As políticas educacionais de inclusão desenvolvidas e propos- tas pelo Ministério da Educação têm em vista as especificidades das desigualdades brasileiras, e visam o respeito e valorização da nossa diversidade étnico-racial, cultural, de gênero e social.
Inserido nessas políticas de inclusão encontra-se um conjunto de políticas e de mecanismos, denominado de ações afirmativas, con- cebido com o objetivo de combater a discriminação racial, social, de
cretização do ideal constitucional de efetiva igualdade de oportunida- des e de acesso a bens fundamentais, como a educação e o emprego. Em consonância com essas políticas, o IFSC desenvolveu as suas polí- ticas institucionais de inclusão, formuladas e explicitadas por meio de diversos documentos, como o Plano de Inclusão 2009 – 2013, o Pro- grama de Ações Afirmativas para os cursos superiores do IFSC, e mais recentemente pela institucionalização do Programa de Assistência Es- tudantil.
Todas essas políticas e programas têm como foco os sujeitos em desvantagem social, desvantagem construída social, histórica e culturalmente e, possuem como objetivo principal a democratização do acesso à educação pública e de qualidade e a garantia da perma- nência e do êxito no percurso formativo.
A democratização do acesso pressupõe que a instituição se abra progressivamente a camadas sociais mais heterogêneas, exigindo de todos os profissionais e da instituição um preparo para enfrentar os desafios impostos pela condição desses públicos. (IFSC, 2009).
Investigou-se na pesquisa as ações institucionais de perma- nência e êxito adotadas para os alunos dos cursos de Graduação do Câmpus São José do IFSC (CST em Sistemas de Telecomunicações e Licenciatura em Química), que ingressaram por meio da reserva de vagas, tendo em vista a política de inclusão adotada pela instituição. Verificou-se, também, o índice de permanência e êxito dos alunos co- tistas e não-cotistas dos referidos cursos e identificou-se as causas que determinaram a não permanência dos alunos nos cursos.
Ao analisar as ações de permanência e êxito desenvolvidas no Câmpus São José, verificou-se não haver nenhuma ação ou acompa- nhamento específicos aos alunos cotistas. Verificou-se, também, que os servidores envolvidos mais proximamente com o acompanhamento pedagógico dos alunos, sejam do setor pedagógico ou as coordena- ções dos cursos, não sabem quem são esses alunos, pois a informação não chega ao Câmpus. Os alunos cotistas foram atendidos no bojo dos programas e ações dirigidos aos alunos de todos os cursos oferecidos pelo câmpus.
As ações de permanência e êxito envolveram basicamente três linhas de ação: apoio acadêmico em face das demandas de situa- ção de baixa renda, apoio acadêmico voltado ao atendimento pedagó- gico, e atenção à formação político-social do acadêmico.
As ações de apoio acadêmico em face das demandas de situ- ação de baixa renda realizadas até o ano de 2010 eram desenvolvidas
de forma independente pelos campi de acordo com suas demandas e com orçamento reduzido. O Câmpus São José priorizou o auxílio trans- porte e as bolsas de estágio interno (assim denominadas as bolsas de iniciação científica promovidas pelo câmpus). A partir de 2011, com a regulamentação do Programa de Assistência Estudantil pelo IFSC, os recursos foram ampliados e o Programa de Atendimento ao Estudante em Vulnerabilidade Social foi implantado, aumentando o número de alunos beneficiados.
Dentre as ações de apoio acadêmico voltado ao atendimento pedagógico, são previstos 2 programas: atendimento paralelo ofereci- do pelos professores, e as bolsas de monitoria. Todos os 2 programas são oferecidos em turno diferente do curso, dificultando a participa- ção dos alunos que trabalham. São oferecidas 2 bolsas de monitoria para cada curso superior, o que se considera ser insuficiente, tendo em vista o número de disciplinas que compõem cada curso e o número de disciplinas que possuem índices maiores de reprovação.
Foi possível perceber a não participação do professor do CST no processo de acompanhamento pedagógico dos alunos, uma vez que os problemas que podem ser detectados em sala de aula não são trazidos para a coordenação ou para o setor responsável por esse acompanhamento, o Suporte Pedagógico.
Nas ações de atenção à formação político-social do acadêmi- co, foram abertos editais internos de pesquisa e, concedidas bolsas de iniciação científica, assim como alguns projetos culturais e científico- -tecnológicos foram desenvolvidos. Porém, como já se falou anterior- mente, esses projetos precisam ser consolidados como programas, inseridos dentro de uma política institucional, de forma a atender o aluno na sua totalidade, levando em conta a formação integral do educando e as várias dimensões de sua vida.
Percebe-se que apesar dos esforços, ações e programas exis- tentes, o que está sendo feito não é suficiente para garantir a perma- nência e o êxito dos alunos que ingressam nos cursos superiores do câmpus São José.
No CST, constatou-se nas turmas estudadas, uma taxa média de evasão de 51,49%, e verificou-se que aproximadamente a metade dos alunos cotistas se evadiu (48,48%). As evasões concentram-se nas 2 primeiras fases do curso (78,26%) e possuem como causas principais: questões relacionadas ao curso (falta de informação sobre o curso, cur- so considerado difícil, o curso não era 1ª opção), atividade profissional (incompatibilidade entre trabalho e estudo) e desempenho acadêmico
No curso de Licenciatura a taxa média de evasão, nas turmas analisadas, chegou a 71,15%, e 66,67% dos alunos cotistas se evadi- ram. 90,54% das evasões ocorreram nas 2 primeiras fases do curso. As principais causas de evasão constatadas, que somaram aproxima- damente 67% das respostas, foram questões relacionadas ao curso (falta de informação sobre o curso, não identificação com o magistério, o curso não era 1ª opção), e atividade profissional (incompatibilidade entre trabalho e estudo).
Observou-se nesta pesquisa que há um conjunto de motivos associados à evasão, indicando que são vários os aspectos que atuam sobre os alunos quanto à permanência ou não no curso. Porém, perce- be-se que em muitos casos a instituição pode contribuir tanto para a evasão quanto para a permanência do aluno. Questiona-se, portanto, a forma e a qualidade da divulgação e das informações disponibiliza- das à comunidade pela instituição, tendo em vista o grande número de alunos que ingressam sem as informações mínimas necessárias sobre o curso pretendido. Encontra-se no PDI da instituição que um dos prin- cípios norteadores da sua prática é o princípio da publicidade, e a pu- blicidade deve ser utilizada de forma informativa e educativa. Ocorre que um grande número de alunos ingressa na instituição e se evadem por não conhecerem o curso que escolheram, pode-se dizer que, em parte, isso ocorre por ineficiência da instituição.
Outro fato que se considera preocupante é o elevado núme- ro de alunos que abandonaram o curso devido à impossibilidade de conjugar trabalho e estudo. Como já se viu anteriormente, os alunos dos cursos analisados são trabalhadores. Gomes e Moura (2008) e Veloso e Almeida (2001) identificaram em suas pesquisas que estudar e trabalhar são condições que se verificam em todas as classes socio- econômicas, porém, o percentual de estudantes que exercem as duas atividades é mais elevado nos grupos provenientes das classes popu- lares. Vários alunos que se evadiram do CST, afirmaram que se o cur- so fosse oferecido no turno noturno eles não o teriam abandonado. A instituição ao democratizar o seu acesso e aceitar o aluno-traba- lhador necessita repensar a viabilidade administrativa e didática dos cursos, assim como assumir a sua função social para as classes traba- lhadoras.
Observou-se no CST que o baixo desempenho acadêmico, foi fator determinante da evasão para 21,62% dos alunos entrevistados. Os alunos se evadiram porque não conseguiram acompanhar as dis- ciplinas, pois o curso, para eles, possuía um alto grau de dificuldade
de reprovação no curso. Há casos de alunos que reprovam 1, 2 ou 3 vezes na mesma disciplina. Como estão sendo tratadas as dificulda- des e particularidades desses alunos? Percebe-se existir uma natura- lização do fato: o aluno reprova porque não aprendeu, porque é fraco; o curso é difícil e o aluno não possui conhecimentos prévios necessá- rios, falta conhecimentos básicos de matemática e física. Mas, o que a instituição está fazendo para minimizar as dificuldades desses alunos? A instituição desqualifica esses alunos quando os reprova e os exclui do processo escolar. A escola inclusiva reconhece a diversidade que constitui seu corpo discente e a ela responde com eficiência pedagó- gica.
A percepção dos alunos quanto à atuação institucional e as sugestões por eles dadas para o favorecimento à permanência e êxi- to dos alunos nos cursos analisados, é muito esclarecedora e deve ser levada em consideração pela Instituição.
Os alunos do CST apesar de afirmarem que possuem uma boa relação com os professores solicitam cursos de formação pedagógica para aprimoramento da prática docente. Pedem que os professores levem em consideração a diversidade dos alunos em sala de aula, aper- feiçoem seus métodos de avaliação, interajam e motivem os alunos, auxiliando-os nas suas dificuldades. Os alunos solicitam que os pro- fessores avaliem a competência individual dos alunos, sem se basear num “padrão de aluno” ou num aluno ideal, ou seja, eles reclamam do tratamento padronizado, querem ser vistos na sua individualidade, pois suas dificuldades individuais não são sanadas no cotidiano das atividades escolares.
Além disso, solicitam maior interação e atenção da coordena- ção do curso com as fases iniciais, e são nelas onde ocorrem os maio- res índices de reprovação e evasão do curso. Percebem as dificuldades do aluno-trabalhador e sugerem que o curso seja ofertado no período noturno. Chamam a atenção para uma melhor divulgação do curso, tendo em vista o grande número de evasões causadas pela desinfor- mação dos que ingressam.
Para os alunos da Licenciatura as ações de apoio acadêmico oferecidas aos alunos devem ser incrementadas. Solicitam mais bol- sas de pesquisa e de monitoria e com valores mais significativos, para que os alunos possam se dedicar exclusivamente aos estudos. Além disso, que os horários disponibilizados pelo atendimento paralelo dos professores sejam compatíveis com o dos alunos. Com relação ao cur- so, a estruturação por módulos é considerada uma dificuldade para
a permanência, tendo em vista não possibilitar uma maior flexibilida- de para o aluno ao matricular-se. E, também, nesse curso os alunos apontam a divulgação deficiente do curso como causa de muitas eva- sões encontradas. É evidente a preocupação dos alunos quanto a ou- tras possibilidades e competências profissionais proporcionadas pelo curso, pois a docência, como única alternativa não é atrativa para os alunos.
Com os altos índices de evasão e reprovação verificados por esta pesquisa, pode-se considerar como provável que o insucesso aca- dêmico nos cursos de graduação do Câmpus São José do IFSC, mais do que um fator relacionado ao aluno, é um fenômeno institucional, reflexo da ausência de uma política efetiva de permanência e êxito, se caracterizando, dessa forma, como um fator de exclusão do processo educacional.
As políticas de inclusão educacionais propostas pelo MEC, pela SETEC e pelo IFSC, buscam favorecer os sujeitos em desvantagem social, seja pela condição socioeconômica ou ao pertencimento a um determinado grupo social, visando à promoção da igualdade de opor- tunidades e à melhoria das condições de vida desses sujeitos, contri- buindo para o exercício do direito à educação de qualidade para todos. Uma efetiva democratização da educação requer, certamente, políti- cas para a ampliação do acesso ao ensino, mas requer também polí- ticas voltadas para a permanência dos estudantes no sistema educa- cional.
Os documentos oficiais do IFSC mencionam a inclusão, a necessidade do olhar atento a cada indivíduo e a preocupação com a formação integral do aluno. Porém, se a instituição não levar em conta a diversidade do seu corpo discente, suas as necessidades e individu- alidades, continuará trabalhando no paradigma da educação como privilégio.
Avançar na construção de práticas educativas que contem- plem e respeitem a diversidade, significa romper com a ideia de homo- geneidade e de uniformização que hoje ainda prevalece na educação. Uma prática pedagógica que respeite o outro nas suas semelhanças e diferenças não condiz com práticas discriminatórias e nem com a cren- ça de um padrão único de aluno, de comportamento, de ritmo e de aprendizagem. E isso faz com que se possa afirmar que uma educação inclusiva e que respeite a diversidade do seu corpo discente, necessa- riamente recaia sobre a reflexão do papel do professor nesse processo. É preciso que os professores conheçam a diversidade de seus alunos e
de aula, tendo consciência do seu papel social, e da importância das relações interpessoais que se estabelecem.
Ressalta-se que o IFSC é uma instituição que possui estrutu- ra física e profissional de qualidade e com condições de colocar em prática suas concepções e diretrizes educacionais e suas políticas in- clusivas, bastando para isso o comprometimento da Instituição e dos profissionais que nela atuam.
Dessa forma, sugere-se, para o favorecimento da permanên- cia e do êxito no percurso formativo dos alunos dos cursos de gradu- ação do câmpus São José do IFSC, que a instituição busque: a am- pliação o Programa de Atendimento ao Estudante em Vulnerabilidade Social, de forma a atender um maior número de alunos e com benefí- cios mais significativos; a regulamentação dos Programas Universais previstos e aprovados na Política de Assistência Estudantil do IFSC; ampla e eficiente divulgação da instituição e dos cursos oferecidos ao público em geral; ampliação e reestruturação dos programas de apoio acadêmico oferecidos aos alunos (monitoria e atendimento paralelo); o aprimoramento da prática docente visando o desenvolvimento do saber pedagógico e das relações interpessoais; acompanhamento aos alunos cotistas; atenção às solicitações dos alunos quanto às questões específicas relacionadas a cada curso.
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