que algo desperte o desejo, é preciso que este algo esteja em uma condição
absoluta, não pode ser outra coisa senão aquilo que é. Sabemos que o desejo é
despertado pela interdição. O objeto afetado pela proibição funciona como causa de
desejo. O desejo é o desejo do proibido, do que está inacessível, do impossível.
O amor se funda num encontro, num encontro que funcionou, e que por isso
sustenta a ideia de que é possível alcançar a mítica satisfação primeira. Por sua
natureza, o amor tende a se colocar para além da repetição: ele seria aquilo que não
rateia (
ANDRÉ, 1986/2011, p.303).
Isso nos leva a pensar que, se repetimos aquilo que fracassa, é na tentativa
de alcançar essa satisfação mítica. E se o que se repete é aquilo que fracassa, a
repetição aponta para o fracasso. No amor, algo se encontra, ainda que seja um
encontro faltoso, já que o desejo atesta a impossibilidade de fazer existir a relação
sexual. Nesse sentido, o amor pode ser entendido como contrário à repetição, o que
é bem diferente de considerar o amor como a simples repetição de uma relação
edípica. O que está em jogo aí é menos a triangular relação edípica e mais a relação
do sujeito com o objeto. Isso nos leva a pensar que o modo de um sujeito amar está
diretamente ligado ao modo como suas relações objetais acontecem, visto que
desde sempre não houve objeto satisfatório. É por isso que é o desejo que denuncia
a impossibilidade da realização amorosa. Há um modo de ocultar aquilo que é
impossível no amor, que é o amor cortês. Lacan, ao falar desse tema, exalta a
genialidade dessa versão amorosa, que encontra uma possibilidade em se esquivar
do impossível por via da interdição, por se tratar de um amor que está inscrito na
privação e na frustração. Será necessário, então, fazermos algumas considerações
sobre a teoria lacaniana da falta de objeto, para podermos em seguida, passar ao
tema do amor cortês.
3.2 CONSIDERAÇÕES SOBRE A TEORIA DA FALTA DE OBJETO
Já vimos até aqui que o desejo não se satisfaz porque não tem objeto.
Portanto, podemos entender que nos constituímos como sujeitos a partir da relação
que temos com a falta desse objeto. Para Lacan, a teoria da falta de objeto já
aparece na teoria freudiana, mais precisamente com a ideia de reencontro da qual
Freud (1905/1996b) fala.
É através da busca de uma satisfação passada e ultrapassada que o novo objeto é procurado, e que é encontrado e apreendido noutra parte que não no ponto onde se o procura. Existe aí uma distância fundamental, introduzida pelo elemento essencialmente conflitual incluído em toda busca do objeto. Esta é a primeira forma sob a qual, em Freud, aparece a relação de objeto (LACAN, [1956/57]/1995, p.13).
Lacan dedica todo o Seminário 4 ([1956/57]/1995) para estudar o tema, e
diferencia três operações distintas para nortear a relação do sujeito com o objeto a
partir de sua entrada na linguagem: a privação, a frustração e a castração. São
diferentes modos do sujeito se constituir a partir da relação com a falta do objeto,
que se faz condição necessária para o desenvolvimento psíquico. Nas palavras de
Lacan: "no mundo humano, a estrutura como ponto de partida da organização objetal
é a falta de objeto" (p.55).
A privação é necessária ao homem, é de extrema importância para a sua
relação com o mundo. "A privação está no real, completamente fora do sujeito. Para
que o sujeito apreenda a privação, é preciso inicialmente que ele simbolize o real"
(
LACAN, [1956/57]/1995, p.55). Para falar disso, Lacan utiliza a metáfora de um livro
que não está em seu lugar numa estante da biblioteca, levando o bibliotecário a dizer,
para alguém que lhe pede o livro, que ele não está disponível para ser retirado.
Talvez o livro esteja em qualquer outro lugar da biblioteca, que não naquele lugar,
pode estar justamente ao lado, mas simbolicamente, ao bibliotecário "ele é, por
princípio, invisível" (p.38). É desse modo que Lacan entende que a mãe introduzirá a
criança simbolicamente no registro da privação. A mãe não deixará de existir, mas
não se fará para a criança presente a todo o momento. Será por isso que a criança
poderá reivindicar a presença da mãe.
Na frustração, a criança, reconhecendo a mãe como faltante, oferece-se
como falo dela, na tentativa de restituir algo à mãe. É importante destacar que aqui
não se está puramente no registro da necessidade, mas no registro do desejo. Para
Lacan ([1956/57]/1995, p.188):
Mesmo que não seja o seio da mãe, nem por isso ele perderá algo do valor de seu lugar na dialética sexual, de onde se origina a erotização da zona oral. Não é o objeto que desempenha, em seu interior, o papel essencial, mas o fato de que a atividade assumiu uma função erotizada no plano do desejo, o qual se ordena na ordem simbólica.
Isso significa que não importa somente o que a mãe oferece, mas como esta
o faz. Ela pode oferecer o alimento a partir do seio ou a partir da mamadeira, pois
"objeto em si mesmo não é indiferente, mas não tem necessidade alguma de ser
específico" (
LACAN, [1956/57]/1995, p.188). Isso porque o que se faz presente aqui
é o valor de dom, ao qual já nos referimos anteriormente. Há aí uma satisfação
substitutiva da saturação simbólica. De um ou de outro modo, há nessa dialética a
erotização da zona oral. Nesse momento a necessidade do bebê não é mais plenamente
atendida, já havendo aí uma disjunção, um furo entre o que se deseja e o que se
recebe. Por isso a palavra se faz uma importante mediadora nesse momento. Lacan
afirma que: "Desde a origem, a criança se alimenta tanto de palavras quanto de pão,
e perece por palavras." (p.192).
A frustração é uma falta real no que diz respeito à sua natureza, mas que causa
um dano que é imaginário. Lacan diz que ela diz respeito a algo que é desejado e
não é obtido, mas que quando é desejado, o é sem nenhuma possibilidade de
satisfação e nem de aquisição. É também no regime da frustração que pode vir
acontecer, segundo a teoria lacaniana, da criança vir a "comer nada", no caso da
anorexia mental.
"É no nível do objeto anulado como simbólico – pela mãe – que a criança
põe em xeque a sua dependência, e precisamente alimentando-se de nada."
(
LACAN, [1956/57]/1995, p.190). Nesse quadro a criança inverte a sua posição de
dependência da mãe, colocando a mãe como dependente da criança, comendo
nada para manter o espaço do vazio. Quando a demanda de alimentar se encontra
com a demanda de ser alimentado, o desejo se sacia, mas quando a demanda de
alimentar não coincide com a demanda de ser alimentado, há um desejo impossível
de ser satisfeito.
Sobre isso, Lacan diz, mais à frente: "A ambivalência primeira, própria a toda
demanda, é que, em toda demanda, é igualmente implicado que o sujeito não quer
que ela seja satisfeita." ([1960/61]/1992, p.202). Por isso, é no registro da frustração
que estão as declarações amorosas desenfreadas e sem lei, entretanto garantidas