Pretendeu-se destacar na presente reflexão, que os casos judiciais difíceis, decorrentes de conflitos que encerram con- tradições de valores ou princípios dentro do ordenamento, exi- gem a aplicação dos mecanismos da nova hermenêutica consti- tucional, pois o apoio da hermenêutica tradicional oferece o risco de não se enfrentar adequadamente as conseqüências do resultado de tal decisão, pois não se presta a harmonização de princípios colidentes.
A aplicação da teoria dos princípios, ao raciocínio jurídi- co na análise de colisão de princípios e valores dentro do sis- tema, propicia a utilização de um procedimento discursivo ca- paz de dotar a decisão de um critério racional, pois é exatamen- te nessa situação de alta conflituosidade entre princípios que a regra da proporcionalidade demonstra sua grande valia e im- portância, na medida em que representa o procedimento ade- quado para a melhor solução possível ao conflito, determinan- do uma otimização que obriga que se acate, prioritariamente, um princípio, atingindo o outro o minimamente possível.
Assim é que a concretização do Princípio Protetor, en- quanto norma principiológica que expressa um valor moral que deve continuar sendo levada a sério – a dignidade do trabalho humano -, mesmo sob toda a pressão que lhe é imposta nas atuais contingências do mercado econômico globalizado, ne- cessita para sua real efetividade, da aplicação dos mecanismos da nova hermenêutica constitucional.
Mesmo diante de fenômenos como o da terceirização, que atinge de forma tão abrupta as relações de trabalho, geran- do profundas reestruturações do mercado de trabalho globali- zado, que potencializam a tensão de valores que estão em rota de colisão dentro do campo normativo do contrato de trabalho, a análise da colisão desses valores, sob a ótica da teoria dos princípios, enquanto um procedimento racional de decisão ju- dicial, representa um aprofundamento do olhar jurídico da questão, um amadurecimento da análise desse contexto, sem
desconsiderar como inexistentes o peso dos valores colidendes com os que embasam, justificam e sustentam a proteção do trabalhador na relação de trabalho. É preciso descodificar a tensão da colisão em um procedimento adequado, para aplicar a ponderação por meio de critérios racionais e posicionar a decisão judicial sob embasamento adequado e proporcional.
Nesse sentido, por meio da análise do caso judicial en- frentada no presente artigo, pode-se afirmar que no enunciado da Sumula 331 do TST já há uma “relação de precedência condicionada” a exigir a prevalência da solução apresentada pela sumula - proibição de terceirização em atividade-fim – na resolução de colisões de princípios nas mesmas condições fáti- cas e jurídicas, pois a admissão da terceirização neste tipo de atividade atinge, de forma desproporcional, o sistema jurídico de proteção ao trabalhador e sua base principiológica.
O critério estabelecido pela Sumula 331 do TST para en- frentar o conflito gerado nas relações trabalhistas pelo fenôme- no da terceirização de mão de obra fornece parâmetros seguros para facilitar a decisão jurídica em casos judiciais difíceis. Cri- térios que confrontados com os fatos concretos balizam um procedimento de ponderação adequado para a busca de deci- sões aceitáveis, equitativas e razoáveis.
No atual sistema constitucional de conflitos é preciso uti- lizar-se de mecanismos de apoio a decisão judicial nos casos difíceis na seara trabalhista, principalmente nos que se referem a colisão do princípio protetor com princípios colidentes, e que sejam aptos a impor a consideração do valor moral inserido no princípio e esclareçam, no caso concreto, os limites insuperá- veis de restrição, portanto, intransponíveis, cuja afetação de- termina a desproporcionalidade da restrição imposta, qual seja, o da dignidade do trabalhador, núcleo essencial do Príncipio Protetor e barreira intransponível para os valores econômicos.
A reflexão ora proposta pretendeu resgatar a verdadeira função do Princípio Protetor, enquanto norma principiológica
que ordena sua aplicação na defesa do primado dos valores morais que sempre embasaram o Direito do Trabalho desde sua origem, e que estão acima dos valores econômicos, pois na verdade, o perigo não está centrado na atual crise que se imputa ao Princípio Protetor, mas principalmente em se desqualificar a sua função no ordenamento jurídico trabalhista, atingindo a razão de ser do próprio Direito do Trabalho. O perigo está na perda da confiança, seja no singular e extraordinário paradigma teórico e normativo, que é o sistema de proteção dos direitos humanos da pessoa do trabalhador em sua relação de trabalho, seja no desempenho de sua função tutelar primordial, de pro- mover a igualdade e dignidade daquele que trabalha.
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