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CONSIDERAÇÕES FINAIS

No documento OS VISITANTES DO MUSEU: (páginas 49-57)

A pesquisa de público nos museus no Brasil, apesar de ter avançado, requer muita pesquisa ainda, principalmente nos museus históricos. Encontramos trabalhos relativos aos museus de arte, e estes têm como uma das referências principais o trabalho desenvolvido por Pierre Bourdieu42 sobre os museus de arte na Europa, em 1966.

Como a presente pesquisa foi realizada com a categoria de museu histórico, fiz a escolha de buscar referências para a análise quantitativa a partir das pesquisas desenvolvidas nos museus históricos do Brasil em relação ao perfil sociodemográfico, mais adequadas para nossa realidade brasileira.

Durante a trajetória desta pesquisa vários questionamentos foram sendo suscitados. Por exemplo, seria interessante poder analisar separadamente os públicos infanto-juvenil e adulto para novas investigações no sentido de se aproximar destes visitantes.

Nos resultados dos dados relacionados à escolaridade, 65,56% dos visitantes da cidade de Porto Alegre apresentam alta escolaridade, enquanto que os da Região Metropolitana estão em 43,59%, assemelhando-se aos resultados encontrados nos museus dentro e fora do Brasil. Isso confirma que a alta escolaridade é recorrente nos museus, inclusive se compararmos os valores encontrados na população em geral.

A faixa etária predominante dos visitantes de Porto Alegre está entre os 21 e 31 anos, enquanto que entre os visitantes da Região Metropolitana está entre os 11 e 20 anos. A importância de se atentar para as referências não somente do Brasil, mas também para as especificidades aqui encontradas entre a cidade de Porto Alegre e Região metropolitana requerem uma maior investigação.

Em relação às motivações e/ou expectativas, entendemos na pesquisa que elas estão relacionadas com o sentimento de pertencimento, que está entrelaçado com a identidade e a cultura, a memória individual e coletiva, evocadas pelos objetos, pelo mobiliário, fazendo o visitante sentir-se dentro da história. Interessante lembrarmos que Agnes Heller nos diz que não existe história sem a vida cotidiana — o quarto representa a vida cotidiana do personagem histórico; e Maurice Halbwachs 42 Real, M. P. C. (2016). BOURDIEU, P.; DARBEL, A. O amor pela arte: os museus de arte na Europa e seu público. Trad. Guilherme João de Freitas Teixeira. São Paulo: Zouk, 2003. Revista Polyphonía, 27(2), 283–288. Disponível em: https://revistas.ufg.br/sv/article/view/44730/2212. Acesso em: 27 abril 2021.

nos lembra que os móveis e a maneira segundo o qual estão dispostos reverberam em vivências e experimentação, conforme vemos nos registros deixados pelos visitantes da cidade de Porto Alegre e Região Metropolitana. Cabe lembrar que, conforme os resultados dos dados foram apontando a continuidade pela preferência da exposição do quarto do Julio de Castilhos, mas a pesquisa foi sendo direcionada para tentar entender esta preferência.

A continuidade das preferências citadas acima nos fez pensar que existe uma comunicação museológica contrário ao conceito contemporâneo apontado por Marília Cury Xavier, quando ela afirma que o “público se apropria do discurso museológico, (re)elabora-o, e então cria e difunde um novo discurso e o processo recomeça, sendo que esse novo discurso será apropriado por outros e a história se repete” (CURY, 2009, p. 89). Pensamos que para o modelo de narrativa expográfica relacionada com o Quarto do Julio de Castilhos este conceito não contempla, pois podemos refletir que ali existe uma comunicação museológica tradicional, na qual o visitante se identifica no que tange à sua identidade que é costurada com a memória individual e coletiva, que dialogada com a sua cultura. Para embasar esta reflexão, vejamos o que diz Stuart Hall quando discorre sobre sujeito sociológico. A função da identidade “preenche o espaço entre o ‘interior’ e o ‘exterior’ entre o mundo pessoal e o mundo público. [...] internalizamos seus significados e valores, tornando-os ‘parte de nós’, contribui para alinhar nossos sentimentos subjetivos com os lugares objetivos que ocupamos no mundo social e cultural”. (HALL, 1992, p. 12). Foi nesta perspectiva que conseguimos até o momento compreender a preferência dos visitantes analisados pela exposição Quarto do Julio de Castilhos que, ao propor uma comunicação museologia tradicional, não desacomoda, e sim reafirma a identidade.

Nos registros deixados pelos visitantes em relação à exposição Memória e Resistência, a segunda na preferência, percebemos que a comunicação museológica aconteceu de maneira a suscitar uma transformação no sujeito, com novas possibilidades de conhecer a história, e ressignificando seu conhecimento. “O discurso do museu é incorporado pelo visitante e integrado ao seu cotidiano em forma de um novo discurso”. (CURY, 2009, p. 89).

Não se pretendeu aqui trazer uma análise crítica sobre as exposições, mas tentar compreender as preferências dos visitantes à luz dos resultados dos dados e cotejar com as teorias elencadas. É nesta perspectiva que reafirmamos a relevância das pesquisas sobre estudo de público nos museus, pois o museu é “uma instituição

permanente, sem fins lucrativos, a serviço da sociedade e de seu desenvolvimento, aberta ao público, que adquire, conserva, pesquisa, divulga e expõe, para fins de estudo, educação e lazer testemunhos materiais e imateriais dos povos e seu ambiente” (DESVALLÉES; MAIRESSE, 2013, p.64). Por fim, lembramos que o direito à cultura está garantido na Constituição da República de 1988, no artigo 215, e é de nosso interesse e dever que sejam cumpridos o acesso e a representação de todos os grupos sociais que formam a sociedade brasileira neste contexto. O estudo de público é uma área de pesquisa que contribui para a democratização dos museus.

REFERÊNCIAS

ALMEIDA, Adriana Mortara. Os visitantes do Museu Paulista: um estudo

comparativo com os visitantes da Pinacoteca do Estado e do Museu de Zoologia. In: Anais do Museu Paulista, São Paulo, v. 12, n. 1, p. 269-306, jan/dez. 2004. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-47142004000100020&lng=en&nrm=iso. Acesso em: 29 abril 2021.

BRASIL. [Constituição (1988)]. Constituição da República Federativa do Brasil

de 1988. Brasília, DF: Presidência da República. Disponível em:

http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Constituicao/Constituiçao.htm. Acesso em: 29 abril 2021.

CUCHE, Denys. A noção de cultura nas ciências sociais. São Paulo: Edusc. 1999.

CURY, Marília Xavier. O sujeito do museu. In: MUSAS - Revista Brasileira de

Museus e Museologia, Rio de Janeiro, Instituto Brasileiro de Museus, n. 4, p. 86-97,

2009. Disponível em:

https://www.museus.gov.br/wp-content/uploads/2012/03/musas20120327.pdf. Acesso em: 29 abril 2021. DECLARAÇÃO DE QUEBEC. Museologia e Patrimônio: Documentos Fundamentais – Organização e Apresentação. Disponível em:

https://www.revistamuseu.com.br/site/br/legislacao/museologia/4894-1984-declaracao-de-quebec.html. Acesso em: 29 abril 2021.

DEGELO, Maria Ivone. O público de museu: um pequeno diagnóstico. Estética:

Coletivo Estudos de Estética/ECA-USP, São Paulo, n. 1 .1-8. 2009. Disponível

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citrus.uspnet.usp.br/estetica/2011/index.php?option=com_content&view=article&id=1 6:2009-1-art3&catid=35:revista01&ltemid=37. Acesso em: 29 abril 2021.

DESVALLÉES, André; MAIRESSE, François (org.). Conceitos-chave de

Museologia. São Paulo: Comitê Brasileiro do ICOM, Pinacoteca do Estado,

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http://www.ufrgs.br/cursopgdr/downloadsSerie/derad005.pdf. Acesso em: 29 abril 2021.

GIL, Antônio Carlos. Como elaborar projetos de pesquisa. 4. ed. São Paulo: Atlas, 2002.

GOMES, Talita Veiga. Estudo de Público e Não Público em museus

soteropolitanos. 2016. 191 f. Dissertação (Mestrado em Museologia) - Universidade

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ICOM. Declaração de Caracas 1992. Caderno de Sociomuseologia. Nº 15, 1999. Disponivel em:

http://www.ibermuseus.org/wp-content/uploads/2014/07/declaracao-de-caracas.pdf. Acesso em: 29 abril 2021.

ICOM. Declaração de Santiago do Chile 1972. Mesa-Redonda de Santiago do Chile - 1972. Disponível em:

https://www.revistamuseu.com.br/site/br/legislacao/museologia/3-1972-icom-mesa-redonda-de-santiago-do-chile.html. Acesso em: 29 abril 2021.

HALBWACHS, Maurice. Memória Coletiva. 2. ed. São Paulo: Ed. Vértice,1990. HALL, Stuart. A identidade em questão. In: A Identidade Cultural na

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HELLER, Agnes. O Cotidiano e a História. São Paulo: Paz e Terra,1992.

KÖPTCKE, Luciana Sepúlveda; CAZELLI, Sibele; LIMA, José Matias de. Os museus e seus Visitantes: uma análise do perfil dos públicos dos museus do Rio de Janeiro e de Niterói. In: ABREU, Regina; CHAGAS, Mário de Souza; SANTOS, Myrian

Sepúlveda dos (org.). Museus, coleções e patrimônios: narrativas polifônicas. Rio de Janeiro: Garamond, 2007. p. 68-94. Disponível em:

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LARAIA, Roque de Barros. Cultura um conceito antropológico. Rio de janeiro. 14. ed. Rio de janeiro: Jorge Zahar Editora, 2001.

MINAYO, Maria Cecilia de S.; SANCHES, Odécio. Quantitativo-qualitativo: oposição ou complementaridade? Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, v. 9, n. 3, p. 237-248, Set. 1993. Disponível em:

http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-311X1993000300002&lng=en&nrm=iso. Acesso em: 29 abril 2021.

OBSERVAPOA. Tema educação, 2000 – 2018. Porto Alegre, 2018. Disponível em:

http://portoalegreemanalise.procempa.com.br/?regiao=1_8_627. Acesso em: 30 abril 2021.

POSSAMAI, Zita. Colecionar e educar o Museu Julio de Castilhos e seus públicos (1903-1925). Rev. Varia História, Belo Horizonte, vol. 30, nº 53, p.365-389, mai/ago 2014. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/vh/v30n53/04.pdf. Acesso em: 01 jun. 2020.

ANEXO A

PESQUISA DE PÚBLICO MJC - ___________ 2019

Sua opinião é importante para que possamos repensar o Museu. Assim, agradecemos sua participação respondendo as questões abaixo:

1. Em que cidade você mora? ___________________

2. É sua primeira visita ao Museu Julio de Castilhos? ( ) sim ( ) Não 3. Qual exposição lhe chamou mais a atenção e porquê?43

( ) Imagens missioneiras ( ) Indígena (Memória e Resistência)

( ) Quarto do Julio de Castilhos ( ) Sala sobre Julio de Castilhos ( ) Signos da República

( ) Pátio dos Canhões

4. Qual sua escolaridade? _______________________ (se superior informar o curso) 5.Qual sua idade? _________ 6. Gênero: ( ) Masculino ( ) Feminino ( ) outro

Deixe aqui seu recado

43 A pergunta 3 foi sendo modificada conforme foram sendo inauguradas novas exposições permanentes e/ou temporárias. No mês de julho consta uma exposição temporária; no mês agosto consta a exposição permanente (Memória e Resistência), saindo a exposição permanente Guerra dos Gaúchos em novembro, foram incluídas duas exposições temporárias: Bienal Black e Asó - do Batuque ao Candomblé.

ANEXO B

ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL

SECRETARIA DE ESTADO DA CULTURA,TURISMO,ESPORTE E LAZER

MUSEU JULIO DE CASTILHOS

TERMO PARA PESQUISA

Nome completo

do pesquisador: Maria José dos Santos ALVES Endereço:

Cidade: Telefones: Email:

Tema pesquisado: O público dos museus Finalidade:

Trabalho de conclusão de Curso Instituição (caso

tenha vínculo com alguma):

Universidade Federal do Rio Grande do SUl Outras

informações:

Efetuar uma análise documental(,) nos questionários referente à pesquisa de público do Museu Julio de Castilhos

Data de hoje:

PARA USO DO MUSEU:

Pesquisa MJC: Data: Responsável:

Localização no sistema Donato: Pesquisa visitante em (datas): Acervo pesquisado (reg): Imagens captadas (reg): Observações: Porto Alegre ____, de ________ de ______.

ANEXO C

Exposição Quarto do Julio de Castilhos

Fonte. Jornal do Comércio44, 2020

44 Museu mais antigo será restaurado em 2021. Disponivel em:

https://www.jornaldocomercio.com/_conteudo/especiais/reportagem_cultural/2020/01/722648-museu-mais-antigo-do-estado-se-prepara-para-o-futuro.html. Acesso em. 09 maio 2021

ANEXO D

Exposição Memória e Resistência

Fonte: Jornal do Comércio45, 2020

45 Museu mais antigo será restaurado em 2021. Disponivel em:

https://www.jornaldocomercio.com/_conteudo/especiais/reportagem_cultural/2020/01/722648-museu-mais-antigo-do-estado-se-prepara-para-o-futuro.html. Acesso em. 09 maio 2021

No documento OS VISITANTES DO MUSEU: (páginas 49-57)

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