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6 CONSIDERAÇÕES FINAIS

No documento iagorezendedealmeida (páginas 135-144)

A realidade nem sempre foi aprazível aos indesejados socialmente. A memória do Hospital Colônia retrata um modelo de controle e vigilância empregado, minimamente, desde o início da estrutura manicomial enquanto instituição fechada. Não coube, a este trabalho, a precisa definição sintática – ou sintomática – da loucura. Ao longo dos anos, os padrões e normas culturais definiram delírio e patologia, sistematicamente.

O caso observado em Em Nome da Razão não foi um caso à parte. A instalação psiquiátrica fez parte de um minucioso modelo de segregação e de controle que, principalmente a partir do período classicista, assolou tais instituições no ocidente. As marcas na história e nos corpos dos pacientes reiteram as maneiras pelas quais os poderes dominantes fazem uso dos jogos de exclusão social, principalmente no que tange a loucura.

Ainda que chamados loucos e extraídos do convívio social, os “corpos errantes”, segundo as normas de hegemonia social, tornam a resistir e a reaparecer, em um clamor por lugar e aceitação. Se creditamos à estética uma função de percepção do mundo a partir das concepções artísticas, cabe a ela, também, a instrumentalização de suas capacidades a fim de agir politicamente e lutar, em conjunto com as outras formas para exercer dignidade e atingir ambientes plurais. Enquanto ferramenta política, a projeção do filme no campo das afetividades de quem o contempla pode causar a comoção necessária para que o sujeito, assombrado pela tragédia e pelo horror, possa agir em prol de uma luta que, até então, não vigorava em seu cotidiano.

O desenvolvimento da estética realista, que se ocupou na figuração não somente da realidade, mas das diversas realidades que compõem a vida humana, é capaz de fazer de sua arte matéria de luta e de força.

A materialidade social da obra, a partir da busca da representação do mundo visível, torna-se cada vez mais forte a partir da gradual democratização dos meios e do maior acesso às informações que contornam o globo. Por meio do cinema, esses indivíduos podem clamar a existência que, até então, fora negada. Ainda que o passante não visibilize o sujeito marginal nas ruas, certamente o enquadramento projetado na tela conduzirá o olhar que, tocado ou não, tomará conhecimento daquela realidade.

Das diversas modalidades expressivas utilizadas pelo realismo, o audiovisual é um grande potencial combativo ao retratar, com mais fidelidade, as imagens críticas que, a partir das intenções e inquietudes do idealizador, necessitam ser veiculadas. Deste modo, o cinema documental – junto de outros gêneros das técnicas audiovisuais – pode produzir os

efeitos de diálogo com o real que, na esfera da contemplação, contestam as normatizações impostas.

Por meio de sua capacidade de denúncia, o documentário expôs, com efeitos realistas, a tragicidade existente naquele lugar. A relevância de sua abordagem, junto das ações do movimento da luta antimanicomial, foi capaz de expandir a discussão que, até então, não ocupava pauta nas centrais discussões acerca do tema. O uso da consciência política, suscitado pela contemplação da obra, o compreende não somente como objeto de afeto, mas de memória.

O compadecimento denota as potências de cumplicidade entre a obra e o espectador. Deste modo, a validação da película enquanto ferramenta de mudanças estruturais é crível em sua habilidade de reafirmar as possibilidades de diálogo entre arte, cultura e o fazer-político. Não obstante, os ambientes audiovisuais podem conceber lugares que auxiliam na construção de uma memória coletiva que repercuta em novas realidades sociais.

A política de Estado construída nas últimas três décadas no que tange o cuidado e acompanhamento dos portadores de transtornos mentais recebeu reconhecimento internacional da Organização Mundial da Saúde (OMS). Em dezembro de 2017, no entanto, as políticas que se ocupam da saúde mental pretendem, por meio de uma portaria, extinguir os mecanismos legais que dignificam o paciente. A atual Coordenação Geral de Saúde Mental, Álcool e Drogas do Ministério da Saúde (CGMAD/MS) objetiva realizar mudanças substanciais em detrimento da Política Brasileira de Saúde Mental: em um cenário de retrocessos, a proposta visa o retorno do destaque às ações contrárias à reinserção social e de tratamento humano aos pacientes. As forças das potências manicomializadoras, uma vez mais, representam parte das ações governamentais.

O percurso dos estudos que envolvem a estética manifestada de forma cinedocumental com a saúde mental, principalmente em seu contexto hospitalar, reitera a necessidade da discussão do tema nos mais diversos ambientes, com a intenção de se fazerem presentes novas formas de resistência. A continuidade deste trabalho poderá acompanhar as relações entre o audiovisual e as políticas públicas de saúde mental para perceber de quais modos os produtos estéticos reagem às decretórias hegemônicas.

No caso do documentário, cuja premissa central era a de realizar uma denúncia, somos convidados a tomar, das mãos das instituições fechadas, o leme que guia a Nau dos Loucos. A imersão realizada por suas imagens foi capaz de transformar, gradualmente, as generalizações e concepções que dizem respeito à apresentação destes sujeitos sob novas perspectivas.

Creditamos às filmagens do Hospital Colônia, realizadas em Em Nome da Razão, a incumbência de agir junto das forças da Reforma Psiquiátrica para lutar em prol da concessão da dignidade, direito humano básico. Dos afetos presentes na obra e investidos no espectador, inserimos o caso do pesquisador que, após assistir o filme, pôs-se a desvendar a imagem do sofrimento.

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