• Nenhum resultado encontrado

CONSIDERAÇÕES FINAIS

No documento VALDIRENE FURTADO (páginas 48-54)

Mais do que pontuar algumas questões referentes à educação oferecida à mulher, a partir da incorporação do sistema de ensino baseado nos Grupos Escolares, esta pesquisa pautou-se na tentativa de esclarecer quais as diferenciações estabelecidas e consolidadas nas instituições escolares. Qual a relevância social destas diferenciações e como podem ter influenciado a condição da mulher na sociedade.

Principalmente a partir da divisão dos saberes, constituindo-se as disciplinas escolares, a diferenciação do ensino destinado à instrução de mulheres tornou-se visível. Pois, a divisão racional do conhecimento geriu a necessidade da instauração de um mecanismo que tornasse possível uma organização destes saberes, emergindo aí o currículo, que logo se consolidou com um importante aspecto da cultura escolar. Este mecanismo escolar além de fundamentar os ensinamentos passíveis de transmissão na escola, também serviu de estruturação disciplinar dentro da instituição. Contudo, nunca foi um instrumento neutro, sempre atendeu a finalidades, seja impostas pela necessidade escolar ou pelas demandas sociais. Portanto, a necessidade de buscar compreender o currículo e as disciplinas escolares dentro de um contexto que,

...longe de serem inserções intemporais de conteúdo, intrinsicamente valido, as matérias e as disciplinas estão em constante fluxo. Portanto, o estudo do conhecimento em nossa sociedade deveria ir além de um processo a-histórico de analise filosófica, em direção a uma investigação histórica detalhada dos motivos e das ações por trás da apresentação e da promoção das matérias e disciplinas. (GOODSON, 1990, p.236).

As influencias sociais foram determinantes na formulação dos conhecimentos destinados às mulheres. Já que socialmente suas funções deveriam estar atreladas à família, ao casamento e aos conhecimentos domésticos.

Disciplinada pelos homens, a educação das mulheres continuou um prolongamento da educação familiar. Enquanto estudavam, as jovens aguardavam o casamento e o estudo significava a maior parte das vezes uma preparação para isso, que era o que realmente importava em sua vida. Não eram mais as procriadoras incultas, mas as futuras esposas educadas, conhecedoras das necessidades do marido e dos filhos, alicerces da moral e

dos costumes, fiéis guardiãs do lar cristão e patriótico. Romper com tais estruturas, e sempre houve quem o fizesse, significava o degredo ou a condenação social. Portanto, o poder não se nivelou eqüitativamente, nem sequer significou a liberação das mulheres, mas apenas se humanizou ao consentir na sua instrução. (ALMEIDA, 2004, p.103).

As finalidades, explicitas ou implícitas, das disciplinas escolares permitem analisar, através dos regulamentos, normas ou discursos, como a educação da menina atendia a interesses de acordo com suas funções sociais. Valendo-se dos argumentos de Antonio Viñao Frago (1995), para atentar-se para o que compunha o implícito destes conhecimentos transmitidos pela escola, “las ideas y las creencias, los valores y las actitudes, las maneras de pensar y los modos de vida, los roles academico-intelectuales y los sociales”. (p.65).

Tanto nos discursos dos idealizadores da escola, nos mecanismos utilizados por ela, bem como em seu cotidiano não existia neutralidade quanto ao que era (re) passado aos alunos. Seus tempos, espaços, métodos de ensino, ensinamentos, atendiam a um objetivo. Estes aspectos compunham (e compõe) a cultura escolar. Para Dominique Julia (2001), assim pode se descrever este conjunto,

...poder-se-ia descrever a cultura escolar como um conjunto de normas que definem conhecimentos a ensinar e condutas a inculcar, e um conjunto de práticas que permitem a transmissão desses conhecimentos e a incorporação desses comportamentos; normas e práticas coordenadas a finalidades que podem variar segundo as épocas (finalidades religiosas, sóciopolíticas ou simplesmente de socialização). (p.10).

Esta percepção e compreensão dos objetivos e finalidades que permeavam os programas de ensino permitem inferir que em nenhum momento a escola foi uma instituição neutra. Mais do que isso, em vários momentos ela foi determinante na inculcação de valores e condutas sociais. Valendo-se também dos costumes produzidos na sociedade para elaborar seus conhecimentos. Portanto, a escola e o currículo escolar, influenciaram a trajetória feminina, seja na reprodução de conceitos sociais, como a educação oferecida a meninas privilegiando uma educação para os ambientes privados e destacando os ensinamentos domésticos.

Ou ainda na produção de estereótipos e diferenciações para a educação de meninas, seja pela sua condição física que era considerada inferior, ou por questões de ordem social.

REFERÊNCIAS:

ALMEIDA, S, Jane. Mulheres na Educação: missão, vocação e destino. A feminização do magistério do século XX. IN: Saviani, D. O legado educacional do século XX noBrasil. Campinas, SP. Autores Associados. 2004, p.61-107.

ALENCAR, José. Iracema. 36ª edição. 2004. São – Paulo –SP.

BENCOSTTA, A, L, Marcus. Arquitetura e espaço escolar: reflexões acerca do processo de implantação dos primeiros grupos escolares de Curitiba (1903-1928). IN: Educar em Revista. Curitiba, PR. Ed. Da UFPR, n.18, julh a dez de 2001, p.103-141.

_____________ Os grupos escolares no Brasil: um novo modelo de escola primária. IN: Histórias e memórias da educação no Brasil. Século XX. Org: Maria Stephanou; Maria Helena Bastos. Vozes. 2005. p.68-76.

BERMAN, Marshall. Tudo que é sólido se desmancha no ar: a aventura da modernidade. trad. Carlos Felipe de moisés. São-Paulo. Companhia das Letras.

1986.

BOTO, Carlota. A civilização escolar como projeto político e pedagógico da modernidade: cultura em classes, por escrito. Ca. Cedes, Campinas, v.23, n.61, p.378-397, dez. 2003.

CHERVEL, André. História das disciplinas escolares: reflexões sobre um campo de pesquisa. IN: Teoria e Educação. N.2. 1990. P.177-229.

FRAGO, V, Antonio. Innovación pedagógica y racionalidad científica. La escuela graduada pública en España. Akal. 1990.

_________História de la educación e história cultural. Posibilidades, problemas, cuestiones. Revista Brasileira de Educação, set/out/nov/dez- 1995, n.0.

GOODSON, F, Ivor. História del currículum. La contrucion social de las disciplinas escolares. Ed. Pomares. 1995. TRD. Joseph, m, Apfelbaume, p.9-107.

_________Tornando-se uma matéria acadêmica: padrões de explicação e evolução. Teoria & Educação, 2, 1990, p.230-254.

HERSCHMANN, Micael; PEREIRA, M., Carlos. A invenção do Brasil moderno.

Medicina, educação e engenharia nos anos 20-30. Rio de Janeiro. Rocco.

1994.

JULIA, Dominique. A cultura escolar como objeto histórico. Revista Brasileira de Educação, jan-jun 2001, n.1. Trad. Gisele de Souza.

______________ Disciplinas escolares: objetivos, ensino e apropriação. IN:

Disciplinas e integração curricular: história e políticas. Org: Alice Casimiro Lopes;

Elisabeth Macedo. DP&A. 2002. p.37-71.

LOURO, L, Guacira. Educação e gênero: a escola e a produção do feminino e do masculino. Vozes. 1995.

MARX, Karl; ENGELS Friedrich. O movimento operário comunista. Trad: Maria Lúcia Como. RJ. Paz e Terra, 1998.

MORENO, J, Carlos. Inventando a escola, inventando a nação: discursos e práticas em torno da escolarização Paranaense (1920-1928). Tese de Mestrado. UFPR, 2003.

OLIVEIRA, M,C, Maria. Organização escolar no inicio do século XX: o caso Paraná. IN: Educar em Revista. Curitiba, PR. Ed. Da UFPR, n.18, julh a dez de 2001, p.143-155.

PERROT, Michelle. De marianne a Lulu. As imagens de mulher. IN: Sant’ana, D, B. Políticas do corpo. Estacao Liberdade, SP. 1995, p.163-183.

________Os excluídos da História: operários, mulheres, prisioneiros. Trad.

Denise Bottmann. Paz e Terra. RJ. 1998.

PINHEIRO, F, C, Antonio. Da era das cadeiras isoladas à era dos grupos escolares na Paraíba. Autores Associados. Campinas, SP. 2002.

RAGAZZINI, Dario. Para quem e o que testemunham as fontes da história da Educação. IN: Educar em Revista. Curitiba, PR. Ed. Da UFPR, n.18, julh a dez de 2001, p.13-28.

SIEBERT, S , Raquel. As relações de saber-poder sobre o corpo. IN: Romero, Elaine. Corpo, mulher e sociedade. Papirus. Campinas, SP. 1995, p.15-42.

SILVA, M, Mariza. Mulher, identidade fragmentada. IN: Romero, Elaine. Corpo, mulher e sociedade. Papirus. Campinas, SP. 1995, p.109-123.

SOUZA, F, Rosa. Fotografias escolares: a leitura de imagens na história da escola primária. IN: Educar em Revista. Curitiba, PR. Ed. Da UFPR, n.18, julh a dez de 2001, p.75-104.

SOUZA, F, Rosa. Um itinerário de pesquisa sobre a cultura escolar. IN:

Cunha, V, Marcus. Ideário e imagens da educação escolar. Campinas, SP.

__________ Lições da escola primária . In: Saviani, Dermeval. O legado Educacional do Século XX no Brasil. Campinas, SP. Autores Associados. 2004, p.109-161.

____________. Inovação educacional no século XX: A construção do currículo da escola primária. IN: Caderno CEDES. Educacao, sociedade e cultura no século XIX: discursos e sociabilidades. 1a ed., ano XIX, n. 51, nov.

2000.

TRINDADE, M, Etelvina. Clotildes ou Marias: mulheres de Curitiba na primeira República. Curitiba. Fundação cultural. 1996.

FONTES:

CEB-Circulo de Estudos Bandeirantes. Relatórios do Governo- 1907. Autor: Ismael Alves Pereira Martins. Destinatário: Arthur Pedreira de Cerqueira. P. 31-38.

CEB-Circulo de Estudos Bandeirantes. Relatórios do Governo- 1907. Autor:

Sebatião Paraná. Destinatário: Arthur Pedreira de Cerqueira. p.14-25.

CEB-Circulo de Estudos Bandeirantes. Relatórios do Governo- 1908. Autor:

Laurentino de Azambuja. Destinatário: Arthur Pedreira de Cerqueira. p.57-68.

CEB-Circulo de Estudos Bandeirantes. Relatórios do Governo- 1909. Autor: Luiz A. Xavier. Destinatário: Francisco Xavier da Silva. P. 15-19.

CEB-Circulo de estudos Bandeirantes. Relatórios do Governo- 1912. Autor:

Claudino Rogoberto Ferreira dos Santos. Destinatário: Marins Alves de Camargo.

P. 3.

CEB-Circulo de Estudos Bandeirantes. Relatórios do Governo- 1914. Autor:

Francisco Ribeiro de Azevedo Macedo. Destinatário: Claudino Rogoberto dos Santos. P.3-30.

CEB-Circulo de Estudos Bandeirantes. Relatórios do Governo- 1914. Autor: Autor:

Francisco Ribeiro de Azevedo Macedo. Destinatário: Claudino Rogoberto dos Santos. P. 5-93.

CEB-Circulo de Estudos Bandeirantes. Regulamento, Instrução Pública no Paraná-1895- 1928.

CEB-Circulo de Estudos Bandeirantes. Relatórios do Governo - 1903, p. 37-43.

Autor: Victor Ferreira do Amaral. Destinatário: Otávio Ferreira do Amaral.

CEB-Circulo de Estudos Bandeirantes. Relatórios do Governo - 1909, p.58-71.

Autor: Jayme dos Reis. Destinatário: Luiz Antônio Xavier.

DDP/BPPR-Divisão de Documentação Paranaense da Biblioteca Pública do Paraná. Revista: A Escola-ano I, fevereiro de 1906- num.1. Titulo: Syntaxologia.

Autor: Conego Braga. P. 6, 14.

DDP/BPPR-Divisão de Documentação Paranaense da Biblioteca Pública do Paraná. Revista: A Escola - ano I, fevereiro de 1906- num.1. Titulo: Relatório da Instrução Pública. Autor: Julia Wanderley Petrich. P. 21-22.

DDP/BPPR-Divisão de Documentação Paranaense da Biblioteca Pública do Paraná. Revista: A Escola - ano I, março de 1906- num.2. Titulo: Prendas Domésticas- Relatório 1906. Autor: Josephina Carmen. P. 46.

DDP/BPPR-Divisão de Documentação Paranaense da Biblioteca Pública do Paraná. Revista: A Escola - ano I, maio de 1906- num.4. Titulo: Ser mãe. Autor:

Coelho Neto. P. 69.

DDP/BPPR-Divisão de Documentação Paranaense da Biblioteca Pública do Paraná. Revista: A Escola - ano I, junho de 1906- num.5. Titulo: Instrução e Educação . Autor: Lauro Vannier. P. 95-96.

DDP/BPPR-Divisão de Documentação Paranaense da Biblioteca Pública do Paraná. Revista: A Escola - ano I, julho de 1906- num.6. Titulo: P. 105, 111-112.

DDP/BPPR-Divisão de Documentação Paranaense da Biblioteca Pública do Paraná. Revista: A Escola - ano II, junho e julho de 1907- num.6 e 7. Titulo:

Epistolas pedagogicas. Autor: Azevedo de Macedo. P. 68-69, 79-80.

CEB-Circulo de Estudos Bandeirantes. Jornal: O Vigilante - ano IIII, num. 33, fevereiro de 1917. Titulo: Mulher christã é a felicidade da familia. Autor: L. M.

CEB-Circulo de Estudos Bandeirantes. Jornal: O Vigilante - ano II, num. 16, julho de 1915. Titulo: Educação.

CEB-Circulo de Estudos Bandeirantes. Jornal O Vigilante, junho 1915, ano II, n.

15, p.1.Título: Dominie, Superomnia (pró- Pátria).

CEB-Circulo de Estudos Bandeirantes. Jornal: O Vigilante - ano V, num. 50, agosto de 1918. Titulo: Palavras.

CEB-Circulo de Estudos Bandeirantes. Jornal: A Estrela - ano IV, num. 165, junho de 1901. Titulo: Educação moderna.

CEB-Circulo de Estudos Bandeirantes. Jornal: A Estrela - ano IV, num. 161, maio de 1901. Titulo: Ensino Religioso.

No documento VALDIRENE FURTADO (páginas 48-54)

Documentos relacionados