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6.4 RELATO DE ATIVIDADE: CONCEITOS DE LUZ E SOMBRA

6.4.4 Considerações

Nesta primeira etapa da pesquisa elaboramos metatextos a partir das categorias emergentes, conforme explicitamos. Ao final de nossa tese apresentamos aprofundamento do que até aqui foi discutido integrando com as investigações da segunda etapa na forma de conclusões finais.

As experiências relatadas apontam para inúmeras possibilidades que se abrem quando se procura romper com as inércias e ideologias institucionais que se arrastam por décadas na educação. A proposta de formar o professor com competências para a pesquisa visa nova perspectiva em que ele é produtor de conhecimentos, adquirindo autonomia profissional. A sua autoestima está relacionada com esse sentimento de ser capaz de elaborar seus próprios significados a partir de movimentos colaborativos de entendimento da realidade.

Cabe salientar que a atitude investigativa significa não ficar preso a técnicas e modelos de pesquisa, mas tornar a própria pesquisa também um objeto a ser analisado e questionado. Parte-se de pressupostos e planejamentos, de rigor e dedicação, mas mantém-se abertura e escuta atenta para correções de rumo e alterações de metas (MORAES; GALIAZZI, 2002). Assim, a proposta de investigação como princípio cumpre seu papel enquanto impede que se construam conhecimentos definitivos e cristalizados. A pesquisa é dinâmica e transformadora também de si mesma. Essa é uma das vias pela qual o Ensino de Ciências pode contribuir para a formação integral dos alunos.

Na continuidade de nosso trabalho apresentamos as atividades investigativas referentes às observações em escolas de Ensino Médio e diálogos com professores de ciências da natureza.

7 SEGUNDA ETAPA DA PESQUISA: CIÊNCIAS NO ENSINO MÉDIO

Nesta etapa foram realizadas visitas a escolas para observações e contatos com professores, vivenciando seus ambientes de trabalho. O levantamento empírico ocorreu com professores de Biologia e Física do Ensino Médio em duas escolas públicas e uma escola particular do estado do Rio Grande do Sul.

As dificuldades políticas e econômicas que se instalaram no Estado, agravadas no ano de 2015, provocaram reações dos profissionais da educação em relação às medidas administrativas. Atrasos e parcelamentos dos salários foram alguns dos aspectos que motivaram ações da categoria docente, como greves e paralisações. Essas circunstâncias dificultaram os agendamentos de reuniões, por isso, não foi possível realizarmos entrevistas com todos os professores que havíamos previsto no projeto. No entanto, os encontros que realizamos, foram suficientes para os objetivos a que nos havíamos propostos nesta pesquisa.

Nossas ações se realizaram no segundo semestre de 2014 e durante o ano de 2015. A fim de preservar a identificação das Instituições visitadas denominamos as escolas públicas de EPUB1 e EPUB2, ambas do Ensino Médio. Para as referências à escola particular utilizamos a expressão EPART.

Na escola EPUB1, os participantes da pesquisa foram: um professor de Física e uma professora de Biologia.

Na escola EPUB2, os participantes foram: uma professora de Física e um professor de Biologia. Como o professor de Biologia mudou seu domicílio em 2015, não foi possível novo contato e optamos por não o incluir em nossas análises.

Na escola EPART, foram participantes um professor de Física e um de Biologia. Nas atividades por nós realizadas de agosto a dezembro de 2014, procuramos obter visão ampla dos ambientes educacionais. Realizamos visitas semanais nas escolas públicas a fim de construir aproximação, convivendo com os professores e falando dos nossos objetivos na pesquisa. Buscávamos familiarização com a rotina da escola, seus espaços, seus projetos. No final do semestre realizamos entrevistas de caráter aberto com alguns professores. Observações e conversas informais anotamos em diário de campo. Presenciamos eventos das escolas como feiras de ciências, feira das nações, festivais de teatro. Realizamos também registros fotográficos e filmagens.

No segundo semestre de 2015, retornamos às escolas públicas EPUB1 e EPUB2 a fim de efetivarmos novas entrevistas com os professores de Biologia e Física.

Em relação à escola particular fizemos acompanhamento de atividades nas disciplinas de Física e Biologia durante os anos de 2014 e 2015, além de conversas com professores dessas áreas.

Visitando as escolas percebemos que não bastariam entrevistas com os professores de ciências para entender suas percepções. O ambiente da instituição se manifesta como um todo, e é esse todo que está presente configurando a realidade e influenciando as pessoas que nela trabalham. Era necessário andar pelos corredores, estar na sala de professores e participar das conversas, dos bate-papos, dos comentários; presenciar reuniões; ouvir professores de outras áreas como matemática, artes, sociologia, filosofia; ouvir as direções e coordenações; presenciar os eventos que envolviam todo o ambiente das escolas. Mesmo que não tenhamos a pretensão de trazer os relatos a respeito de todos os momentos observados, eles estarão presentes nas formas de percepção e interpretação dos fenômenos de aprendizagem e convivências em questão.

Optamos por vivenciar os ambientes em momentos mais prolongados. Isto, por concebermos que o pesquisador, em atitude fenomenológica, busca significados para além daqueles imediatamente revelados. Estes significados estão interligados intermediando percepções através das quais se promovem elaborações mais profundas sobre a realidade. Tais elaborações ultrapassam os planos curriculares, os projetos políticos e pedagógicos, os programas integradores.

Na perspectiva de investigação qualitativa nada é trivial para o investigador. Para situações que contribuam para os esclarecimentos, tudo aparece com potencial iluminador (BOGDAN; BIKLEN, 1994). Segundo Bogdan e Biklen (1994, p.47), a investigação qualitativa possui cinco características:

1- a fonte direta de dados é o ambiente natural, constituindo o investigador o instrumento principal;

2- é descritiva;

3- os investigadores interessam-se mais pelos processos muito mais do que pelos resultados ou produtos;

4- os investigadores tendem a analisar seus dados de forma indutiva; 5- o significado é de importância vital.

Os estudos e reflexões a respeito dessas características nos auxiliaram nas decisões tomadas em relação ao caminho da investigação. Tendo claro que o comportamento humano é influenciado pelo contexto, o investigador qualitativo deve vivenciar o ambiente no qual seus sujeitos de pesquisa realizam ações; esse espaço de vivências é a fonte direta dos dados (BOGDAN; BIKLEN, 1994).

Para Minayo (2004), metodologia corresponde ao caminho e os instrumentos próprios de abordagem de determinada realidade. Concordamos com esta autora quando defende que “a metodologia inclui as concepções teóricas de abordagem, o conjunto de técnicas que possibilitam a apreensão da realidade e também o potencial criativo do pesquisador” (MINAYO, 2004, p. 22).

Para realizar as descrições direcionamo-nos para os processos que se evidenciaram nos ambientes. Ao considerar os dados não se tinha como objetivo a confirmação de hipóteses prévias, ainda que haja clareza que a toda ação subjaz alguma teoria, mesmo quando se faz esforço para suspender as crenças e pressupostos (BOGDAN; BIKLEN, 2004; MORAES E GALIAZZI, 2010). Também a fenomenologia nos auxilia neste campo de análise quando propõe a “redução fenomenológica” como atitude de procurar suspender as interpretações focando o fenômeno em sua origem.

Como, nesta pesquisa, direcionamos visadas para aspectos relativos às percepções do professor a respeito de si mesmo e seus potenciais criativos, as observações e análises buscaram identificar os significados que este profissional carrega e como estes se vão modificando ao longo de sua trajetória profissional. Neste viés consideramos nossa pesquisa a partir de uma abordagem fenomenológica etnográfica (BOGDAN; BIKLEN, 2004).

A intenção, com estas visitas, foi a de conhecermos os ambientes onde os professores realizam suas atividades, buscando familiaridade. A ambientação visava tornar o convívio próximo dos professores, não somente dos de ciências, mas dos demais professores da escola. O esforço foi o de fazer com que nossa presença fosse silenciosa. Procuramos nos manter atentos para evitar alguma atitude que pudesse caracterizar invasão de um espaço ao qual não pertencemos. Foram realizadas ações discretas, mas atentas aos olhares, aos comentários, às abordagens que se faziam.

Procuramos acompanhar as orientações de Bogdan e Biklen (2004, p. 68):

[...] como os investigadores nesse tipo de investigação se interessam pelo modo como as pessoas pensam sobre suas vidas, experiências e situações particulares, as entrevistas que efetuam são mais semelhantes a conversas entre dois confidentes do que de uma sessão formal de perguntas e respostas entre um investigador e um sujeito. Esta é a única maneira de captar aquilo que é verdadeiramente importante do ponto de vista do sujeito.

A atitude fenomenológica começa com o silêncio, começa com uma postura do pesquisador que pretende despir-se de suas interpretações prévias (BOGDAN; BIKLEN, 2004). O pesquisador deverá fazer com que sua presença se torne natural, não intrusiva e, muito menos, ameaçadora. As pessoas não podem sentir-se unicamente como objetos de uma investigação, pois isso retira delas as espontaneidades. Como o interesse é verificar os modos

como se comportam normalmente, é necessário que suas ações não sejam diferentes de quando o pesquisador esteja ausente (BOGDAN; BIKLEN, 2004). Esta foi nossa tentativa de construir certa familiaridade evitando fazer registros na presença dos professores com os quais conversávamos. Ao retornar de cada visita e cada encontro fazíamos relatório utilizando da memória procurando enfatizar aspectos mais relevantes.

Após vários meses de convivência, realizamos entrevistas de caráter aberto solicitando autorização para irmos anotando alguns pontos que serviriam de suporte para o relatório. Combinamos que após o registro da entrevista retornaríamos para a validação a fim de verificar a fidelidade das anotações e observações realizadas.

Para esta etapa da pesquisa a metodologia de análise esteve sustentada pelos elementos da Interpretação Essencial Sintética (IES), proposta por Medeiros e Rocha Filho (2016), porque esta metodologia é bem adaptada para a investigação de situações complexas sobre as quais o investigador tem amplo conhecimento vivencial. Trata-se de um método que privilegia os saberes anteriores do pesquisador, que deve ser considerado sênior tanto no tema investigado quanto no ato de investigar, em si mesmo. Em situações desse tipo a pesquisa ganha eficiência e profundidade com o aumento da autonomia do investigador, que deixa de se ater a procedimentos estandardizados de fragmentação e reorganização, passando direto à análise da totalidade do fenômeno, como ele se apresenta. Por isso a IES é uma metodologia de análise eminentemente fenomenológica, embora não prescinda da hermenêutica, tendo sido criada como parte do desenvolvimento da Análise Fenomenológica Hermenêutica (AFH) por Medeiros e Rocha Filho (2014). A seguir apresentamos um aspecto decisivo da IES.

Na IES é reforçada a empatia e o intimismo do ato pesquisado, inseparáveis dos pré e pós-conhecimentos do pesquisador, resultando diretamente num texto que já traz tudo o que ele pôde apreender e depreender da entrevista ou observação. (MEDEIROS, 2015, p.47)

Dentre as atividades que realizamos durante nossa investigação destacamos: a) conversas informais com os sujeitos da pesquisa;

b) registro de materiais produzidos pelos alunos dos sujeitos de nossa pesquisa, caracterizando representações artísticas relacionadas aos conteúdos de ciências propostos pelos professores a seus alunos;

c) registros fotográficos e vídeos de eventos nas escolas visitadas: feiras ou mostras de ciências, peças teatrais, feira das nações, dia da consciência negra;

d) entrevistas abertas realizadas com os professores sujeitos da pesquisa.

e) atividades de sala de aula observadas na escola particular: um professor de Física e um de Biologia;

As nossas conversas procuraram seguir as seguintes abordagens para orientar as entrevistas de caráter aberto com os professores:

- a profissão como fator de realização pessoal.

- criatividade, ou processos criativos, em suas atividades de sala de aula. - a pesquisa como princípio de aprendizagem de seus alunos.

- as ciências como elementos de reflexão na construção de significados. - autoconhecimento para prática docente.

- formação inicial e formação em serviço.

Passamos a apresentar as análise e reflexões que desenvolvemos a partir das observações, vivências e conversas. Devido ao grande volume de material recolhido optamos por focar em alguns aspectos e fatos que, acreditamos, tenham sido suficientes para esclarecer o leitor sobre nossas conclusões a respeito da tese de pesquisa e os objetivos para os quais nos propusemos.

As considerações que passamos a explicitar se constituíram a partir das observações e entrevistas realizadas. Tais análises estiveram orientadas pela metodologia denominada de Interpretação Essencial Sintética, já definida anteriormente.