SOCIEDADE E A FAMÍLIA
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Trabalhar com materiais audiovisuais no ensino de língua inglesa tem sido uma constância do meu cotidiano, discutir temas polêmicos torna as aulas um desafio. Mas interessante mesmo será abordar os temas “estranhos ou incômodos aos currículos, às práticas e às teorias pedagógicas” (LOURO, 2004, p. 7).
A motivação que me conduziu a essa pesquisa tem em vista a necessidade da discussão diária sobre os mais diversos temas na Educação, as crenças e valores dos alunos e muitos questionamentos que me levaram a trabalhar não só o conteúdo linguístico de um idioma como o inglês, mas elementos que lhe conferem aspectos alinhados com a cultura de modo a envolver o próprio indivíduo no seu contexto escolar.
Assim, foi escolhido como objetivo o que os alunos gostam: Glee. Um musical
comedy-drama com jovens vivendo situações que envolvem problemas de relacionamento,
sexualidade e questões sociais em geral como: gravidez, pais separados, deficiências, cor, gênero.
Para tanto, com o objetivo de identificar como Glee, uma transmedia storytelling se reporta a essas identidades, dentro de um ambiente rígido e controlador como a escola, adotamos um modelo de pesquisa qualitativa que nos levou a efetuar um Estudo de Caso do grupo musical dessa série.
Assim, lançamos um olhar mais cuidadoso sobre questões que envolvem as narrativas dos personagens desse grupo. Fizemos isso, partindo do pressuposto que suscitaram fatos instigantes do ponto de vista da análise que foi proposta: o exame categorizado das construções identitárias. Os procedimentos metodológicos empregados foram: a observação e a descrição das falas, mas sem pretender esgotar a análise do que se refere à sexualidade, identidade de gênero ou sexual; seria muita pretensão da nossa parte tentar fazer isso, ou mesmo dar cabo do que seria a pluralidade cultural.
Esta pesquisa se baseia num modo de produção do social, em que os diferentes se encontram em um mesmo mundo e devem conviver em relações de negociação, conflito e empréstimos recíprocos. A partir disso, buscou-se integrá-la aos objetivos propostos, estimulando a reflexão, essencial na construção de novos conhecimentos científicos. Com um
olhar sob a luz de autores que subsidiaram na construção identitária, pontuamos as diferentes culturas, a dinamicidade e a inter-relação entre elas. Tentamos, na forma do possível, conceituar a construção histórica dos corpos como identidade de gênero e sexual num embate entre o que se considera cultural e natural, remontando ao passado, elencando autores e elementos que pudessem desvelar um presente em que as redes sociais se tornaram palco de expressões das intimidades, balizando um subjetivo que se encontra noutras formas de ser e estar no mundo. Demonstramos, também, como a mídia pode ser questionadora ao mesmo tempo que muitos indivíduos constituem suas identidades a partir de um produto transmidiático como Glee e como essa produção pode impactar para a derrubada de alguns pré-conceitos ao abordar alguns marcadores sociais como os de cor, gênero, nacionalidades subalternas, deficiências, e outros, ainda considerados tabus, como a homossexualidade, a homoparentalidade e a masculinidade precária, descartando, assim, da imagem que lhe foi atribuída como alienadora no seu papel de informar.
A realização da pesquisa revelou que dentro da escola a sociedade é dividida em posições de hieraquizações. Uma está no centro, na zona de conforto, na qual há alunos que são extremamente revelados em uma sociedade compulsória e preconceituosa, que pregam a homofobia, xenofobia, lesbofobia; que batem, empurram, jogam na lixeira, cometem atos de atrocidade, bullying, com base numa cultura hegemônica.
Mas mostrou, também, que, embora os considerados por eles de losers, se encontrem presos às amarras dessa mesma sociedade que os deixam às margens, um empoderamento se faz presente, dando-lhes voz, vez e visibilidade para lutar contra os preconceitos, a fim de criticar uma realidade e construir outra, fruto dos novos tempos.
A partir dessas prerrogativas, conclui que as personagens assumem para si uma concepção de se descartarem das categorias de indivíduo e de identidade, indicando outros caminhos para a experiência subjetiva e revelação que desemboque num universo que proponha abandonar a posição de segurança e de conforto para ousar aquilo que de fato as constituem como seres humanos.
Evidenciou-se, ainda, o medo dos gays em se assumirem, ou o que parece ser uma difícil tarefa de encarar a sociedade, ao mesmo tempo em que torna público fatores para o enfrentamento dos problemas e os riscos a que estão expostos os sujeitos ao assumir sua orientação sexual; também, oportunizou-se ver os prejuízos de não se assumir.
A análise da primeira temporada de Glee nos permitiu refletir sobre pontos importantes na constituição dos sujeitos. Trata-se de uma realidade em que os protagonistas raramente se deixam abater, saindo da posição de sujeitos marginalizados não para o centro ou a zona de conforto, mas para um estado de juízo de valores com direitos que os levam a escapar de visões estereotipadas que geralmente são apresentados nesses programas televisivos, reforçando a identidade de jovens pertencentes a grupos minoritários existentes em uma escola, por exemplo.
Podemos inferir, então, que a figura do loser, atribuída a eles, não cabe aqui, já que nenhum desses jovens é perdedor – vez que, em algumas cenas, eles acreditem nisso –, eles não desistem com facilidade e muito menos aceitam o lugar destinado compulsoriamente a eles.
Ressaltamos aqui que, embora o tratamento dado na composição deste texto tenha sido de acordo com as normas de produções acadêmicas, procurou-se, de algum modo, aproximá- lo ao máximo possível de um nível de linguagem que pudesse dar acesso a determinados leitores, como, por exemplo: colegas de trabalho, alunos e professores do Instituto Federal Baiano, protagonistas do palco da vida real, que também estão inseridos nesse mesmo contexto de Educação, de Escola, de construção identitária e social.
No entanto, gostaríamos de frisar que, em nenhum momento, tivemos a pretensão de comparar Glee, uma produção com projeções cinematográficas, com o sistema escolar brasileiro, mas sim, de colocar em evidência o que ainda pode ser considerado um atraso na nossa sociedade; os desafios e as dificuldades que esta tem em lidar com os preconceitos e desconstruir os estereótipos.
Fato é que há indicativos de que nossa sociedade está despreparada para problematizar tal temática. A própria TV Globo, detentora dos direitos de exibição da série, demonstrou ter sido obrigada a mudar a grade de horário, por acreditar que seu público não está preparado para cenas como, por exemplo, a do beijo gay. Houve vários cortes de cenas115, na versão
dublada, para exibição durante o dia, por receio de que cenas como o bullying, o alcoolismo, pudessem incitar nos jovens as mesmas atitudes116, – uma vez que esses problemas existem e
115 Fonte: < http://gleekoutbr.com/glee-na-globo-queda-na-audiencia-corte-das-cenas/ > Acesso em: 22 dez. 2011.
116 Fonte: < http://colunistas.ig.com.br/natv/2011/06/21/enquanto-globo-exibira-glee-retalhada-fox- lancara-the-glee-project-com-participacao-de-brasileiro/ > Acesso em: 22 dez. 2011.
o que falta é a sua problematização no espaço escolar –, o que fez com que a série perdesse os aspectos que pudessem dar mais visibilidade para essa problematização.
Na realização desta pesquisa, acredito ter alcançado todos os resultados esperados, acredito, também, que devemos refletir que, nessas narrativas, se destaca a importância de valorizar o processo de desconstrução de estereótipos, sustentando, porém, que ainda são necessários estudos aprofundados que deem conta da complexidade teórica que circunda esta temática.
E, se me perguntarem “por que esse tema, fora do campo de atuação, uma vez que sou professor de língua inglesa”, nesse caso, terei a mesma resposta que Guacira Lopes Louro teve, quando perguntaram a ela o motivo de ter-se desviado da sua trajetória acadêmica (A disciplina História), seu campo de origem, para trabalhar com temáticas tão “mundanas”: “Respondi que isso tinha a ver com minha história como intelectual” (LOURO, 2004, p. 55). Ainda, acrescentarei: porque isso tem a ver com minha carreira como pessoa responsável, também, por uma formação humana em que se sente no dever de, na hora em que os estudantes levantarem questões como essa, na sala de aula, onde esse mesmo professor lida com alunos plurais, questões que representam um tema como muitos outros debatidos na realidade do ensino de cultura, como é o caso da língua inglesa, não silenciar diante dessa questão, a meu ver, mais relevante em responder.
Para mim, concluir este trabalho não representa um fim, pelo contrário, este terá sido o início para outras pesquisas na busca do pleno conhecimento, de modo a contribuir com os colegas, alunos e familiares, e eu pretendo fazer isso. Pois para mim, o aprendizado de novos conhecimentos, em especial no que diz respeito à identidade cultural, representou não só o crescimento profissional, mas, mais que isto, uma realização pessoal, significou compreender o ser humano na sua esfera subjetiva, significou perceber que ensinar a língua inglesa como agente de transformação social, não é só ensinar conteúdos, mas que é preciso ir além da fronteira do currículo escolar, para apontar que uma educação de qualidade, que se preze pelo direito e a cidadania, também se pauta na problematização da construção das identidades.
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