O ribeirinho vive em um habitat complexo devido ao caráter mutante deste ambiente onde ocorrem anualmente grandes variações do nível dos cursos d’água, entretanto esta população apresenta uma extrema dependência da várzea bem como do rio. Retiram seu sustento do rio na época das cheias, bem como da várzea na época da vazante e seca. A cultura e o modo de vida estão inseridos neste contexto. Ao mesmo tempo a sua moradia fica vulnerável devido, a força dos rios e ao solo frágil sobre o qual está fixada suas fundações, pode-se observar que as planícies inundáveis do rio Solimões recebem camadas de terra ano após ano, tornando-se, portanto, um solo frágil e variável.
A maioria das edificações das comunidades ribeirinhas, próximas à Manacapuru – AM são palafitas e flutuantes, com estrutura e vedação em madeira, paredes finas, telhas de zinco e pequenos beirais. A partir das visitas observou-se que as coberturas metálicas vêm sendo adotadas em ampla escala na região em substituição aos telhados de palha.
A avaliação do conforto térmico das populações ribeirinhas, foi analisada por meio de duas estratégias, levantando a percepção dos moradores por meio de análises estáticas bem como, a coleta de dados climáticos dentro da habitação por meio de uma estação meteorológica automática portátil.
A análise da percepção dos usuários sobre ao clima, foi realizada por meio de questionários aplicados nas duas comunidades visitadas Pesqueiro e Calado, avaliando questões de gênero, idade e IMC, associado o estado de conforto ao tipo de moradia, palafita, flutuante e casas não elevadas do chão, aplicando os modelos matemáticos adaptativos de Nugyen et al (2012) para zonas térmicas semelhantes à região Amazônica.
A avaliação por meio da análise estatística com questionários levantou pontos importantes que foram discutidos durante a investigação e demonstrou eficiência na comprovação dos resultados, evidenciando por meio das respostas, que a percepção e preferência dos inquiridos apontam para ambientes mais frescos, no entanto os mesmos aceitam aquela situação climática.
Estatisticamente, observou-se ainda que a casa não elevada do chão foi a tipologia considerada mais confortável para o período das 20h30, enquanto a tipologia flutuante é a mais desconfortável por calor no mesmo período, entre eles.
Ao analisar gênero, idade e IMC, não se observou diferenças estatísticas na percepção do calor, porém os testes apontaram para uma tendência ao fato de que pessoas idosas são menos sensíveis ao calor para o período das 12h30, corroborando com a literatura que aponta para o fato de que em seres humanos idosos têm a diminuição da percepção a mudanças térmicas e este fato pode levar aumento da mortalidade.
Já a partir dos dados térmicos coletados em uma habitação ribeirinha da tipologia palafita na comunidade Pesqueiro por meio da estação meteorológica automática portátil no período de 48 horas, observou-se valores de temperatura média do ar na casa dos 30,7°C e umidade relativa do ar média na faixa dos 72,8%, contrapondo-se a baixos valores da velocidade do ar. Tais dados comprovam que na zona bioclimática 8 (clima quente e úmido), para que ocorra a melhora do conforto da edificação, deve-se associar técnicas passivas e ativas como ventiladores ou exautores.
O equipamento foi instalado em uma casa da tipologia palafita com telha metálica em um quarto sem forro, entretanto observa-se que a casa faz uso de algumas estratégias Bioclimáticas para a zona 8 (quente e úmida) observadas nas normativas Brasileiras 15520 (2005) e 15575 (2013), entre elas pode-se destacar aberturas sombreadas, varandas e grandes beirais para proteção da radiação solar e de chuvas, orientação favorável dos cômodos de permanência prolongada e o uso da ventilação cruzada. Estes fatores proporcionam um período de 15 horas diárias, para o período de análise, dentro da faixa de temperatura de conforto indicada pelo modelo de conforto adaptativo. Contudo observa-se que edificação não atende as exigências da norma de desempenho pois as temperaturas máximas internas ultrapassam a máxima externa.
Conclui-se que as estratégias bioclimáticas melhoram sensivelmente as situações de desconforto, sendo a ventilação cruzada associada a forro em madeira ventilado, uma das mais eficientes para aquela região. Na cobertura o projeto deve privilegiar uma maior inércia térmica pois o principal problema, na região de estudo, é o aumento das temperaturas gerados pelo uso de telha metálica simples.
Observou-se que a grande maioria das edificações ribeirinhas não aplicam as estratégias acima. Este fato foi significativo nas respostas dos inquiridos quando comparados a análise meteorológica interna, pois as respostas refletem, em suma, a
habitações que não utilizam de estratégias para a otimização do conforto, como na casa em que instalou-se o equipamento de medição
Entretanto pondera-se que a normas muitas vezes subestimam a adaptabilidade de moradores de regiões de clima quente e úmido. O modelo adaptativo avaliado considera que habitantes destas regiões se adaptam a uma faixa mais ampla de temperaturas, do que as normas Brasileiras recomendam.
Como destacado acima a telha metálica vem sendo adotada em ampla escala na região amazônica substituindo os telhados de palha, e estas elevam as temperaturas do ambiente interno da edificação piorando o conforto em situações climáticas extremas. Nesta pesquisa observou-se que a aplicação da telha eleva as temperaturas dentro da habitação ribeirinha em mais de cinco graus em relação os telhados de palha, como comprovado pelas medidas realizadas pela câmera termográfica e este fato calor piora a qualidade de vida destas populações. Outro fator importante é que o impacto da telha metálica sobre a saúde destas populações não é analisado por grande parte dos pesquisadores, pelos governantes e pela própria comunidade ribeirinha.
Sugere-se que as indústrias desenvolvam tipos de cobertura a partir de composições de fibras naturais prensadas pois a telha metálica soluciona um problema, mas causa outros. Esta pesquisa indica a aplicação na habitação ribeirinha de coberturas composta com várias camadas associado a telha metálica com materiais de maior inércia térmica e uma câmara de ar ventilada junto a telha.
Sugere-se também que futuras pesquisas sejam realizadas utilizando de um maior período de análise e coleta de dados, bem como que a mesma seja realizada sazonalmente, utilizando mais unidades da estação meteorológica automática portátil, com a finalidade de averiguar a situação de todas as tipologias construtivas disponíveis na região de estudo, propiciando uma comparação da situação climática das mesmas.
Nas questões relativas ao ciclo de vida habitação em madeira identificou-se a importância de resgatar beirais maiores que protegem a vedação e melhoram o conforto, bem como a inclusão de elementos de estabilidade como os contraventamentos para estruturar as paredes e fundações, em especial nas palafitas em área de várzea impedindo que estas tombem facilmente ampliando o ciclo de vida do edifício, de modo a salvar vidas, assim como o uso nas fundações de barrotes estruturantes mais robustos ou mesmo o uso de brocas de concreto. Nas futuras
pesquisa é importante a busca por uma arquitetura anfíbia que integre a tipologia palafita e flutuante.
A falta de saneamento básico é um dos principais problemas existentes nas comunidades ribeirinhas pois até os dias atuais o esgoto é lançado a céu aberto ou em fossas sépticas simples e esses problemas se ampliam na cidade quando somado aos resíduos sólidos. Nas cheias a situação se torna mais crítica pois ocorre a elevação dos esgotos, causando risco à saúde desta população, por meio da contaminação das águas, que provocam diversas doenças como destacado na pesquisa. Observou-se que este é um dos problemas principais ligados a saúde pública e gerador de doenças patogênicas ampliando as vulnerabilidades social das populações mais carentes.
Em Manacapuru no bairro da Correnteza bem como nas comunidades em áreas de várzea estes problemas de ordem sanitária foram observados. É importante destacar que com o uso de conceitos mais contemporâneos pode-se minimizar tais problemas a um baixo custo, com a aplicação do sistema de fossa séptica em três fases a (decantação, filtro e sumidouro) fixados sob as moradias palafitas que podem atingir uma eficiência de 60%, assim como os biodigestores que podem ter uma eficiência de 100%, permitindo ainda a geração de energia elétrica.
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