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O nível de desigualdade de renda entre indivíduos de uma população que têm suas rendas totais resultado de somas de diferentes fontes ou parcelas (ex. trabalho, aposentadoria, juros, doação, transferências) pode ser acrescido (diminuído) tanto em virtude do elevado (baixo) nível de desigualdade nas distribuições de renda destas distintas parcelas, como em virtude do alto (baixo) peso no total de algumas poucas parcelas que apresentam distribuições com elevados níveis de desigualdade. Em outras palavras, o nível e a evolução da desigualdade depende tanto dos níveis de concentração das distribuições das diferentes fontes de renda, como das participações destas parcelas de renda no total (SILVEIRA NETO; GONÇALVES, 2007). Assim, é válido tecer alguns esclarecimentos sobre as seis parcelas adotadas por este estudo a fim de apresentar algumas definições. De acordo com Hoffmann (2009, p. 220-221),

O rendimento total (ou rendimento de todas as fontes), além do rendimento de todos os trabalhos, inclui aposentadorias, pensões, rendimentos de aluguéis, doações recebidas, juros, dividendos e transferências do governo, como as do programa Bolsa Família. Entre as aposentadorias e pensões, a PNAD permite distinguir as aposentadorias e pensões “oficiais” (recebidas de instituto de previdência ou do governo18).

18Hoffmann (2009) afirma que o rendimento de abono de permanência (variável V1264 da PNAD) é uma parcela insatisfatória que foi

A primeira parcela a ser descrita aqui será a renda do trabalho, que “inclui a renda do trabalho principal, do trabalho secundário e dos outros trabalhos, tanto monetário como não-monetário” (SOARES, 2006, p. 99). Vale à pena esclarecer que, de acordo com Hoffmann (2009), a nomenclatura adotada pelo IBGE, denominada ‘rendimento do trabalho’ é definida como rendimento obtido por meio do exercício de uma atividade, como por exemplo, empregado (público ou privado), conta-própria ou empregador. Apesar da semelhança das expressões, não se deve confundir o ‘rendimento do trabalho’ do IBGE com o conceito de ‘remuneração do trabalho’ em teoria econômica.

Essa é tida como importante fonte de renda dos domicílios brasileiros, já que está diretamente relacionada ao mercado de trabalho. Essa parcela tem como principal indexador o salário mínimo19, cujo efeito evolutivo na distribuição de renda possui muitas controvérsias. Conforme Sampaio Filho (2006, p. 10-11),

[...] Na defesa do salário mínimo, há os que afirmam que a fixação de um salário mínimo tem impactos positivos na distribuição de renda, uma vez que os rendimentos dos trabalhadores com salários inferiores ao mínimo seriam arrastados para novo valor, ou estariam de certa forma, indexados a este, protegendo aos trabalhadores menos capazes, de baixa produtividade, não organizados através de acordos coletivos, ou ainda sob o poder de patrões que exercem um certo poder monopsônio. O salário mínimo também serve como mecanismo de elevação da eficiência econômica, uma vez que a produtividade de um trabalhador é, em geral, direta ou indiretamente afetada pelo seu salário.

Por outro lado, os que não defendem, postulam que o salário mínimo tem pouco efeito sobre os rendimentos das pessoas uma vez que ao incidir sobre os trabalhadores menos qualificados, não necessariamente atinge aqueles que fazem parte das famílias mais pobres, pois muitos trabalhadores de baixa renda estão na informalidade ou trabalham por conta própria.

Outra importante observação feita por Ferreira (2000) é que o mercado de trabalho desempenha papel amplificador com a desigualdade educacional ao passo que a transforma em desigualdade salarial, gerando ainda mais desigualdades através da segmentação e descriminação empregatícia. O autor conclui que: “se o nosso objetivo é entender a geração e reprodução da desigualdade de renda no Brasil, o centro de nossas atenções deve estar voltado para o processo de formação e distribuição das oportunidades educacionais no país.” (FERREIRA, 2000, p.155).

“Em mercados de trabalho de regiões menos desenvolvidas, outras características estão em geral presentes: baixa qualificação da mão-de-obra, alta proporção de relações informais de trabalho, grande importância relativa do setor público” (ARAÚJO, 1997, p. 69).

19 Para ver alguns estudos que relaciona salário mínimo e impactos distributivos ler os seguintes trabalhos: Reis e Ramos (1993); Barros,

A conclusão de Araújo (1997) destaca que o mercado de trabalho do Nordeste comporta grande heterogeneidade de situações. Por um lado, vê-se o quadro geral de atraso e de lamentáveis indicadores sociais e por outro, há pólos locais de crescimento (fruticultura, agricultura de grãos, petroquímica, serviços) com boa capacidade de geração de empregos.

Outra parcela refere-se às aposentadorias e pensões que representam uma fração importante dos rendimentos declarados do Brasil, elevando-se de 15,2% em 1997, para 18,5% em 2001 e 19,8% em 2003 e 2005. Nos dados da PNAD de 2007, as aposentadorias e pensões representam 19,4% do rendimento total dos domicílios. “As aposentadorias e pensões pagas por instituto de previdência ou pelo governo são as predominantes, representando 14,1% de toda a renda declarada dos domicílios em 1997; 17,1% em 2001; 18,5% em 2003 e 17,9% em 2007” (HOFFMANN, 2009, p. 214).

Lembrando que a previdência social atua em cinco ramos principais: invalidez, velhice ou tempo de serviço; doença e maternidade; acidentes de trabalho; desemprego e encargos familiares. Portanto, as aposentadorias e pensões “oficiais”, que representam a segunda parcela que mais impacta na renda total, são fontes providas pelo Governo e seu financiamento somente pode ser pensado em termos de recursos fiscais. Essa parcela se constitui de um instrumento de redistribuição de renda em favor dos segmentos menos favorecidos da população, sendo assim, um mecanismo de solidariedade, universalidade e equidade baseado no princípio da distribuição de renda, idéia derivada do conceito de proteção social e obrigatória. É interessante lembrar que essa fonte de renda é um direito à renda, em caso de perda de capacidade laboral (seja por velhice, invalidez, seja por doença e desemprego), que está inscrito na Declaração dos Direitos Humanos, aprovada em 1948 pela Assembléia Geral das Nações Unidas (MARQUES; EUZÉBY, 2005).

Conforme Ferreira e Souza (2008, p.59),

Nota-se que no Brasil e no Brasil urbano os estratos que concentram o maior número de domicílios não detêm o maior percentual de renda total e rendimento de aposentadorias e pensões. A renda total está concentrada nos estratos superiores, em que estão os relativamente ricos. Esse comportamento é diferente na esfera rural brasileira, pois no Brasil rural apresenta-se o maior número de domicílios e renda total nos estratos inferiores, em que estão os relativamente pobres.

Analisando somente os rendimentos de aposentadorias e pensões, observa-se que é nos estratos superiores (relativamente ricos) que existe a predominância desse tipo de rendimento. Essa relação é diferenciada se analisarmos o Brasil rural, em que tal rendimento está concentrado nos estratos inferiores. De forma geral, verifica-se um descompasso entre os estratos que concentram mais domicílios e, conseqüentemente, mais pessoas e a distribuição do rendimento total e das aposentadorias e pensões. Especificamente, para o meio rural estratificado, essa tendência não se verifica.

Em outro trabalho Ferreira (2003), analisa a distribuição de renda das parcelas do rendimento domiciliar per capita em estratos utilizando os dados das PNADs de 1981 a 2001 e conclui que o rendimento das aposentadorias e pensões tende a reproduzir a distribuição de renda brasileira. Porém, cabe destacar que, ao contrário da análise proposta por este estudo, o autor considerou essa parcela composta tanto por aposentadorias e pensões providas do governo e como também as privadas. Ferreira (2003) afirma ainda que o volume de recursos gastos com esses benefícios é alto, mas distribuído de maneira desigual. Já Hoffmann (2009) afirma que a contribuição das mudanças no rendimento de aposentadorias e pensões oficiais para reduzir a desigualdade é pequena no período 2001-2004 (2,6%), mas se torna substancial no período 2004-2007 (37,1%).

As aposentadorias e pensões “oficiais” podem ser utilizadas para um melhoramento da distribuição de renda, mas para que isso seja possível, deve-se ter um sistema previdenciário moderno e eficiente, não apenas porque essa parcela favorece aos idosos, mas por estar diretamente ligada ao governo, que detém as normas e leis e que podem e devem atenuar a desigualdade de renda (FERREIRA, 2003).

A terceira parcela da renda adotada pelo presente trabalho é referente às aposentadorias e pensões privadas, feitas em regimes de aposentadoria particulares. Esses regimes são totalmente independentes ou complementares ao regime geral nacional. Eles concedem vantagens aos trabalhadores do setor privado que variam de país a país20. Há casos que, em um mesmo país, co-existem vários regimes, que cobrem as diferentes categorias de empregados (MARQUES; EUZÉBY, 2005).

A previdência privada pode ser de dois tipos: fechada ou aberta. Segundo Machado (2006), as entidades fechadas são aquelas acessíveis, na forma regulamentada pelo órgão regulador e fiscalizador, destinadas exclusivamente: aos empregados de uma empresa ou grupo de empresas; aos servidores da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios, para os quais é mais conhecida como regime de previdência complementar; e aos associados ou membros de pessoas jurídicas de caráter profissional. Os planos fechados, também chamados de fundos de pensão, estão aos cuidados de empresas privadas, dirigidas por sociedades civis ou fundações sem fins lucrativos. Já as entidades abertas são compostas sob forma de sociedades anônimas e têm por objetivo instituir e operar planos de benefícios de caráter previdenciários concedidos em forma de renda continuada ou pagamento único,

acessíveis a quaisquer pessoas físicas. Os planos abertos, regularizados pela Superintendência de Seguros Privados (SUSEP), são comercializados por bancos ou seguradoras.

Entretanto, é importante comentar a respeito das aposentadorias e pensões, “oficiais” ou privadas, que estão contribuindo para aumentar à desigualdade da distribuição da renda no Brasil. Quanto à primeira, faz parte de um sistema previdenciário com necessidade de reforma; e a segunda, permite aos indivíduos de classe elevada obter uma maior parcela da renda.

Os rendimentos provenientes de doações feitas por pessoas de outros domicílios constituem a quarta parcela da decomposição da renda neste trabalho. Essa parcela é tratada como uma transferência de renda de um domicílio para outro, feita por um não-morador do domicílio receptor da renda, podendo ser mesada, doação, transferência interfamiliar e pensão alimentícia, seja ela doada espontaneamente ou judicialmente (MAC DOWELL; SILVA; SOUZA, 2002). Vale ressaltar que, segundo Ferreira (2003), os dados referentes a essa parcela de renda estão disponíveis a partir da PNAD de 1992.

A quinta parcela são os rendimentos provenientes de aluguel, que incluem sublocação e arrendamento de móveis, imóveis, máquinas, equipamentos, animais, dentre outros (IPARDES, 2007). Lembrando que, conforme afirma Hoffmann (1999), não se encontra incluído nessa fonte de renda o valor de aluguel do domicílio próprio utilizado pela família. Isso acarreta numa subdeclaração dos rendimentos, especialmente se analisado o aluguel do domicílio da camada de renda mais elevada. Para Silva e Lopes (2009, p. 210), “a renda de aluguéis mostra-se mais importante nas classes de renda per capita mais elevada. A posse de imóveis representa uma significativa parcela da renda para essas famílias”. Assim, é esperado que o impacto dessa contribuição no cálculo da soma dos rendimentos seja mais expressivo para a faixa de renda mais alta da população.

Por fim, a sexta parcela da renda em questão se trata do valor registrado na última pergunta do questionário da PNAD sobre rendimentos, que abrange juros, dividendos e transferências de renda de programas oficiais (HOFFMANN, 2001). Apesar dessa parcela da renda ser originária dos juros e dos programas de transferências públicas, como por exemplo, Bolsa Família, LOAS, PETI e Auxílio-Gás, “a magnitude da parcela juros é muito pequena perante as transferências públicas de renda, em virtude de subregistro da PNAD. Dessa forma, esse agregado será considerado proxy do tipo de renda associado a transferência pública de renda.” (CACCIAMALI; CAMILO, 2007, p. 12).

Relacionando transferência e distribuição de renda, é válido analisar os impactos daquela para diminuição da desigualdade de renda. Vários estudos recentes apresentam

análise relevante acerca dessa variável, como: Hoffmann (2005, 2009); Soares (2006); Arbix (2007); Zilberberg (2008); Cacciamali e Camilo (2007); Mac Dowell, Silva e Souza (2002); Silveira Neto e Gonçalves (2007); Siqueira e Siqueira (2006).

Na descrição de Soares (2006, p. 96),

O Brasil conta com vários programas de transferência de renda para os estratos mais pobres da população. Os mais antigos destes são as aposentadorias rurais, que, segundos os registros administrativos, somavam quase cinco milhões de benefícios concedidos em dezembro de 2004. O Benefício de Prestação Continuada da Lei Orgânica de Assistência Social era emitido para quase um milhão de pessoas nesta mesma data. Ambos os benefícios citados têm valor igual a um salário mínimo. O piso do regime Geral da Previdência Social, também indexado ao salário mínimo, pode ser pensado como um programa de transferência de renda aos mais pobres, apesar de não ser regido por qualquer regra nesse sentido. Apesar de não haver, entre 2001 e 2004, novidades legais nesses programas, o seu impacto distributivo potencial torna-se importante, quando se considera que tais benefícios são indexados ao salário mínimo, que tem crescido de modo quase continuo em termos reais desde 1994.

A maioria dos trabalhos relevantes acerca desse tema conclui que os programas de transferência de renda, intensificados a partir de 2003, desempenham papel importante na diminuição da desigualdade de renda. Sobre essa análise, Arbix (2007, p. 136) afirma que,

[...] Estimativas do IPEA sugerem que cerca de um quarto da queda na desigualdade se deve a eles. Esses programas são focalizados, ou seja, orientados para os mais pobres:

- 52% dos beneficiários dos programas de transferência de renda estão entre os 20% mais pobres da população, isto é, em famílias de renda per capita abaixo de um terço de salário mínimo;

- cerca de 70% dos beneficiários pertencem a famílias cuja renda per capita

é inferior a 25% do salário mínimo;

- 91% dos beneficiários estão na metade mais pobre da população (abaixo de R$ 208 em 2004);

- 95% dos beneficiários estão em famílias de renda per capita abaixo de um

salário mínimo.

O trabalho de Cacciamali e Camilo (2007) conclui que as transferências públicas de renda serviram para a diminuição do grau de desigualdade da renda do Brasil para os anos de 2001 a 2004. Para esse mesmo período, Soares (2006) afirma que o programa Bolsa Família impactou 27 % na queda da concentração da renda pessoal brasileira. Cabe comentar que, segundo Arbix (2007), dentre todos os programas sociais implementados no Brasil, o Bolsa Família demonstra-se o mais bem focalizado. Este é proveniente da unificação de quatro programas em 2004, Bolsa Escola, Bolsa Alimentação, Auxílio-Gás e Cartão Alimentação, e tem como base a manutenção das crianças na escola e a obrigatoriedade de exames de saúde

para as mães. Assim, o Bolsa Família eleva o grau de sua eficiência, atingindo efetivamente os mais pobres.

O impacto positivo das transferências de renda, nos moldes do programa Bolsa Família, na desigualdade pessoal e regional é, também, evidenciado. Parte dessa redução na desigualdade de renda foi resultado de uma melhora na distribuição de renda inter-regional (ZILBERBERG, 2008). Na análise nordestina do Brasil mostra que houve o maior crescimento das transferências públicas, passando de 1% para 3%, contribuindo expressivamente para aumentar a participação das rendas desse tipo na renda domiciliar per capita no agregado dessa. Essa afirmação é condizente com a expansão dos programas de transferência de renda na região, principalmente do Bolsa Família que aloca aproximadamente metade dos seus recursos para o Nordeste em 2004 (CACCIAMALI; CAMILO, 2007).

Contudo, é necessário refletir sobre as políticas de proteção social consideradas neste trabalho através da contribuição destas na sexta parcela da renda na busca de contribuir para um país mais justo. Tais programas de transferência de renda devem ser tomados como ações emergenciais no processo de alteração da distribuição de renda no Brasil, enquanto formas sustentáveis para a estrutura distributiva nacional não são criadas.

O item a seguir será descrita a metodologia a ser utilizada para verificação do comportamento da desigualdade de renda no Nordeste do Brasil para o período recente, enfocando a decomposição de Gini que servirá de base para realização das discussões intra-regionais.

3 METODOLOGIA

Realizou-se realizar uma pesquisa aplicada, quantitativa, descritiva e com base em procedimentos de levantamento. A pesquisa classifica-se como: aplicada porque visa contribuir, a partir de análise empírica, para o fortalecimento de análises teóricas sobre distribuição de renda; como quantitativa, porque está embasada em técnicas estatísticas; como descritiva, por ter como objetivo primordial a descrição das características da variável “renda”, que foi adotada para o estudo; e com relação à obtenção de dados adotou-se a PNAD, que utiliza a técnica de observação direta extensiva dos domicílios brasileiros, por meio de procedimento de levantamento (GIL, 2002; MARCONI; LAKATOS, 2001). A seguir será apresentada a base de dados utilizada e mais detalhes sobre suas vantagens e limitações.