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2 BASES TEÓRICAS SOBRE ANÁLISE DO DISCURSO, IDENTIDADE E

2.3 Considerações sobre discurso e seus constituintes

até então e fazem surgir conceitos importantes para a AD, conforme exploraremos no próximo tópico.

gostaria de mostrar que o discurso não é uma estreita superfície de contato, ou de confronto, entre uma realidade e uma língua, o intrincamento entre um léxico e uma experiência; gostaria de mostrar, por meio de exemplos precisos, que, analisando os próprios discursos, vemos se desfazerem os laços aparentemente tão fortes entre as palavras e as coisas, e destacar-se um conjunto de regras, próprias da prática discursiva. [...] não mais tratar os discursos como conjunto de signos (elementos significantes que remetem a conteúdos ou a representações), mas como práticas que formam sistematicamente os objetos de que falam. Certamente os discursos são feitos de signos; mas o que fazem é mais que utilizar esses signos para designar coisas. É esse mais que os torna irredutíveis à língua e ao ato da fala. É esse

"mais" que é preciso fazer aparecer e que é preciso descrever (FOUCAULT, 2000, p.56).

Ao referir-se a esse ―mais‖ que permeia o discurso, esse autor refere-se aos elementos exteriores ao discurso, tanto que em sua obra Arqueologia do Saber (1969), o filósofo destaca as características de um enunciado que compõe o discurso, as quais aprofundaremos em nossas análises mais adiante. Segundo ele, o discurso é um conjunto de regras, portanto, práticas que formam objetos por meio de relações complexas. Segundo Gregolin (2010, p.11), Foucault ―quer entender as relações que os enunciados mantêm entre si e com acontecimentos técnicos, políticos, sociais e como as verdades, os sujeitos e os objetos são construídos por meio da produção e circulação de discursos.‖. Concernente a isso, todo discurso produzido em uma determinada época carrega marcas externas inerentes ao período em que é produzido. Se olharmos de forma analítica, por exemplo, para as gírias utilizadas pelos jovens, notaremos que a cada época surgem termos cujos usos decorrem de influências sócio-históricas inerentes ao período em que se inserem.

Para Foucault (2000, p.25), as unidades do discurso estão interligadas ao ―conjunto de enunciados que eram, na época de sua formulação, distribuídos, repartidos e caracterizados de modo inteiramente diferente‖. Embora o estudioso não use, em sua obra, o termo condições de produção do discurso e interdiscurso, ele explicita tais noções, por exemplo, ao explorar o já dito e as relações dos enunciados com outros produzidos anteriormente os quais atravessam outros enunciados que estão sendo produzidos. É notável, em seus escritos, a importância de tais condições para a existência do discurso. Foucault não faz referência a condições de produção do discurso, porque esse termo é oriundo das concepções marxistas das relações de produção e, segundo Gregolin (2006), para Foucault, o marxismo não devia ser tido como uma ciência, assim como desejavam outros teóricos althusserianos17, mas, conforme seus estudos, a obra de Marx devia funcionar como mais um ―instrumento de trabalho‖, entre

17 Louis Althusser, marxista, foi orientador de Michel Pêcheux e Foucault.

outros que compunham suas pesquisas. Por isso, diferentemente de Pêcheux, as noções marxistas pouco influenciam as construções teóricas foucaultianas, porém, o filósofo aborda a exterioridade, a raridade e o acúmulo como elementos constitutivos do discurso que nos remetem à noção de condições de produção.

De acordo com o pensamento foucaultiano, o(s) discurso(s) produzido(s) em diferentes épocas está(ão) relacionado(s) a outros discursos de épocas anteriores, pois não produzimos um discurso a partir do nada. Tudo que enunciamos é feito a partir de um determinado lugar social. Todo discurso, conquanto esteja relacionado a outros discursos já emitidos anteriormente, é atravessado por situações de acontecimentos que compõem os períodos em que foram construídos. Em A ordem do discurso, Foucault (2009, p.26) diz que ―o novo não está naquilo que é dito, mas no acontecimento do seu retorno‖. Portanto, afirmamos, pautados nesses dizeres, que o acontecimento não se repete, pois a cada acontecimento há outros elementos que o envolvem, existe outra situação, outros sujeitos, são outras as condições sociais e históricas, logo, outras as condições de produção. O acontecimento envolve elementos discursivos e não-discursivos (leis, instituições, acontecimentos políticos, econômicos, culturais etc.), pois é histórico, implica relacionar o discurso a outros elementos ligados à exterioridade. Segundo Fischer (1996), é essa relação entre o discursivo e o não-discursivo que faz com que em determinada época apareça um objeto de poder e saber e não outro objeto. Assim, de acordo com Foucault (2000), o que transformará uma frase, uma proposição, um ato de fala em um enunciado será justamente os seus elementos exteriores, ou seja, por ter sido produzido por um determinado sujeito, em um lugar enunciativo definido, determinado por regras sociais e históricas. Consequentemente, há uma relação intrínseca entre o enunciado, as suas condições de existência e o que ele enuncia.

Nessa mesma linha de pensamento, na obra Estrutura ou acontecimento, Michel Pêcheux (2006) analisa o enunciado on a gagné, produzido em um dado momento histórico, mostrando como esse enunciado adquire a dimensão de acontecimento discursivo. Ao analisar o enunciado on a gagné (ganhamos), produzido no momento da eleição de F. Miterrand à presidência da França, em 1982, Pêcheux (2006) afirma que só é possível o uso de um enunciado esportivo no campo político devido à opacidade da língua, que produz deslizes de sentidos, ou seja, um mesmo enunciado pode ter significados diferentes em acontecimentos diferentes.

Conforme os estudos foucaultianos (2006), o enunciado é a unidade mínima do discurso, ―a mais molecular‖, pois envolve um sujeito, uma materialidade, um suporte, uma data, um lugar. Segundo o filósofo,

a identidade de um enunciado está submetida a um segundo conjunto de condições e de limites: os que lhe são impostos pelo conjunto dos outros enunciados no meio dos quais figura; pelo domínio no qual podemos utilizá-lo ou aplicá-utilizá-lo; peutilizá-lo papel ou função que deve desempenhar (FOUCAULT, 2006, p.119).

Gregolin (2004), simulando entrevista com Foucault, ao interpretar esses dizeres, afirma que a identidade de um enunciado submete-se a limites impostos pelo lugar que ocupa entre outros enunciados, porque há condições particulares que definem a realização de um enunciado e lhe darão uma existência específica. Desse modo, tomando como objeto de análise o discurso religioso podemos afirmar que se submete aos limites de coexistência dos enunciados que são produzidos consoante ao período histórico em que aparecem, aos objetivos e às necessidades da instituição religiosa a qual ocupa uma determinada posição-sujeito no momento da enunciação. Destarte, um enunciado é formado por um conjunto de signos, porém o que o torna um enunciado, são outros elementos que o constituem enquanto

modalidade que lhe permite ser algo diferente de uma série de traços, algo diferente de uma sucessão de marcas em uma substância, algo diferente de um objeto qualquer fabricado por um ser humano; modalidade que lhe permite estar em relação com um domínio de objetos, prescrever uma posição definida a qualquer sujeito possível, estar situado entre outras performances verbais, estar dotado, enfim, de uma materialidade repetível (FOUCAULT, 2000, p. 123-124, destaques do autor).

Tais elementos o tornam uma função enunciativa que, segundo Foucault (2000, p.133),

―requer um referencial; um sujeito; um campo associado e uma materialidade‖, definida por práticas discursivas e/ou não discursivas ―que definiram, em uma dada época e para uma determinada área social, econômica, geográfica ou lingüística, as condições de exercício da função enunciativa.‖ (FOUCAULT, 2000, p.136).

De acordo com essas concepções, o enunciado terá sentido dependendo das condições históricas e sociais, e das posições sujeito construídas no discurso. O enunciado é mais que um conjunto de frases, proposições ou atos de linguagem, a sua existência ultrapassa a condição linguística. Do mesmo modo que é visível através da materialidade linguística, torna-se oculto devido a sua exterioridade, enquanto função enunciativa, pois se constitui, também, por elementos exteriores que o modificam a cada momento em que é produzido, pois

―de um lado ele é um gesto; de outro liga-se a uma memória, tem uma materialidade; é único mas está aberto à repetição e se liga ao passado e ao futuro‖ (FOUCAULT, 2000, p. 29).

Nesse sentido, o enunciado que é produzido nos documentos da IC no interior de uma

formação discursiva, como mostraremos no capítulo III, terá um determinado efeito de sentido de acordo com as regras que determinam a sua existência, a sua relação com a história, com os sujeitos e com o que ele enuncia, enfim, a possibilidade de sua aparição.

Conforme o filósofo francês (2000, p.128), ―nem tudo é sempre dito‖, isso significa que as FDs estabelecem os dizeres de um discurso concernente aos aspectos históricos e sociais que determinam a emergência de um enunciado.

Tomando como materialidade discursiva o discurso religioso católico, a noção de raridade nos mostra que outros elementos atravessam a produção desse discurso, tais como dogmas, doutrinas, a bíblia, etc. Assim, a PJ se apropria dos ditos bíblicos e os reproduzem, repetem e transformam.

Esta característica do enunciado, estabelecida por Foucault (2000, p. 139), vinculada ao seu estatuto de raridade, pode assim ser definida como

coisas que se transmitem e se conservam, que têm um valor, e das quais procuramos nos apropriar; que repetimos, reproduzimos e transformamos;

para as quais preparamos circuitos preestabelecidos e às quais damos uma posição dentro da instituição; coisas que são deslocadas não apenas pela cópia ou pela tradução, mas pela exegese, pelo comentário e pela proliferação interna do sentido. Por serem raros os enunciados, recolhemo-los em totalidades que os unificam e multiplicamos os sentidos que habitam cada um deles.

Por serem raros os enunciados, embora sejam repetidos, são transformados pelos sujeitos que ocupam diferentes posições no momento da enunciação, pela história ou pelos acontecimentos históricos que permitem o surgimento de um enunciado e não outro. Assim,

―nem tudo é dito‖, também, no discurso religioso, pois os enunciados produzidos por ele têm um valor definido segundo as regras de formação desse campo enunciativo.

Tendo em vista as características do enunciado e as regras que possibilitam seu surgimento, conforme descrição supracitada, enfocaremos os enunciados produzidos pela PJB, demonstrando como os acontecimentos sócio-históricos e políticos determinam a elaboração de enunciados religiosos efetivamente produzidos pela PJ. Em nossas análises exploraremos a prática discursiva da PJ, a partir dos enunciados produzidos.