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É com imenso prazer que demarcamos a chegada ao nosso destino. No meio do caminho, deparamo-nos com obstáculos, os quais foram criados pelas convicções arraigadas num corpo sombrio, que se revela quando menos esperamos. Todavia, jamais pensamos em desistir desta odisseia pelo conhecimento. Na verdade, o encantamento pelas “novas descobertas” foi nos impulsionando a novos horizontes. Neste momento, direcionamos nosso olhar a todo caminho percorrido para refletirmos sobre as inquietações que nos moveram até aqui.
Nesta longa e divertida viagem, trilhamos dois caminhos para então, encontrarmos nosso “tesouro”. O primeiro deles, o mais temeroso, foi capaz de desestabilizar nossas crenças, oportunizando nosso primeiro confronto com o corpo. O segundo nos apresentou formas de atenuar os pesares da existência, através do prazer, buscado numa ação de reciprocidade com o outro. A partir de então, interrompemos nossa odisseia, para voltamos a percorrer um caminho já conhecido, mas agora, visto com outros olhos.
Esta odisseia foi proporcionada pela Filosofia Hedonista de Michel Onfray, cujo ponto central, como vimos, está na intenção do autor em exaltar o corpo e o prazer, considerados pelo mesmo como sendo os grandes esquecidos da história da filosofia.
Nesse sentido, nossa primeira parada foi destinada à configuração do corpo a partir do ascetismo. Para tanto, conhecemos os desígnios da tradição filosófica, que se dá especialmente com o platonismo, e posteriormente, com os preceitos das religiões monoteístas, em especial, o Cristianismo. Na interpretação do nosso filósofo, são, pois, os grandes líderes dos contendores do corpo e do prazer.
Como vimos, os preceitos religiosos são ancorados pela moral cristã, que dita as regras de como viver a vida real, em busca da eternidade. Nessa lógica, constatamos que o corpo é o grande vilão de sua própria história, sendo negligenciado para proteger a alma das consequências trágicas provenientes dos desejos carnais. Portanto, para sanar nossa culpa, e amenizar nossos pecados, o imperativo é claro: não desfrutar dos prazeres carnais! Nessa perspectiva, a figura do anjo é apreciada como sendo o modelo perfeito da existência: é bondoso, protetor, assexuado, imaterial, imortal, portanto, perfeito. Suas asas são de extrema importância, pois permitem a subida aos céus, onde se encontra o divino.
Nesse sentido, constatamos a incompatibilidade do anjo com nossa existência corporal, na vida terrena. Logo, o Corpo Glorioso almejado pelo ideal ascético é um
corpo dissociado da mente; contido; incompleto: corpo desprovido de sensações, que luta contra seus próprios instintos.
Essa passagem para chegarmos à configuração do Corpo Glorioso nos fez repensar sobre nossas crenças. Talvez, nunca tivéssemos questionado as bases que sustentam nossa fé no divino. O medo da morte, e portanto, do desconhecido, possivelmente, tem o poder de nos impedir de adentrarmos nessas questões espirituais. Mesmo sem pretensão (declarada) de nos converter ao ateísmo, nosso filósofo foi capaz de incitar nossa reflexão sobre o obscurantismo das pretensões religiosas. Com isso, conseguimos, ao menos, compreender a origem do remorso e o quanto o mesmo nos impede de desfrutarmos do agradável da vida. A partir de agora, confesso uma pretensão de desconsiderá-lo da minha existência.
Após essa primeira passagem pelo pensamento de Michel Onfray, retornamos ao conhecimento da nossa área de investimentos: a Educação Física. É a ela que atribuímos o caminho já percorrido em outros momentos. Dada a configuração do Corpo Glorioso, a partir da moral cristã, passamos a refletir sobre o ideal de corpo intensificado pela referida área, e como a moral interfere nessa idealização.
Como apontamos, a Educação Física intervém sobre os corpos, e por muito tempo, sua atuação esteve atrelada ao movimento pela saúde. Nesse contexto, o excesso de gordura era combatido para evitar os problemas de saúde pública. Assim, houve uma disseminação de hábitos considerados saudáveis, atrelados a valores morais do autocontrole.
Talvez seja consensual, que tais valores morais estejam sendo drasticamente substituídos por valores estéticos. Nesse novo cenário, há um ideal de corpo propagado pela Educação Física, que está em consonância com a forma da jovialidade: enxuto, firme, leve, musculoso, enfim, belo, de acordo com os padrões disseminados pela sociedade vigente. O princípio de saúde também é alavancado nessas questões, mas nos parece que acaba ficando em segundo plano. Dentro dessa perspectiva, a gordura é totalmente desprezível; agora por descaracterizar o corpo esteticamente aceito.
A partir de então, o culto ao corpo belo se alastra, e sua busca acarreta medidas bruscas: dietas milagrosas, exercícios extenuantes, cirurgias plásticas estéticas, e chegando lamentavelmente, aos extremos com o uso de anabolizantes.
Dispomo-nos, pois, a refletir sobre esse cenário, pois consideramos emergentes para nossa sociedade. O culto ao corpo precisa ser encarado como o cultivo de si, para nos proporcionar o prazer da existência, e ademais, para nos encorajar a enfrentarmos as intempéries da vida, de frente, sem nos esquivarmos. A busca pelo aumento da auto-estima precisa ser desviada da meta imposta pelos padrões corporais, pois, lamentavelmente, estaremos fadados ao declínio. Para sermos aceitos pelo outro, é preciso que sejamos por nós mesmos. E a Educação Física detém o poder de nos auxiliarmos nesse cultivo de si, da mesma forma que tem o poder de contribuir com a busca do corpo belo.
Depois dessa parada estratégica no âmbito da Educação Física, voltamos a trilhar o segundo caminho da filosofia de Michel Onfray, e o mais atraente, decerto. Fomos impactados pelos ensinamentos hedonistas, os quais primam pelo prazer de viver o momento presente, mesmo com toda efemeridade da vida alavancada pela dureza do real. Em contraposição total ao ideal ascético, o ideal hedonista apresenta o corpo como sendo o herói e protagonista de sua própria história, mesmo com seu triste fim demarcado pela morte.
A partir de então, o corpo se reconcilia com a mente (portanto, a carne com o espírito) e passa a ser configurado: corpo libertino, que goza e faz gozar. Corpo livre, logo, ateu, que transgride as convenções sociais. Corpo feito de matéria, que toca e é tocado. Que tem o poder de conhecer através dos cinco sentidos. Corpo que sente, que sofre, que deseja, que ama. Corpo sujeito da existência, que ora se torna objeto da contingência. Corpo que despreza a morte para desfrutar da vida. Enfim, corpo sujeito a dor e ao prazer.
A Filosofia Hedonista de Michel Onfray nos tirou de um estado de conforto, no qual os princípios morais e éticos nos guiavam, para então, fazer-nos pensar sobre nossa própria existência corporal, em que deveríamos ser nossa própria lei. Descobrimos, pois, que podemos sim transgredir as convenções sociais, sem, no entanto, desconsiderar a ética de nossos atos. Todavia, fomos tentados a vê-la de outra forma, que pode nos beneficiar na relação com nosso próprio corpo e com o outrem.
Como vimos, a ética do corpo em Michel Onfray é lúdica, ancorada pela busca do prazer, em sintonia com o prazer do outro. Essa questão ética nos conduziu, novamente, a voltar ao percurso da Educação Física.
A ética do corpo nessa área se encontra em conformidade com a idealização do belo, já apontada. Logo, a velhice é temida, culminando na busca de uma imagem corporal que possa sobrepujar a “crueldade” do tempo. Nessa perspectiva, manter uma relação ética com o corpo significa camuflá-lo da velhice, através dos meios disponíveis que o manipulam a exemplo de um objeto.
Em total discordância com a ética do corpo jovem, buscamos refleti-la a partir da ética da estética, a qual valoriza a subjetividade do indivíduo, logo, a sensibilidade. Portanto, percebemos a urgência em resgatar a sensibilidade, não apenas enquanto dimensão afetiva, mas também, enquanto conhecimento válido. Parece-nos, que tudo ao nosso redor conspira contra tal resgate.
É nessa empreitada, que valorizamos a Educação Física, impondo-lhe seu papel de intervir sobre o corpo, não a maneira de uma máquina, mas no sentido de nos ensinarmos a linguagem dos gestos, da expressividade. Como vimos, esta área vem apresentando avanços em suas discussões sobre as questões éticas e estéticas do corpo, e consequentemente, mudando o foco da transformação do corpo em máquina, para seu ponto central: a sensibilidade. Cada vez mais a Educação Física vem ganhando espaço no meio acadêmico e social como prática pedagógica que nos proporciona a sabedoria de viver a vida com felicidade e prazer. Mas é importante que estejamos cientes de que a jornada é longa, e nossa empreitada contra o culto ao corpo está longe de ser sanada.
Finalmente, nossa odisseia nos permite uma parada para o descanso. Mas sejamos breves! Pois o fascínio do conhecimento nos convida, a cada momento, a embarcarmos em novas viagens, em novos desafios, em novas experiências.
Todos os ensinamentos aqui contemplados nos auxiliaram na sabedoria para o bem viver, pois como aprendemos, não basta querer, é preciso saber viver. Esperamos que este trabalho possa ter plantado sementes férteis para novos investimentos no universo da pesquisa, sobretudo, nas reflexões acerca da nossa existência corporal. Longe da pretensão de cessar as lacunas de todo processo investigativo, passamos a pensar em outras problemáticas de estudo. No momento nos resguardamos ao aprofundamento das leituras aqui iniciadas, para então, elaborarmos um projeto em nível de doutorado. Os desafios continuam!