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Com a pesquisa participante, foi possível inferir que a mobilização dos sujeitos educandos em seu processo educativo na escola foi se constituindo a partir dos vín-culos que foram se construindo ao longo do desenvolvimento desta situação de prática educativa - prática de pesquisa. Vínculos baseados na dialogicidade e horizontalidade que assumimos como norteadores da prática. Elementos que foram se incorporando ao cotidiano da prática educativa, que se refletiram na participação efetiva, dialógica e horizontalizada dos sujeitos educandos.

Nesta experiência de pesquisa fomos conduzidos por caminhos de construção coletiva, de partilha de saberes, ressignificações, ampliações, aprendizagens novas.

Também de resistências. Resistências compartilhadas por passageiros da noite, su-jeitos educandos e susu-jeitos professores, em sua viagem de ensinar e aprender, de aprender e ensinar, mesmo lutando contra o cansaço do dia, o peso das dificuldades econômicas, sociais.

Essa partilha só foi possível a partir da assunção de uma relação de horizonta-lidade no processo educativo, num processo de humanização tanto dos sujeitos edu-candos, como dos sujeitos professores. Desse percurso emergiram descobertas a partir da análise atenta das construções de conhecimento dos sujeitos educandos, que nos deram pistas dos elementos que foram mobilizadores de suas aprendizagens, elementos esses que foram se mostrando à medida que reconheciam ser possível ler suas palavras, as palavras do mundo, suas palavras no mundo.

Mas antes de tudo, essa experiência só foi possível pelos atos-limites dos su-jeitos educandos, que a partir da tomada de consciência de suas situações-limites, adentraram à escola em busca de inéditos-viáveis. Nesse caminho, nós também des-cobrimos nosso inédito-viável, o de construir espaços/tempos da EJA como processos de Educação Popular nas escolas públicas.

Dos temas geradores que foram diretrizes da organização dos conhecimentos trabalhados em nossa experiência educativa - prática de pesquisa, extraímos também as categorias de análises que utilizamos para apreciar os dados de nossa pesquisa, para entender como/se a confluência de saberes escolares e saberes das cotidiani-dades dos sujeitos educandos poderiam contribuir na (re)construção de saberes e, portanto, democratizar os saberes construídos na EJA das escolas públicas.

145 Buscamos a construção de um processo de Educação Popular para nortear o processo educativo e, nesse percurso, reconhecer como esta concepção e conjunto teórico-metodológico poderia nos guiar para ressignificar a construção de saberes dos sujeitos educandos e democratizar o processo educativo. Percebemos que, primeira-mente, nos orientou na prática da reflexão-ação. A rotina de fazermos reuniões perió-dicas coletivas para avaliação do processo educativo contribuiu para que refletísse-mos nossa prática de forma sistematizada. Os sujeitos educandos puderam refletir sobre o processo educativo de forma partilhada com a professora e isso fortaleceu suas aprendizagens devido ao reconhecimento de serem parte do processo.

Nesta experiência de pesquisa participante, vislumbramos que o saber mais (que foi um dos elementos mobilizadores da aprendizagem descobertos nas análises dos dados) significava para os sujeitos educandos uma forma de alcançar seus inédi-tos viáveis. Nesse sentido, percebemos que esse processo de construção de autono-mia (um dos temas geradores que se desdobrou em uma das categorias de análise) se mostrou como caminho para a mudança (mais uma categoria de análise) preten-dida por eles em suas vidas.

Então temos que, as práticas educativas norteadas pela Educação Popular nos conduziram por um caminho em que a construção de autonomia buscada pelos sujei-tos educandos, levaram ao saber mais através, principalmente, das reflexões sobre a cotidianidade. Esse movimento, na compreensão dos sujeitos educandos, os impulsi-onaria à mudança, materializada em seu entendimento, na melhoria de atuação no trabalho/progressão no emprego, satisfação pessoal, melhoria de vida.

Compreendemos que o processo de construção de autonomia, revelado na pesquisa participante, abre possibilidades de emancipação desses sujeitos e, por-tanto, de liberdade, visto que substancia sua mobilidade social.

Nossa pesquisa revelou que é necessário construir outras formas de práticas educativas na EJA e que a Educação Popular como norteadora dessas construções possibilita uma relação de identificação necessária no caminho de ressignificação da EJA nas escolas, como também, no conjunto das políticas públicas direcionadas para atender a Educação de Jovens e Adultos.

Insistimos na premência de se construir outras formas de ensino e aprendiza-gem na escola pública por vivenciarmos há mais de dez anos a recorrência das difi-culdades enfrentadas pelos sujeitos educandos em permanecer na escola. Sujeitos

146 educandos em atos-limites (no caso relacionado à escola, a própria decisão de voltar à escola), trazendo para o cotidiano escolar suas situações-limites e os inéditos viá-veis de suas cotidianidades, que encontram escolas em quadros de precariedade em todas as dimensões, estruturais, pedagógicas, políticas, ou seja a escola não se es-trutura para acolher o educando, o que seria fundamental para motivação e perma-nência dele no espaço tempo escola.

Realizar esta pesquisa, da forma como foi se desenvolvendo, em partilha de saberes, em relações horizontalizadas, pensando a partir do lugar da escola, mas em confluência com o lugar acadêmico, foi um desafio e uma experiência ímpar, singular.

Vivenciar os vínculos que foram sendo construídos, observar e presenciar a mobiliza-ção dos sujeitos participantes ao perceberem suas capacidades, contribuiu para com-preendermos que a EJA é por si só um lócus de resistência e enfrentamento social.

Percebemos o significado da humanização, em que a partir da educabilidade, sociabilidade, politicidade, partilha, respeito, fomos nos humanizando entre si, profes-sora/pesquisadora e sujeitos educandos no caminho de construção de processos de democratização de saberes, de uma Educação Popular na escola pública.

Nossos “achados” demonstram que, a partir do desenvolvimento de uma forma mais horizontalizada de educação, de um processo de ensino aprendizagem dialógico e de uma pedagogia problematizadora, há evidências de construções de elementos mobilizadores de aprendizagem dos sujeitos educandos.

Percebemos indícios da concepção de Educação Popular na escola, embora que não sistematizados e dentro de um contexto de disseminação realizado através de senso comum. No caminho de reconhecer que é possível ressignificar a EJA como um processo de EP e entender que a EP como concepção norteadora das práticas da EJA vai configurando processos de democratização dos saberes, encontramos um lugar de EP na EJA das escolas públicas.

Ao longo do desenvolvimento dessa experiência de pesquisa tendo como fun-damento a nossa prática pedagógica, foram surgindo diversas questões, as quais não puderam ser respondidas nesse trabalho, nem era nossa intenção trazer soluções e respostas prontas como receitas. Questões sobre as concepções dos professores que atuam na EJA do município de João Pessoa sobre suas próprias práticas pedagógi-cas, sobre o que estão pensando e realizando nas escolas da EJA em que atuam.

147 Questões sobre nossa formação inicial e continuada, sobre o papel das universidades nesse contexto, entre tantas outras.

Compreendemos que todas as respostas a estas e outras questões sobre a EJA, a educação popular, a pedagogia problematizadora, processos de ensino e aprendizagem dialógicos, podem ser analisados em um lócus privilegiado para tanto, o lócus em que se desenvolve, no nosso caso, a escola pública.

Pensamos que esta pesquisa representa que, mesmo com as variadas dificul-dades para que seja efetivada a educação escolar dos segmentos populares, a escola pública é uma conquista e deve ser pensada como lugar de democratização de sabe-res, lugar de sociabilidade, de reflexões. Nesse sentido, compreendemos que a EJA na escola pública pode se (re)construir e se ressignificar a partir de uma pedagogia problematizadora, em confluência de saberes, em processos de Educação Popular.

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