analisamos e consideramos a procedência do texto Ars breuiata, tratado gramatical atribuído a Santo Agostinho, destacando suas semelhanças com os tratados gramaticais de Donato, que é um modelo de grande circulação no período. Dessa análise comparativa, percebemos que Agostinho mantém, em seu texto, uma descrição de caráter mais formal da língua latina, mais centrada em aspectos descritivos de ordem morfológica que semântica, o que caracteriza, com maior ênfase, parte considerável das descrições donatianas. Além disso, pudemos pontuar também que a estruturação interna da Ars breuiata se diferencia daquela apresentada na Ars maior de Donato. Essa estruturação interna, ou seja,

a disposição dos temas gramaticais propostos por Agostinho em sua Ars, segue um modelo pedagógico estipulado pelo próprio Agostinho, com a inclusão de temas de grande relevância na obra de Agostinho como um todo – como a noção de Latinitas –, mas de definição ausente dos manuais de Donato.

No entanto, para tentarmos apresentar uma descrição mais ampla do pensamento gramatical de Santo Agostinho, não seria suficiente realizar uma análise somente da Ars

breuiata, desconsiderando a ampla reflexão de caráter metalinguístico que Agostinho realiza

em outras obras de sua autoria. Diante disso, propusemos apresentar um estudo de como os conceitos gramaticais de partes orationis, barbarismus e soloecismus, que ocupam parte considerável de sua Ars, são tratados e comentados por Agostinho em outras obras, de caráter exegético e filosófico. Tomamos como referência, sobretudo, o tratamento a tais questões no

De magistro e no De doctrina Christiana, obras que mais nitidamente tocam em aspectos da

metalinguagem agostiniana, sem a pretensão de apresentarmos uma análise exaustiva, haja vista o volume da obra de Agostinho, a infinitude de questões discutidas pela longa fortuna crítica e a exiguidade de um trabalho de Mestrado.

O resultado que obtivemos dessa análise mostrou-nos que Agostinho, em seus textos filosóficos, ressaltou, diferentemente do que ocorre na sua Ars, os aspectos semânticos, exegéticos e metafísicos desses conceitos, em detrimento de uma análise puramente formal. Nesse sentido, ao que tudo indica, parece-nos que o estudo sistemático das partes orationis e depois dos uitia orationis em sua Ars servem de base para que, em suas obras filosóficas, a discussão seja sobre o significado das palavras, e não sobre suas formas especificamente. Se esse indício for verdadeiro, isso significa que a Ars breuiata, muito provavelmente, era o texto de apoio ou propedêutico para que os aprendizes/cristãos pudessem realizar estudos mais avançados em interpretações da Bíblia (oferecidos, por exemplo, pelo De doctrina

Christiana) ou em reflexões metafísicas (apresentada, por exemplo, pelo De magistro).

Ainda nesse sentido, as duas últimas observações do nosso trabalho se destinaram a explicitar de que forma Agostinho se muniu do conhecimento gramatical para explicar e interpretar passagens das Escrituras. Observamos, particularmente, o papel dos (poucos)

exempla citados por Agostinho em sua Ars. O comentário acerca da passagem da Carta de Paulo aos Coríntios (1 Cor 13,13), que é aproveitado tanto em sua Ars quanto no De doctrina Christiana, sem paralelo no que se refere às citações pagãs (sempre descontextualizadas e

aproveitadas no limite da exploração gramatical), parece indicar o compromisso com o propósito que o discurso gramatical começava a assumir: o de ser um auxiliar na leitura das

observações presentes em sua Ars breuiata transcendem, no final, o limite do escopo gramatical, pois, ao mesmo tempo em que se discute a formação de essens, Agostinho destaca os problemas de tradução de passagens bíblicas do grego para o latim e dialoga com outras obras que investigam as questões exegéticas e semânticas da referência a Deus.

Em conlcusão, todos esses aspectos levantados e discutidos, em nosso trabalho, só foram possíveis porque resolvemos olhar para o passado, procurando, assim, conhecer aquilo que nos precedeu sem julgá-lo, tentando, ao máximo, não o distorcer. Parafraseando, dessa forma, o que disse Cícero e concordando com Koerner (2014, p. 10), em nossa epígrafe, ou seja, um autor da Antiguidade e um de nosso tempo – podemos dizer que o amadurecimento de uma disciplina só ocorre quando buscamos conhecer suas origens.

No documento fernandoadaodesafreitas (páginas 144-147)