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A pesquisa formal é incessante, a linguagem teatral é questionada de maneira profunda. Dialoga com a tradição para ultrapassá-la, e o faz criticamente. O discurso não é desprovido da poética. Pelo distanciamento operado no espaço e no tempo, questões cotidianas, tidas como habituais e eternas, podem ser vistas com estranheza e, portanto, retirada a crosta do cotidiano, cria-se a possibilidade de serem modificáveis.

[AGENOR BEVILACQUA SOBRINHO]

As dificuldades em estabelecer relação entre o melodrama e o teatro épico de Bertolt Brecht nascem não somente das diferenças existentes no contexto sociocultural de cada um deles, mas também do grande aspecto pejorativo que foi, e ainda é, dedicado ao primeiro gênero. É certo que a estrutura melodramática parte de uma composição muito simples: de um lado está a luta do bem contra o mal e, de outro, consequentemente, a busca pela reparação de uma injustiça e/ou a procura de uma felicidade amorosa.

Além disso, acrescenta-se a essa questão a ideia de um gênero popular e seu apelo para os aspectos visuais em detrimento da literatura. E assim têm-se os componentes básicos para que críticos e historiadores assentarem o melodrama em um nível dramatúrgico e estético inferior aos das grandes obras dramáticas.

Ainda, outros fatores contribuem para a desqualificação do melodrama por parte de alguns críticos, um deles está ligado a sua consolidação na França, quando da ascensão do Regime de Napoleão em 1799, momento em que alguns autores de melodramas foram complacentes com o poder estabelecido, seja para não terem suas obras censuradas e/ou aproveitar do entusiasmo popular estabelecido na época. O Próprio Brecht (1967) aludiu sobre a relação das peças populares e certos regimes políticos, pois para ele determinados governos projetam em seus povos os reflexos de algumas destas obras: falta de pretensão

e desconhecimento. Mais tarde, as críticas ao gênero partem do princípio da utilidade mercadológica a qual o melodrama se prestou.

No entanto, retirando a poeira sobre o gênero, pode-se perceber que seus recursos linguísticos e de enunciação podem servir a necessidades outras – objetivas - do teatro, que não apenas do despretensioso e superficial das peças populares à prostituição mercadológica da arte de consumo perante seus clientes impotentes. Comparação que é feita por Brecht (2005) ao se referir à indústria cultural estadunidense logo após a negativa do círculo de giz caucasiano pelos produtores da Broadway.

Assim, na primeira parte desta pesquisa identifiquei e analisei elementos e características do gênero melodrama na peça de Brecht, em específico no metateatro, comparando e apontando o diferencial brechtiano que conduz a uma leitura parodiada do gênero.

A paródia se apresenta ao longo da análise como um jogo de comparação à reminiscência literária teatral: o melodrama. Constitui-se assim o discurso crítico, transformador, pois que adquire novas significações após o destronamento do gênero. Neste sentido, o caráter paródico não pode ser emprestado aos fins de uma técnica simplesmente voltada ao riso ou a uma linguagem de desprezo, uma vez que, como verificado, percebe-se como o recurso paródico vai para além do risível e, principalmente, porque é um recurso extremamente crítico em si e distanciador. A constar que, a partir da “abertura da peça”, o leitor é levado a uma postura marcadamente anti-ilusionista, distanciada (com prólogo, autor, música): é um teatro que não esconde ser teatro, máscara, disfarce, acumulando a função da peça dentro da peça.

Em seguida, busquei recuperar as etapas do fenômeno teatral (autor-obra- público) tanto no melodrama como no épico e, assim, constatar mais uma vez, que o recurso paródico cria um texto paralelo e não reverenciador do texto anterior.

Brecht é dos que não tem medo de tomar modelos. Ele cria uma paródia com O Círculo de Giz, mas não reverencia o melodrama. Ele parodia e logo constrói personagens à luz do recurso cômico e ingênuo, porém crítico, principalmente na construção da personagem Azdak, que se configura como o exemplo do destronamento, quando cria uma lei baseada em uma ética popular e

Grusche que traz uma situação melodramática para ser julgada pela transgressão de Azdak.

Durante o percurso de reflexão, vislumbrei um jogo no qual as lágrimas pudessem ser convertidas em reflexão, o gesto exagerado em gestus social, apostando no entrecruzamento do enunciado melodramático e o contexto de enunciação do autor, na suscitação de metáforas sociais dentro de um universo descomedido do melodrama.

Busquei investigar um modo de atuação e representação melodramática e brechtiana compreendendo seus contextos sociais de revoluções, de batalhas e conquistas, para então apresentar a transposição de Brecht para questões mais lúgubres dos “julgamentos” sociais. Desta maneira, se a intensidade das conflagrações vivenciada pelo período da Revolução Burguesa perpassa para o gesto e voz dos atores descomedidamente é porque nada que acontece em uma revolução é de dimensão contida e intimista, desencadeando em uma interpretação exagerada.

Brecht poderá até utilizar-se de determinados exageros, porém ele compreende que uma batalha não é apenas física, de trincheira, ela também acontece nos gabinetes, na mente, e neste aspecto ela é de foro íntimo e controlada. E, por isso, seu jogo de atuação é o das contradições, dos opostos, que se entrecruzam proporcionando um teatro de riqueza e variedade. Como visto resultado das leituras anteriores, Brecht não anula as emoções, ele as mostra, exigindo que o leitor (espectador) eleve-as ao nível do raciocínio e com lucidez.

Por último, procurei compreender a história, os sujeitos e os gêneros a partir de um entrelaçado de aproximações e distanciamentos. Entendendo O círculo de

giz caucasiano sob a perspectiva do teatro épico, a peça investe na tradição de

forma e estilos a fim de ultrapassá-los de maneira crítica. Desta maneira, em um primeiro instante, no plano da identificação dos sujeitos e suas preposições ao épico brechtiano e ao melodramático, o pensamento culmina na reflexão de que as questões sociais no melodrama se dão de forma indireta a seus acontecimentos; é um pano de fundo de uma história contada na lógica do sujeito da razão, soberano.

Já Brecht ao entender o sujeito por uma perspectiva sociológica, ergue sobre o proscênio um tear social, no qual as relações subjetivas dos indivíduos só

são identificadas, pelo menos em tese, quando atravessadas por essa primeira vista.

Se a lenda chinesa O círculo de Giz pode ser considerada uma estória análoga à parábola bíblica do julgamento de Salomão, como posto no início deste trabalho, as duas narrativas contribuíram na organização de uma nova e objetiva rede de significações no tocante à relação do homem com a propriedade, Portanto, fez-se necessário compreender como as vozes do discurso alegórico se entrelaçavam ao discurso da objetividade épica: o da posse social.

Desta maneira, busquei investir na tensão direta entre estas duas estéticas. O sofrimento da criada Grusche e do pequeno Miguel foi o ponto de partida para descobrir o melodrama, apostar na hipótese inicial. Mas, no movimento de achar essas pérolas, encontrei outras, mais complexas, maiores, quando vi em Brecht a subversão do gênero. Na fábula interpretada e reproduzida, no contexto do texto todo, soma-se a voz de Brecht às várias outras vozes intrínsecas no discurso da narrativa, e que ainda serão afetadas pelas diferentes vozes sociais, culturais e históricas de seus receptores: o público.

Os desdobramentos dessa pesquisa conduziram-me à ideia de que Brecht não abre mão de recursos e mecanismo linguísticos do teatro burguês o qual sempre buscou criticar, opondo-se de certo modo ao rigor de suas convenções políticas e de luta, acarreta na tese - percebida por mais de um teórico - que mesmo teorizando uma prática contra o teatro do passado, é no próprio teatro do passado que está para Brecht o caminho mais apropriado de desconstrução ou elevação de um discurso. Em específico, em O círculo de giz caucasiano a relação com o melodrama na França ganha proporções mais significativas devido à ligação do gênero e a Revolução Burguesa, no qual a relação do homem com a propriedade começa a ganhar novos contornos que são colocados em xeque por Brecht.

A relação entre Brecht e Melodrama, como dito na apresentação, encaminhou-me para um jogo de possibilidades, vislumbres e conjunturas prováveis. É um estudo de olhares sobre e entre olhares no qual a engenhosa arquitetura épica de Brecht revela uma tessitura de esconder e revelar o vaivém entre passado e presente, de se valer do uso de formas antigas ponderadas ao

seu tempo e de demonstrar um teatro de possibilidades, de busca. E por isso é um teatro de trilhos, pois conduz a probabilidade de surgimento de novas formas.

Por fim, convido o leitor a navegar na imagem que construí ao longo da escrita dessa dissertação:

Em uma estação de trem, pessoas bem vestidas esperam para embarcar. O apito da locomotiva avisa que logo irá partir. As pessoas sentam-se em seus lugares devidamente marcados. Em algumas cabines, as paredes são estofadas, porém, um pouco corroídas lembram que a pompa que era outrora presente, hoje está no passado. A fumaça corre pela lateral externa do trem embaçando a visão do seu exterior. Logo a luxuosa estação é deixada para trás e os trilhos vão conduzindo os vagões para outras paisagens. As casas simples de operários à beira da estrada de ferro é o anúncio de que, logo a frente encontra-se uma grande fábrica. Os trilhos adentram na vila. Alguns passageiros fecham suas janelas, não querem ver. Agora pode-se olhar entre as portas e vidraças, como que pelo buraco de uma fechadura. Pode-se ver um homem colocando um uniforme pardo e pesado sobre o corpo ou uma mulher mexendo algo em uma caçarola já um pouco amassada. Em um dos cômodos há uma criança que chora, quando lá eles se encontram é acionada a troca de linhas. Aquela casa se distancia, volta a ser mais uma casa em meio às várias outras. Crianças correm e acenam para a locomotiva. Ao fundo, um grupo de pessoas reunidas conversa e gesticula sobre algum assunto. O homem de uniforme pardo ao longe atravessa a rua. A mulher com a criança corre para alcançá-lo. A fumaça corre novamente pela lateral externa do trem. E quando se pode ver com nitidez o lado de fora, vêem-se enormes muros cor cinza de uma fábrica de tecido. Alguns operários irão ocupar os últimos vagões. O que não importa, a locomotiva deixou de ser a história, quando o que está lá fora, às margens dos trilhos, é o que queremos ver.

Os trilhos épicos de Brecht que conduzem os percalços do melodrama. O percalço pode ser entendido nas duas concepções distintas da palavra: ganhos e transtornos. Uma vez que, ao jogar com a tradição tanto das formas quanto dos assuntos, o teatro de Brecht, como os trilhos, tem poder de decisão: ele guia, enquanto a locomotiva melodramática é guiada.

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