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Considerações sobre estudos de Geografia e saúde

A relação da Geografia com a saúde nasceu na antiguidade, com o filósofo grego Hipócrates, e portanto com a própria história da medicina, aproximadamente em 480 a.C. A data se refere à publicação da obra Dos ares, das águas e dos lugares onde Hipócrates mostrou a influência dos fatores ambientais no aparecimento das doenças (Lacaz et al., 1972). As doenças, para o referido autor, eram produto

da relação complexa existente entre o indivíduo e o ambiente que o cerca, muito semelhantes com o raciocínio ecológico contemporâneo e amplamente empregado nos estudos médicos.

Segundo Pereira (1995), Hipócrates fornecia orientações aos médicos para que sempre levassem em consideração na avaliação do paciente, entre outros fatores, o clima, a maneira de viver e os hábitos alimentares. O mesmo autor destaca que este sábio estudioso, ao realizar seus estudos sobre as doenças epidêmicas, levou em consideração a influência das variações geográficas na incidência de tais doenças, permitindo que surgissem estudos mais completos e eficientes com relação às influências ambientais na saúde.

Mais tarde, no período do renascimento, Lacaz (1972) afirma que o médico de fato “deveria ser um cosmógrafo”, ou seja, ter condições de analisar diversos aspectos envolvendo o homem seus hábitos, cultura, alimentação e localidade, para ter uma visão abrangente das doenças e suas principais causas e posteriormente poder realizar uma prevenção contra tais enfermidades.

O surgimento da primeira Revolução Industrial iniciou-se em meados do século XVIII na Inglaterra, expandindo depois para outros países e causando o deslocamento das populações do campo para o meio urbano, atraídas por empregos nas fábricas recém criadas. Naquele período ocorriam epidemias de cólera, febre tifóide e febre amarela, que constituíam graves problemas para as populações urbanas e despertavam preocupações quanto à criação de uma estrutura administrativa para a aplicação de medidas preventivas (Pereira, 1995). Nesse período, destaca-se o médico inglês Snow, que conduziu numerosas investigações com o intuito de esclarecer as origens das epidemias de cólera que afligiam a população de Londres em meados do século XIX. O referido médico utilizou em sua investigação sobre a cólera o recurso cartográfico, conforme a Figura 1, em que cada ponto em negrito destaca no mapa a localização do domicílio onde ocorreu um caso fatal da doença entre o período de 19 de agosto a 30 de setembro de 1854 (Lacaz, 1972).

Imagem 13: Mapa de Londres destacando casos de cólera (pontos) e os poços d’água (cruzes).

Ao analisar o mapa, o médico começou a observar que as pessoas que consumiam água da bomba de Broad Street estavam contaminadas com cólera. A posição da bomba que fornecia água para a população foi essencial para o estudo pois constatou-se que a água contaminada estava causando surto da doença na localidade, mostrando assim a importância de se levar em consideração os fatores físicos e sociais que influenciam na dispersão e transmissão de uma determinada epidemia.

Um dos ramos da geografia médica, a chamada “climatologia ou meteorologia médica” alcançou grande desenvolvimento a partir de 1900, destacando-se o trabalho de Piery. Sua famosa obra intitulada Traité du climatologie biologique et medicale, dividida em três volumes, tratava principalmente de instruções sobre a descrição, observação e pesquisas que abordavam a influência do clima sobre a saúde humana e dos demais seres vivos (Lacaz, 1972).

Outro importantíssimo pesquisador que contribuiu para os estudos da geografia médica foi o geógrafo francês Max Sorre, que entre outras coisas analisou as relações entre o homem e o meio geográfico, estabelecendo inúmeros contatos interdisciplinares entre a Geografia e as ciências sociais e biológicas. Ao correlacionar a ocorrência de certas doenças a tipos climáticos determinados, introduziu o conceito de “complexos patogênicos” , “cujo o número e variedades são infinitos”, possibilitando dessa forma ampliar o poder analítico e explicativo de uma Geografia antes restrita à descrição do meio físico, fornecendo desta forma a base metodológica para estudos da Geografia Médica contemporânea (Sorre, 1984).

Segundo Guimarães (2000), Sorre forneceu várias ferramentas conceituais aos pesquisadores da área médica, abrangendo desde a Geografia até ramos das Ciências Biológicas, o que permitiu uma maior compreensão do equilibrio e da adaptação entre a sociedade e o ambiente. Desta forma, os aspectos geográficos deixaram de ser secundários nos estudos dos vetores e das moléstias.

No Brasil, conforme Lacaz (1972), poucos estudiosos desenvolveram pesquisas em Geografia Médica. Em 1844, o médico Sigaud, publicava a obra Du climat et des maladies du Brésil que representava o primeiro tratado brasileiro da Geografia Médica, sendo Sigaud considerado o primeiro geógrafo médico do Brasil.

Em 1947 o médico e geógrafo Josué de Castro lança a obra denominada Geografia da Fome, destacando por meio de um estudo pormenorizado a problemática da fome no Brasil, principalmente na região Nordeste. Até então, acreditava-se que a fome e as várias patologias advindas da alimentação precária no Sertão nordestino tinham como causa principal a “aridez climática”, que não possibilitava a produção de alimentos que suprisse a demanda da população (Castro, 2001).

Desta forma, o causador da situação passava a ser a natureza, isto é, isentando o modelo capitalista da desigualdade social que havia no nordeste brasileiro. Mas fica comprovado na obra de Castro (2001) que o principal problema não era apenas das condições climáticas, mas sim dos sistemas econômicos e sociais, que não permitiam uma alimentação adequada e acessível à população nordestina.

De acordo com Mendonça (2000), houve um relativo abandono dos estudos da Geografia Médica, dentro da Geografia brasileira, sendo poucos exemplos de estudiosos que ilustram o período após a década de 1960.

Atualmente, a Geografia da Saúde tem recebido grandes contribuições através de diversas pesquisas que abordam doenças que afligem o Brasil, como por exemplo a dengue, na Universidade Estadual Paulista “Julio Mesquita Filho” (Unesp), campus de Presidente Prudente . Nesta universidade

há um grupo de estudos com excelente produção, relacionando aspectos geográficos, sociais e de saúde pública, sob a orientação do Professor Dr. Raul Borges Guimarães.

Mendonça (2000) destaca em seu artigo alguns autores como Trindade Amorim, que realizou um estudo sobre incidência da dengue e da febre amarela na cidade de Presidente Prudente (SP), além de Ferreira e Lombardo, que pesquisaram “a questão climática e a ocorrência de malária na área de influência do Reservatório de Itaipu-PR”.

Merece destaque entre esses estudos a dissertação de mestrado intitulada Dengue no Brasil:

abordagem geográfica na escala nacional, de Rafael Catão, enfatizando que a expansão da doença seria um efeito indireto da globalização, que intesificou a comunicação rodoviária, fluvial e aérea. O estudo trouxe uma visão em escala nacional dando subsídios para compreender e combater com mais eficácia o mosquito Aedes aegypti, transmissor da dengue.

Diante das análises bibliográficas realizadas, nota-se uma lacuna de atividades voltadas para o ensino da Geografia relacionando aspectos do mosquito vetor da dengue com análises de climogramas, gráficos e tabelas que possam favorecer uma visão crítica sobre a dengue, assim como sobre o papel do aluno como cidadão, que pode também ser um agente de combate da doença em seu lar ou em sua comunidade.