1 AS EMPRESAS ESTATAIS NO BRASIL
1.5 CONSIDERAÇÕES PARCIAIS
O surgimento declarado das empresas estatais no Brasil coincide com o início do processo de industrialização e desenvolvimento do país, a partir da década de 1930/1940, fruto da política desenvolvimentista nacional, que tinha na intervenção direta como um dos mecanismos propulsores da industrialização e do desenvolvimento econômico. Para além de outras formas de atuação do Estado, que também tiveram sua parcela de contribuição (ainda que de forma isolada, como por exemplo no caso da política protecionista em relação ao setor cafeeiro, que assegurou o nível de consumo interno durante o início da crise de 1929), o crescimento econômico verificado obteve os expressivos resultados em boa parte graças à atuação das estatais em setores estratégicos (siderurgia, infraestrutura, petróleo, energia elétrica, etc.), sem os quais a própria iniciativa privada provavelmente também não teria se desenvolvido da forma como o fez.
132 DI PIETRO, Maria Sylvia Zanella. Parcerias na administração Pública: concessão, permissão, franquia, terceirização e outras formas. 4 ed. São Paulo: Atlas, 2002, p.30.
133 Para Marcello Clarich, “privatizar as empresas públicas significa redefinir o âmbito das relações entre Estado e mercado. E, como ocorre em qualquer relação de complementariedade, se muda a configuração de um dos elementos do conjunto, isto é, a estrutura do mercado não mar caracterizada pelas empresas públicas -, muda necessariamente a configuração do elemento complementar – isto é, a estrutura do Estado que renuncia ao papel de empresário.” Apud DI PIETRO, Maria Sylvia Zanella. Parcerias na administração Pública: concessão, permissão, franquia, terceirização e outras formas. 4 ed. São Paulo:
Atlas, 2002, p.30.
A intervenção direta do Estado brasileiro na economia não significou (e ainda não significa), por si só, nem a declaração de um modelo socialista, e muito menos, a negação do capitalismo.134 As estatais, em si, não foram (e ainda não são) nem socialistas e nem capitalistas. São um instrumento com potencial amplo para realizar os mais variados objetivos propostos. Nas palavras de Sulamis Dain, a existência das estatais nos sistemas capitalistas contemporâneos, tardios ou desenvolvidos, visa a garantir um
“patamar mínimo de provimento de bens e de serviços e de regulação da competição (...) independente do substrato ideológico do Estado.”135
No comunismo, materializaram a planificação econômica e conferiram ao Estado pleno controle do que, como, quanto, onde e quando produzir. No capitalismo dito puro, em especial na Europa, as estatais são fruto da nacionalização ou da estatização de empresas privadas em um contexto Pós-Guerra para reconstruir países destruídos pelo conflito armado.
Nos países de desenvolvimento tardio, como no caso do Brasil, as estatais tiveram caráter originário e inaugural em seus respectivos setores de atuação, tendo se prestado a desenvolver atividades pouco ou nada interessantes à iniciativa privada, mas fundamentais ao desenvolvimento econômico, iniciado pela industrialização substitutiva de importações. Nas palavras em Mario Engler Pinto Júnior, elas surgem historicamente para “ocupar espaços vazios deixados pelo setor privado, e não como propósito de disputar o mercado. ” 136
Por essa razão, acabaram desempenhando função regulatória de organização e de estruturação de toda uma cadeia produtiva , reunindo condições para o fortalecimento da iniciativa privada. Não fosse a postura tomada pelo Estado naquele momento, para Mario Engler Pinto Junior, “a industrialização no Brasil não teria ocorrido com a mesma
134 A respeito da política desenvolvimentista adotada na Era Vargas, Bresser Pereira enuncia que a política desenvolvimentista adotada não foi “uma estratégia nacional de desenvolvimento de esquerda ou de direita”, mas foi o resultado de uma hegemonia, de uma coalizão de classes nacionalistas da qual fazem parte empresários, industriais, burocracia pública e trabalhadores. Implica, portanto, um acordo social entre a centro-direita e a centro-esquerda.” PEREIRA, Luiz Carlos Bresser. Desenvolvimentismo: ideologia do desenvolvimento econômico dos países retardatários. In Entrevista realizada por Graziela Wolfart, da Revista do Instituto Humanitas Unisinos, maio de 2012. Disponível em:<
http://www.bresserpereira.org.br/view.asp?cod=4931>. Acesso em 18 de dezembro de 2015.
135 DAIN, Sulamis. Empresa estatal e capitalismo contemporâneo. Campinas: Editora da Unicamp, 1986, p.204.
136 PINTO JUNIOR, Mario Engler. Empresa estatal: função econômica e dilemas societários. 2.ed. São Paulo: Atlas, 2013, p.26.
rapidez e extensão. A opção pela estatização originária do parque produtivo serviu de atalho para elevar o patamar industrial do país. ”137
A doutrina sugere que as modernas sociedades de economia mista precederam às empresas públicas, sobretudo na prestação dos serviços públicos, já que o conflito de interesses entre acionistas privados e o interesse público de que era portador o Estado controlador parecia inconciliável. A assunção da forma empresarial é justificada pela dinâmica dos mecanismos internos de funcionamento da atividade empresarial, que confeririam maior eficiência à Administração Pública.
A partir do início da década de 1980, o descontrole das contas públicas e a crise fiscal, além da propagada - e constatada – ineficiência colocaram as estatais institucionalmente em discussão. As privatizações foram implementadas com um duplo objetivo declarado: obtenção de receita para aliviar o déficit orçamentário e a cessação de vultuosos gastos com a manutenção de atividades empresariais ineficientes. Nas palavras de Caio Tácito, o pêndulo que antes apontava na direção do setor público, agora apontava para o setor empresarial privado.
Por outro lado, ao mesmo tempo em que o Estado se retira da tomada direta dos fatores de produção, aumenta sua responsabilidade pela regulação, fiscalização, incentivo e fomento da iniciativa privada. As privatizações não fizeram desaparecer o Estado, mas apenas alteraram sua função primordial. Na classificação proposta, a diminuição da intensidade de atuação direta aumenta e amplia as formas de intervenção indireta no domínio econômico.
137 PINTO JUNIOR, Mario Engler. Empresa estatal..., p.40.