5. AÇÃO DO VENTO E ESTABILIDADE GLOBAL
5.4 CONSIDERAÇÕES SOBRE A NORMA DE VENTO (NBR 6123:1988)
A NBR 6123:1988 (Forças devidas ao vento em edificações) fixa as condições exigíveis na consideração das forças devidas à ação estática e dinâmica do vento, para efeitos de cálculos de edificações, devendo-se considerar:
5.4.1 Força de arrasto na direção do vento (Fa)
A força de arrasto na direção do vento (
F
a) é uma força estática obtida por:e a
a
C q A
F = . .
Onde:
C
a- coeficiente de arrasto;q
- pressão dinâmica do vento ou pressão de obstrução;A
e - área frontal efetiva, área de projeção ortogonal da estrutura sobre um plano perpendicular à direção do vento.Esta força é particularmente importante pois permite ao calculista determinar ações com características globais, ou seja, ações estas que serão aplicadas em toda a estrutura.
5.4.2 Pressão dinâmica de vento (q)
A pressão dinâmica de vento, também conhecida como pressão de obstrução, é obtida pela expressão:
.
2613 ,
0 v
kq =
onde
v
ké a velocidade característica do vento em m/s, e a pressão q é obtida em N/m
2. 5.4.3 Velocidade característica do vento (v
k)A velocidade característica do vento (
v
k) é a velocidade do vento que atua sobre uma determinada parte da estrutura, dependendo da altura em relação ao solo, da rugosidade do terreno, das variações do relevo e das dimensões e do grau de segurança da estrutura. É obtida através da expressão:3 2 1 0
. S . S . S v
v
k=
Onde:
v
0- velocidade básica do vento (m/s);S
1 - fator topográfico;S
2 - fator que considera a rugosidade do terreno, dimensões da estrutura e altura sobre o terreno;S
3- fator estatístico.A consideração da variação da velocidade do vento é um aspecto muito importante, e foi estudado por A. G. Davenport, que propôs que a velocidade varia de forma exponencial de acordo com o tipo de terreno (terrenos com grandes obstruções, terrenos com obstruções uniformes e de pouca altura, e terrenos com poucos obstáculos), conforme figura abaixo:
5.4.4 Velocidade Básica do Vento (Vo)
A velocidade básica do vento (Vo) em m/s é a velocidade de uma rajada de 3s, com 63% de possibilidade de ser excedida pelo menos uma vez em um período de retorno de 50 anos, e a 10m acima do terreno em campo aberto e plano. Admite-se que o vento básico pode soprar em qualquer direção horizontal.
A velocidade básica do vento depende da latitude e longitude onde a estrutura será instalada e é obtida através do gráfico de isopletas da norma NBR 6123:1988:
Pela figura acima, conclui-se que para a região de Joinville, tem-se que a velocidade básica do vento pode ser tomada com o valor de 42 m/s, o que equivale a aproximadamente a uma velocidade de 150 km/h!
5.4.5 Fator Topográfico (S1)
O fator topográfico S1 leva em consideração as variações do relevo do terreno e é determinado do seguinte modo:
A. Terreno plano ou fracamente acidentado: S1=1,0;
B. Taludes e Morros: S1≥1,0, com correção da velocidade básica a partir do ângulo de inclinação do talude ou do morro;
C. Vales profundos, protegidos de ventos de qualquer direção: S1=0,9;
A figura a seguir ilustra os aspectos da alteração das linhas de fluxo do vento em função da topografia:
No caso de taludes e morros, o fator
S
1 pode ser obtido de acordo com a figura:Sendo
S
1 uma função deS
1( z )
, tem-se para o ponto B:3
0θ ≤
:S
1( z ) = 1 , 0 :
17
6
o≤ θ ≤
o 1( ) = 1 , 0 + ( 2 , 5 − ) tg ( − 3
o) ≥ 1 , 0 d
z z
S θ
45
oθ ≥
: 1( ) = 1 , 0 + ( 2 , 5 − ) 0 , 31 ≥ 1 , 0 d
z z S
Obs.: valores intermediários deverão ser interpolados linearmente.
Nas expressões anteriores, são definidos:
z – altura medida a partir da superfície do terreno no ponto considerado;
d – diferença de nível entre a base e o topo do talude ou morro;
θ
- inclinação média do talude ou encosta do morro.Obs.: entre A e B e entre B e C o fator
S
1 é obtido por interpolação linear.5.4.6 Rugosidade do terreno, dimensões da edificação e altura sobre o terreno (Fator S2)
O fator S2 considera o efeito combinado da rugosidade do terreno, da variação da velocidade do vento com a altura acima do terreno e das dimensões da edificação ou parte da edificação em consideração.
5.4.6.1 Rugosidade do terreno
A NBR 6123 estabelece cinco categorias de terreno (I a V) em função de sua rugosidade, a saber:
Categoria I: Superfícies lisas de grandes dimensões, com mais de 5 km de extensão, medida na direção e sentido do vento incidente. Exemplos: mar calmo, lagos e rios, pântanos sem vegetação;
Categoria II: Terrenos abertos em nível ou aproximadamente em nível, com poucos obstáculos isolados, tais como árvores e edificações baixas. Exemplos: zonas costeiras planas, pântanos com vegetação rala, campos de aviação, pradarias e charnecas, fazendas sem sebes ou muros. A cota média do topo dos obstáculos é considerada inferior ou igual a 1,0m;
Categoria III: Terrenos planos ou ondulados com obstáculos, tais como sebes e muros, poucos quebra-ventos de árvores, edificações baixas e esparsas. Exemplos: granjas e casas de campo, com exceção das partes com matos, fazendas com sebes e/ou muros, subúrbios a considerável distância do centro, com casas baixas e esparsas. A cota média do topo dos obstáculos é considerada igual a 3,0 m;
Categoria IV: Terrenos cobertos por obstáculos numerosos e pouco espaçados entre si, em zona florestal, industrial ou urbanizada. Exemplos: zonas de parques e bosques com muitas árvores, cidades pequenas e seus arredores, subúrbios densamente construídos de grandes cidades, áreas industriais plena ou parcialmente desenvolvidas. A cota média do topo dos obstáculos é considerada igual a 10 m. Esta categoria também inclui zonas com obstáculos maiores e que ainda não possam ser consideradas na categoria V;
Categoria V: Terrenos cobertos por obstáculos numerosos, grandes, altos e pouco espaçados. Exemplos:
florestas com árvores altas, de copas isoladas, centros de grandes cidades, complexos industriais bem desenvolvidos. A cota média do topo dos obstáculos é considerada igual ou superior a 25 m.
5.4.6.2 Dimensões da edificação
As dimensões da edificação estão relacionadas diretamente com o turbilhão (rajada) que deverá envolver toda a edificação. Quanto maior é a edificação maior deve ser o turbilhão que envolverá a edificação e consequentemente menor será a velocidade média.
A NBR 6123 define três classes de edificações e seus elementos, considerando os intervalos de tempo de 3,5 a 10 s para as rajadas:
Classe A: todas as unidades de vedação, seus elementos de fixação e peças individuais de estruturas sem vedação. Toda edificação na qual a maior dimensão horizontal ou vertical não exceda 20 m;
Classe B: toda edificação ou parte de edificação para a qual a maior dimensão horizontal ou vertical da superfície frontal esteja entre 20 m e 50 m;
Classe C: toda edificação ou parte de edificação para a qual a maior dimensão horizontal ou vertical da superfície frontal exceda 50 m.
O fator S2 usado no cálculo da velocidade do vento em uma altura z acima do nível geral do terreno é
b – parâmetro de correção da classe;
F
r - fator de rajada, sempre correspondente à classe B e categoria II;z – altura acima do terreno, limitada à altura gradiente;
p – parâmetro metereológico.
Os parâmetros que permitem determinar
S
2 para as cinco categorias de rugosidade do terreno e classes de dimensões das edificações definidas na norma são dados na tabela abaixo:Categoria z (m) Parâmetro Classes edificação. Esta recomendação é baseada no fato de que na fachada de barlavento e nas fachadas laterais o vento é defletido para baixo, com conseqüente aumento da pressão dinâmica na parte inferior da edificação.
Pela mesma razão, o fator
S
2 é considerado constante até 10 m de altura na categoria V.5.4.7 Fator Estatístico S3
O fator estatístico
S
3 é baseado em conceitos estatísticos, e considera o grau de segurança requerido e a vida útil da edificação. Na falta de uma norma específica sobre segurança nas edificações ou de indicações correspondentes na norma estrutural, os valores mínimos do fatorS
3 são os indicados na tabela a seguir:Grupo Descrição S3
1
Edificações cuja ruína total ou parcial pode afetar a segurança ou possibilidade de socorro a pessoas após uma tempestade destrutiva (hospitais, quartéis de bombeiros e de forças de segurança, centrais de comunicação, etc.)
1,10 2 Edificações para hotéis e residências. Edificações para comércio e indústria com alto fator
de ocupação
1,00 3 Edificações e instalações industriais com baixo fator de ocupação (depósitos, silos,
construções rurais, etc.)
0,95
4 Vedações (telhas, vidros, painéis de vedação, etc.) 0,88
5 Edificações temporárias. Estruturas dos grupos 1 a 3 durante a construção 0,83
5.4.8 Coeficiente de Arrasto (Ca)
Os coeficientes de arrasto indicados neste item são aplicáveis a corpos de seção constante ou fracamente variável, considerando s condições de turbulência ou não do vento que incide sobre a edificação.
O vento não turbulento, caracterizado pela ausência de obstruções, como por exemplo em campo aberto e plano, foi o utilizado para a determinação dos coeficientes de arrasto nos ensaios de túnel de vento.
Segundo a NBR 6123 uma edificação pode ser considerada em vento de alta turbulência quando sua altura não excede duas vezes a altura média das edificações nas vizinhanças, estendendo-se estas, na direção e no sentido do vento incidente, a uma distância mínima de:
- 500 m, para uma edificação de até 40 m de altura;
- 1000 m, para uma edificação de até 55 m de altura;
- 2000 m, para uma edificação de até 70m de altura;
- 3000 m, para uma edificação de até 80 m de altura.
Os gráficos a seguir permitem obter o coeficiente de arrasto em função das relações h/l1 e l1/l2.
Coeficiente de arrasto (Ca) para edificações paralelepipédicas em vento de baixa turbulência.
Coeficiente de arrasto (Ca) para edificações paralelepipédicas em vento de alta turbulência.