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CAPÍTULO 1: MOVIMENTOS NEGROS CONTEMPORÂNEOS: CONTINUIDADES,

2.4 Considerações sobre o capítulo apresentado

Todas as organizações estudadas apresentam uma organização interna constante, capaz de estimular a ação coletiva. Contudo, as entidades reclamam da deficiência material e de recursos financeiros. As organizações estudadas utilizam os mesmos meios para obtenção de recursos que suas antecessoras. Assim, seus recursos financeiros são provenientes da contribuição individual de seus membros e do auxílio de sindicatos, centros religiosos, igrejas, partidos políticos e etc. As organizações de orientação evangélica queixam-se da falta de uma sede onde possam se reunir frequentemente, abrigar materiais produzidos pelo grupo, receber convidados, ter acesso a computadores, telefone, internet, funcionários para o atendimento ao público etc. Por conta da escassez de recursos financeiros nas organizações estudadas, muitas vezes os membros da própria direção arcam com os custos da ação coletiva. Para os associados das entidades, a contribuição para as atividades da organização é voluntária, mas os dirigentes afirmam que ela é praticamente inexistente. A justificativa comum das organizações a esse impasse é que os filiados não possuem recursos financeiros para custear as despesas da entidade, condição que dificulta a participação constante em eventos promovidos pelo grupo.

Do exposto, identificamos que as organizações negras pesquisadas possuem objetivos universalistas. Todas compartilham o propósito de lutar pelo fim das desigualdades de origem racial no Brasil, em particular na Bahia. De modo geral, as áreas de educação, saúde e segurança aparecem como temas recorrentes entre as reivindicações realizadas pelas organizações negras. No entanto, as entidades evangélicas apresentam alguns objetivos particulares haja vista que se encontram em processo de consolidação política, possuindo, antes de tudo, a tarefa de construir um discurso político convincente, capaz de mobilizar os seus pares na luta empreendida. As organizações demonstram estarem afinadas com as discussões produzidas nos encontros internacionais, assim como suas orientações. Por conta disso, as entidades negras baianas constroem uma agenda comum a partir de documentos internacionais, tais como a Declaração e o Plano de Ação de Durban, revisto em 2009. Nos encontros também são definidos a bandeira de luta que deve ser empreendida a cada ano. É importante salientar que a formação de uma agenda comum não impede a construção de agendas de lutas próprias, de acordo com as questões que as

organizações considerem prioritárias na defesa da igualdade racial na realidade social onde elas estão inseridas.

As organizações negras pesquisadas preservam algumas características de atuação com as suas antecessoras do período anterior à fase contemporânea. A preferência pela área de educação como bandeira política é um exemplo disso. O anseio por um Movimento Negro nacional ainda está presente nas organizações contemporâneas. Todavia, a fragmentação dos movimentos negros ainda é uma característica marcante que perpassa toda a trajetória de luta de mobilização negra no Brasil. As organizações estudadas também apresentam algumas características que estudiosos assinalam como importantes para distinguir os movimentos negros no período contemporâneo. Em nossa pesquisa, percebemos que a atual relação entre o Estado e Movimentos Negros é predominantemente de cooperação. O Estado não é visto como opositor natural dos movimentos, sobretudo se o Estado for governado por partidos políticos com orientação de esquerda. A aproximação das organizações e seus membros com os partidos de esquerda se acentuou a partir do período de redemocratização do país. Acrescenta-se a isso uma tendência de institucionalização das suas demandas. As organizações pesquisadas encaminham suas demandas ao poder público por meio formal, o que não significa que as organizações contemporâneas abriram mão dos protestos de rua em seus repertórios de ação, como podemos observar na atuação política da UNEGRO. Todavia, as organizações evangélicas criadas mais recentemente não utilizam tais recursos estratégicos. É necessário mais estudos sobre o processo de institucionalização dos Movimentos Negros no Brasil para identificar se de fato os protestos de rua perderão o protagonismo no repertório de ação coletiva dos grupos negros.

A burocratização, apontada como uma tendência contemporânea pelos estudiosos dos movimentos negros, não foi identificada de maneira acentuada entre as organizações estudadas. Não existe uma rígida rotina burocrática a ser seguida, muito menos percebemos um processo de profissionalização da militância. Uma estratégia utilizada pelas entidades, presente em outras fases dos movimentos negros, é a escolha de pessoas com certa relevância social para compor o quadro da organização como maneira de conceder notoriedade e prestígio a essas. O retorno às raízes africanas, presente desde a década de 70, pôde ser percebido nas organizações estudadas, especialmente na UNEGRO, com a defesa do candomblé como bandeira política. As organizações evangélicas também retomam a África em seu discurso político. A ANNEB reforçou o discurso já defendido pela ANEC, porém sem muita ênfase, de que o cristianismo é

uma religião de matriz africana, situação que possibilitou uma maior “africanização” da ANEC, ou seja, uma maior valorização da África em seu discurso, interessante para promover uma maior aproximação com os demais grupos negros que desde a década de 70 “africanizaram-se”. Vale mencionar que essa “africanização” no Movimento Negro Evangélico é uma tendência pouco sentida, vez que as organizações evitam posições que possam ser consideradas no segmento evangélico como radicais. O isolamento político apontado como problema nos movimentos negros contemporâneos também pôde ser observado nas organizações pesquisadas.

CAPÍTULO 3: DIALOGANDO COM OS ACHADOS DA PESQUISA: UMA