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3 A MATEMÁTICA NO CONTEXTO DO CURRÍCULO INTEGRADO

3.3 Considerações sobre a perspectiva interdisciplinar

A perspectiva interdisciplinar consta nos PCNs como uma proposta contrária ao ensino fragmentado, compartimentalizado e descontextualizado, indicando um “desenvolvimento do currículo de forma orgânica, superando a organização por disciplinas estanques e revigorando a integração e articulação dos conhecimentos, num processo permanente de interdisciplinaridade [...]” (BRASIL, 1999a, p.17).

A interdisciplinaridade exige, segundo Japiassu (2006) uma reflexão profunda e inovadora sobre o conhecimento, que demonstra a insatisfação com o saber fragmentado que

está posto. Segundo o autor, “o espírito interdisciplinar nos permite tomar consciência de que uma verdade acabada e dogmática impede o exercício cotidiano da liberdade de pensar” (JAPIASSU, 2006, p. 2). Para tal, a interdisciplinaridade propõe um avanço em relação ao ensino tradicional, com base na reflexão crítica sobre a própria estrutura do conhecimento, com o intuito de superar o isolamento entre as disciplinas e repensar o próprio papel dos professores na formação dos alunos.

Ao contrário do sistema clássico de ensino - que se instala num esplêndido isolamento e institui um saber pasteurizado, com um sistema hierárquico mais ou menos monárquico e autoritário -, o sistema interdisciplinar viria superar o corte escola/sociedade, escola/vida, saber/realidade. Sem falarmos da instauração de uma nova relação entre educadores e educandos (JAPIASSU, 2006, p. 3).

Nessa perspectiva, Santomé (1998) explicita que uma das razões em defesa dos currículos integrados é que eles são uma forma de equilibrar um ensino excessivamente centrado na memorização dos conteúdos. A sua propositura consiste na criação de condições sem as quais não é possível “propiciar a motivação pela aprendizagem, ao existir uma maior liberdade para selecionar questões de estudo e pesquisa mais familiares e assuntos ou problemas mais interessantes para os alunos” (SANTOMÉ, 1998, p. 116).

Nesse caminho, já se destacam inúmeras pesquisas em Educação Matemática40 com ênfase sobre os processos de construção de significado, as formas de aprendizagem e procedimentos de ensino; e que elegem, segundo (TOMAZ e DAVID, 2012), a contextualização e a interdisciplinaridade para superar práticas do ensino de Matemática ministrado de forma fragmentada e isolada.

Nessa perspectiva, para Tomaz e David (2012, p. 14),

A matemática escolar passa a ser vista como um meio de levar o aluno à participação mais crítica na sociedade, pois a escola começa a ser encarada como um dos ambientes em que as relações sociais são fortemente estabelecidas. Aliada a esse objetivo, a matemática também é chamada a engajar-se na crescente preocupação com a formação integral do aluno como cidadão da sociedade contemporânea onde cada vez mais é obrigado a tomar decisões políticas complexas. Introduz-se, assim, definitivamente, na agenda da matemática escolar, o ensino voltado para a formação de cidadãos críticos e responsáveis.

Tal compromisso, como consideram as autoras, é incipiente quando se referem à educação escolar da cidadania e da Matemática escolar para essa desejada participação crítica na sociedade, pois não vem fortemente fornecendo aos estudantes instrumentos que os tornem capazes de processar informações escritas, interpretar e manejar sinais e códigos, utilizar

40 Educação Matemática é uma área de conhecimento das Ciências Sociais ou Humanas, que estuda o ensino e a

modelos matemáticos na vida cotidiana, além de usar e combinar instrumentos adequados a necessidades e situações. Embora destaquem que as propostas curriculares oficiais não deixam de insistir na importância de se promover a articulação dos conteúdos escolares.

Na perspectiva sinalizada a interdisciplinaridade não se limita a uma simples reunião de disciplinas escolares ou a simples conexões entre subáreas da matemática ou entre áreas correlatas, mas como possibilidade de, a partir de um objeto, conteúdo, tema de estudo ou projeto, “promover atividades escolares que mobilizem aprendizagens relacionadas, entre as práticas sociais das quais alunos e professores participando, incluindo as práticas disciplinares” (TOMAZ e DAVID, 2012, p.26).

Conjectura-se que, a interdisciplinaridade convida à participação dos estudantes e professores, e, se constitui na ação dos sujeitos quando participam, individualmente ou coletivamente, em sistemas interativos.

Vale ressaltar que a interdisciplinaridade, segundo Santomé (1998), parte da perspectiva de diálogo entre os saberes disciplinares escolares e não objetiva fazer uma disciplina destacar-se em relação a outras.

[...] A interdisciplinaridade é, portanto, entendida aqui como abordagem teórico- metodológica em que a ênfase incide sobre o trabalho de integração das diferentes áreas do conhecimento, um real trabalho de cooperação e troca, aberto ao diálogo e ao planejamento (NOGUEIRA, 2001, p. 27). Essa orientação deve ser enriquecida, por meio de proposta temática trabalhada transversalmente ou em redes de conhecimento e de aprendizagem, e se expressa por meio de uma atitude que pressupõe planejamento sistemático e integrado e disposição para o diálogo (BRASIL, 2013, p. 28).

De igual modo, está assinalada, além da interdisciplinaridade, a contextualização como princípios norteadores da organização curricular para Educação Profissional Técnica de Nível Médio. Estratégias de ensino viabilizadoras do entendimento de “significados e à integração entre a teoria e a vivência da prática profissional, envolvendo as múltiplas dimensões do eixo tecnológico do curso e das ciências e tecnologias a ele vinculadas” (BRASIL, 2012 p. 2).

Sendo assim, a interdisciplinaridade e a contextualização são alguns dos princípios estabelecidos pelas DCNEP (BRASIL, 2012), necessários para atingir os seus propósitos e garantir ao estudante da Educação Profissional Técnica de Nível Médio, integração às diferentes formas de educação, ao trabalho, à ciência e à tecnologia, “conhecimentos, saberes e competências profissionais necessários ao exercício profissional e da cidadania, com base nos fundamentos científico-tecnológicos, sócio históricos e culturais” (BRASIL, 2012, p.2).

A aposta na interdisciplinaridade como uma prática pedagógica e didática adequada aos objetivos do Ensino Médio se propõe em “ir além da mera justaposição de disciplinas e, ao mesmo tempo, evitar a diluição delas em generalidades”. Propõe-se a possibilidade de “relacionar as disciplinas em atividades ou projetos de estudo, pesquisa e ação”. (BRASIL, 1998, p.29).

Para isso, para estreitar esse diálogo, entende-se que:

[...] o ensino deve ir além da descrição e constituir nos estudantes a capacidade de analisar, explicar, prever e intervir, objetivos que são mais facilmente alcançáveis se as disciplinas, integradas em áreas de conhecimento, puderem contribuir, cada uma com sua especificidade, para o estudo comum de problemas concretos, ou para o desenvolvimento de projetos de investigação e/ou de ação (BRASIL, 1998 p.29).

A Matemática na propositura assinalada para o CI, a partir da perspectiva interdisciplinar, por exemplo, pode dar um salto em direção a outros saberes, as disciplinas técnicas, e contribuir para a formação profissional desejada, isso considerando que para alguns cursos, um determinado campo exerce um grau de maior pertinência. No caso em questão, do curso de Eletrotécnica, a Matemática é uma disciplina essencial para as disciplinas técnicas.

Voltando o olhar para a construção de currículos integrados da Educação Profissional Técnica de Nível Médio, Machado (2010, p. 92) entende a interdisciplinaridade como uma das formas de estabelecer essa mediação. Interligando as disciplinas por diversos recursos, tais como: desenho da matriz curricular contemplando aproximações temporais, fusões de conteúdos, realização de estudos e pesquisas compartilhadas, promoção conjunta de seminários e eventos, implementação de métodos de ensino por projetos e dos temas geradores, dentre outros.

Na sequência, abordamos aspectos da contextualização, outro recurso apropriado para ampliar a interação entre os saberes, podendo assim, ser tomada para a elaboração dos currículos da Educação Profissional Técnica de Nível Médio.