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Considerações sobre a montagem do Frantic Assembly

3. A representação do corpo

3.3. Considerações sobre a montagem do Frantic Assembly

Durante a nossa estada na Inglaterra, como pesquisador visitante, na Universidade de Surrey, em janeiro de 2019, tivemos a oportunidade de assistir ao vídeo da montagem original da peça Pool, disponível na Biblioteca Britânica de Londres144. O espetáculo

produzido pela companhia Frantic Assembly mostra a cultura e a moralidade como uma fina camada superficial encobrindo uma outra, problemática e embrutecida. A consciência ausente desse corpo sem movimento garante a impunidade dos demais. E a passividade indefesa estimula os outros corpos a extravasarem os seus desejos. O corpo no palco, embora fisicamente visível, permanece quase ausente – destituído de

144 A Biblioteca Britânica [British Library] é a BibliotecaNacional do ReinoUnido, uma das maiores do

mundo. Atualmente, o seu acervo possui aproximadamente 150 milhões de itens e a cada ano incorporam- se à coleção cerca de três milhões de itens novos. Durante os nossos estudos naquele país, também tivemos acesso ao acervo de pesquisa físico e eletrônico disponível para os alunos de pós-graduação da Universidade de Surrey [Surrey University], onde, por ação do professor Bran Nicol, Chefe do Departamento de Língua e Literatura Inglesas, reunimo-nos com pesquisadores e professores, debatendo as nossas pesquisas. Graças ao convite da professora Ana Cláudia Suriani da Silva, responsável pela disciplina Estudos Brasileiros [Brazilian Studies], na Universidade College London [University College London], participarmos de uma aula de Língua Portuguesa e Literatura Brasileira apresentando apontamentos sobre a nossa pesquisa num interessante debate intercultural com os colegas ingleses. Ao longo desse período de estudos em Londres, assistimos não só a peça mais recente de Mark Ravenhill, como também a diversas peças de dramaturgos contemporâneos ingleses, muitas delas recomendadas pela Professora Ida Sedler, de Teatro e Performance, da Universidade de Londres – Birkbeck [Birkbeck, London College], a quem somos muito gratos pela troca contínua de ideias.

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consciência e julgamento moral, ele se metamorfoseia em um misto de objeto inanimado e bode expiatório inadvertidamente assumindo a responsabilidade por todas as mazelas que os outros personagens acreditam sofrer.

O fato de Ravenhill não especificar quem são os personagens determinados para cada fala, e a possiblidade de se identificar uma variedade de falantes, dependendo do modo como lemos o texto, cria uma gama de possibilidades no que diz respeito ao desenvolvimento de formas e significados atribuídos à produção dessa peça. Esse tipo de composição projeta uma ideia de certa “singularidade” ao texto, no termo empregado por Derek Attridge (2004).

O texto soa mais como uma expressão original de emoções em vez de, simplesmente, como uma reprodução artificial de um cenário inventado. Há um modo pelo qual o texto literário pode existir como um “evento”, referindo-se novamente a Attridge (2004, p. 55-62). O texto deixa mais espaço para os atores preenchê-lo livremente com seus sentimentos. O teatro de Ravenhill ao usar intensamente repetições, hesitações ou expressões que possam ser consideradas emocionais força os atores a uma postura, uma atitude física.

Frases como, “aqui vamos nós aqui aqui vamos nós a -a-a-a-a-a-a – aqui va-a-a- vamoooos nóóóóssss!”145, ou “nós sequer sabemos quem acondicionou primeiro a câmera

digi-digi-digi-digital”146 e “agora ela tem: a piscina. A pisciiiiinaaaaaa”147 perdem o valor

informativo próprio do discurso e funcionam emocionalmente mais como condutores de tensão, estresse ou excitação. Ainda assim, a codificação gráfica desses sentimentos não

145 Op. cit., p.321.

Here we go here here we go here h –h-h-h-h-h-h –here weeee g-g – g-gooooo!

146 Op. cit., p.305.

We don’t even know who first packed the digi-digi-digi-digi-cam

147 Op. cit., p. 206.

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determina a intenção dos personagens. É a direção e a reação do ator à situação que determinará a forma que o som dessas palavras pode assumir. O modo como os atores comunicam as palavras e a maneira como os sentimentos são expressos não coincidem, havendo sempre um descompasso ou, então, um desvio da norma entre esses dois meios de expressão. Quando falam sobre “selecionar” e “deletar” as fotografias, tiradas da amiga, durante o período dela de internação, os personagens expressam algo muito além de apenas apagar imagens148:

E, em seguida, uma grande onda de diversão

Selecionar Deletar Selecionar Deletar Selecionar Deletar Selecionar Deletar Selecionar Deletar Selecionar Deletar Selecionar Deletar Selecionar Deletar Selecionar Deletar Selecionar Deletar Selecionar Deletar Selecionar Deletar Selecionar Deletar Selecionar Deletar Selecionar Deletar Selecionar Deletar Selecionar Deletar Selecionar Deletar Selecionar Deletar Selecionar Deletar Selecionar Deletar Selecionar Deletar Selecionar Deletar Selecionar Deletar Selecionar Deletar Selecionar Deletar Selecionar Deletar Selecionar Deletar Selecionar Deletar Selecionar Deletar Selecionar Deletar Selecionar Deletar Selecionar Deletar Selecionar Deletar Selecionar Deletar.

A peça torna-se um exemplo de como o papel do texto no teatro contemporâneo pode ser redefinido. O texto é menos formal, menos estruturado e aberto a uma variedade

148 And then a great wave of fun

Select Delete Select Delete Select Delete Select Delete Select Delete Select Delete Select Delete Select Delete Select Delete Select Delete Select Delete Select Delete Select Delete Select Delete Select Delete Select Delete Select Delete Select Delete Select Delete Select Delete Select Delete Select Delete Select Delete Select Delete Select Delete Select Delete Select Delete Select Delete

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de leituras, sugerindo espaços em branco e convidando os atores a introduzirem as suas intervenções imediatas. Ainda assim, um texto desse tipo tem um papel gerador na produção do espetáculo. Ele propicia a possibilidade de o significado se incorporar. Esse esquema evita um selamento das possibilidades interpretativas que poderia transformar a representação em algo completamente fictício. Sequências improvisadas de teatro físico149, centrado na experiência corpórea dos atores e, por conseguinte, também do

público, e uso de linguagem que lembra a de máquinas buscam uma suspensão do teatro do tipo “pacto ficcional” e acabam causando um efeito angustiante. A encenação de Pool depende da experiência viva, intensa e convulsiva dos atores a fim de recusar qualquer espécie de ilusionismo. Assim, o corpo da amiga lesionada encontra o seu próprio modo de reconquistar o palco e se apresentar como um princípio controlador.