METODOLOGIA, MATERIAIS E PROCEDIMENTOS
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Um processo extremamente profundo foi vivido nesses dois anos, pessoal e artisticamente, o qual me exigiu disciplina, entrega e ao mesmo tempo desprendimento, no que tange aos conteúdos trazidos pelo corpo.
Até então, nos processos criativos que havia vivenciado, o assunto sobre o qual eu iria tratar sempre vinha em primeiro plano, surgindo das letras das canções que trabalhava, ou das temáticas dos espetáculos, esse era o ponto de partida. Demorei a entender que, no método BPI, o conteúdo era consequência, pois o mais relevante era o corpo ganhar presença, inteireza, e que isso indicaria o conteúdo que iríamos tratar, vindo a partir do corpo. Dessa maneira, pude ir percebendo que é um processo que acontece decididamente de dentro para fora, não há como ocorrer no sentido contrário, pois se for assim, esbarramos no apego aos materiais dos quais queremos tratar, que não necessariamente mobilizam o nosso corpo. Com isso, essa foi uma das minhas dificuldades, pois ao apegar-me aos conteúdos era difícil deixar o corpo fluir para onde quisesse.
Nesse mesmo sentido, foi interessante perceber como a narrativa, os conteúdos e até mesmo os objetos que emergiram desse processo criativo, dialogam com os outros processos que vivi, citados no início desse trabalho. Um percurso, o encontro com o outro, a dor, a morte e a despedida, temas recorrentes para mim.
Outro ponto importante foi a dificuldade de deixar-me tocar pelos conteúdos que estavam se apresentando para mim, em campo e nos laboratórios. Eles traziam um universo no qual eu não queria me aprofundar, pois assim tocaria em questões minhas que estavam às escuras e que eu havia decidido deixar para trás. Porém, com essa atitude, não me reconhecia por inteiro; foi ao deixar aflorar essas questões na consciência que consegui me integrar, e foi isso que o processo fez, desenterrou meus mortos e apresentou-me a mim mesma.
Entender que é um processo também me faz amadurecer como artista, pois ao tirar o sentido de obrigação em estar sempre pronta, me permiti aprofundar ao percorrer caminhos necessários para chegar a esse material potente sem seguir pelo atalho.
Como cantora, o processo contribuiu imensamente em vários aspectos, dentre eles a presença cênica, tão desejada; a perceber a relação que se faz entre corpo e voz quando eles realmente estão atuando de maneira conjunta, possibilitando-me descobrir outras possibilidades vocais e enquanto processo criativo, me proporcionou viver uma criação com maior profundidade, atingindo níveis que sem uma direção não teria alcançado.
Ao lidar com a vida e a morte, IEOA passeia pelos extremos, trazendo como cenário festas e cemitérios e expressando sentimentos de felicidade e de dor, dois pontos específicos ligados ao meu processo, a ligação com o universo caipira no que diz respeito a suas crenças e folias, e com um universo mais sombrio, frio e obscuro, que também está atrelado à cultura caipira e que pude começar a tomar consciência no período em que vivi em Portugal. Assim a personagem uniu esses dois polos, integrando a Amanda que se encontrava fragmentada.
É como querer florir sem ter raiz, foi preciso achar minha raiz que estava um tanto desfeita, voltar e olhar para a Amanda, lá atrás, abraçá-la e levá-la comigo, ampliando minha noção de identidade sem enrijecê-la.
O processo de aceitação da personagem veio com o tempo, pois no início IEOA trazia somente conteúdos relacionados à festividade, que me causavam rejeição e me apresentavam questões sobre a minha própria identidade. Como eu podia me identificar mais com os conteúdos trazidos pelas modelagens da “Velha” e da “Morte” se eles não tinham permanecido? Como eu podia aceitar uma personagem com quem eu acreditava não ter nenhuma identificação? Qual era minha identidade então se aqueles conteúdos haviam brotado de mim? Eram perguntas que me rondavam.
Ao pensar em incorporar uma personagem no início do processo, acreditava que ela traria à tona conteúdos e temáticas com os quais me identifico, assim, reiteraria e “fortaleceria” de alguma maneira, aquilo que acredito ser. Porém, tudo aconteceu às avessas. Se o processo tivesse ocorrido assim, não haveria conflitos e sem eles, nenhuma transformação; teria saído “ilesa” e acreditando numa identidade rígida, única e restrita. Sem saber realmente o nível de profundidade a que estava me propondo mergulhar, vivi de fato o que o BPI me propunha, entrei em contato com aquilo que acreditava ser e desconstrui a fôrma na qual havia me encaixado, ampliando assim minha noção de identidade. Se o método me dissesse: “faça da personagem aquilo com que você se identifica” não teríamos o que apresentar nesse trabalho. Porém, foi como se me dissessem: “se acredita ser apenas isso, verás que existe muito mais do que pensa ser”, e então se abriu um universo.
Não é nada fácil desapegar-se da identidade que você quer mostrar ao mundo para encontrar algo que está mais ao fundo. É preciso deixar as defesas e as proteções para permitir que o outro conduza você e possa ver você despido, e principalmente, para que você mesmo consiga se ver por inteiro. Tudo o que IEOA me trouxe foi uma parcela daquilo que sou, daquilo que me atravessou a partir do contato com o campo e do que precisava emergir nesse momento. Circunscrever-me a ela ou àquilo que acredito ser, não se resume à minha identidade como um todo, mas é uma parcela dela. Temos milhões de facetas desconhecidas, e essa é a maravilha de se escavar sempre. É preciso fôlego pra descer tantos metros de profundidade, e principalmente um olhar descolado de si, que nesse caso foi a direção, que atuou assertivamente a todo o momento e sem a qual não teria sido possível sair da superfície. Pois é tão difícil quebrar os próprios muros que colocamos em volta de nós mesmos, que muitas vezes precisamos de alguém que nos ajude a encontrar a marreta.
Posso dizer que foi um processo intenso, árduo e transformador me perceber mais do que eu podia ver. Esperava que a personagem reafirmasse quem eu acreditava ser, mas ela fez muito mais do que isso, apresentou-me fragmentos meus
e possibilitou-me vivenciar os conteúdos encontrados em campo que ressoaram em mim; o que me permitiu integrar-me e fez-me experimentar o sentido do seu nome descrito nas páginas anteriores: “Eu sou o que sou”.
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