3 SOCIOLINGUÍSTICA E ENSINO DE LÍNGUA ESPANHOLA
3.6 Considerações sobre o conhecimento gramatical explícito
No ensino de línguas estrangeiras, a princípio, enfatizava-se e se valorizava a forma linguística, sem fazer relação alguma à competência comunicativa dos aprendizes. Contudo, com o surgimento do enfoque comunicativo de ensinar idiomas, a ênfase na forma vem diminuindo, ou seja, não se considera o ensino gramatical explícito como um fator de grande importância no processo de aprendizagem.
Segundo Gargallo (2004, p.67), o enfoque comunicativo é uma orientação metodológica aplicada ao ensino de línguas estrangeiras que tem sua origem em um
movimento renovador desenvolvido durante a década de setenta no marco das ações promovidas pelo Conselho de Europa. Ele integra de forma interdisciplinar diversas áreas, como a pragmática (que está relacionada com o uso da língua), a sociolinguística (quando se toma a ideia de variação linguística) e a linguística (a língua como instrumento de comunicação).
No contexto atual de tantas mudanças de paradigmas socioculturais, de novas concepções de práticas sociais e de ensino, lecionar uma LE nos leva a refletir o tempo todo sobre o que ensinar, quais as reais necessidades dos nossos alunos, que conhecimentos gramaticais eles necessitam para aprender o novo idioma de forma satisfatória, até que ponto esses conhecimentos ajudam os estudantes a progredir no seu processo de ensino-aprendizagem, como ensinar esses conhecimentos, entre tantas outras questões.
Assim, nós, professores de línguas estrangeiras, devemos conhecer os sistemas gramaticais tanto da LM como da LE que ensinamos, no nosso caso, o espanhol. Dessa forma, podemos solucionar com maior clareza as dificuldades que surgirão no processo de ensino/aprendizagem, o que nos permitirá utilizar os melhores métodos e estratégias para que os alunos possam aprender as novas estruturas linguísticas. Particularmente, quando trabalhamos com línguas próximas, como o português e o espanhol.
De acordo com Álvarez (2012, p.175), podemos dizer que existe uma divergência no que se refere ao conhecimento explícito e implícito, pelo fato de como os aprendizes internalizam as estruturas da língua. Neste sentido, o termo mais frequentemente utilizado para associar ao saber disponível do aprendiz, por meio de uma representação consciente, é o conhecimento explícito, considerado no contexto de aprendizagem de línguas.
A aprendizagem pode ser considerada explícita quando existe uma intenção consciente por parte do aprendiz de descobrir se o input linguístico possui regularidades sistematizáveis, ou seja, quando ele pretende sistematizar as regras introjetadas. Por outro lado, a aprendizagem implícita diz respeito a um processamento do input sem que o aprendiz tenha tal intenção. A distinção entre as formas de conhecimento implícito e explícito, portanto, refere-se a que grau essas se distanciam quanto à capacidade de o aprendiz verbalizar, ou seja, descrever, as regularidades do sistema linguístico (HULSTIJIN, 2005, p.131).
Segundo Ellis (1994), o conhecimento implícito bifurca-se em duas categorias: o conhecimento formulaico (blocos da língua), e o conhecimento baseado em regras (estruturas abstratas e generalizadas da língua), que foram internalizadas. Vale dizer que o conhecimento implícito é intuitivo, caracterizando-se pelo uso inconsciente de regras das quais os aprendizes não estão cientes. O conhecimento é oculto para o próprio aprendiz e só pode ser observado no uso real. Nesse particular, vale citar Lanzoni (2012, p.169):
Desconhecer os processos subjacentes à aprendizagem de um determinado conteúdo ou habilidade não se trata necessariamente de uma ação deliberada e se difere de um processo de alheamento, que pressupõe uma postura de indiferença e isolamento. O aluno de língua estrangeira que é privado de uma compreensão mínima sobre o processo ao qual se submete, e vai se submeter ainda por um bom tempo, é tomado por uma passividade acidental, visto que a ele não foram facultadas escolhas.
O autor se refere ao fato de que atuação do aprendiz é fundamental no processo de ensino-aprendizagem de uma LE, sendo, portanto, desejável que ele tenha uma postura participativa, apresentando plena consciência de todo o processo. Contudo, muitas vezes, o aluno é dispensado de uma relativa participação no processo de ensino/aprendizagem, com o qual ele não está suficientemente familiarizado.
Lanzoni (2012, p.170), com referência ao conhecimento explícito, assevera que é um tipo de conhecimento sobre determinados saberes ou processos relacionados ao ensino/aprendizagem de línguas que possibilita um maior progresso na aprendizagem da língua meta, devido às alterações positivas na motivação, na atitude, no rompimento de barreiras afetivas e outras variáveis individuais dos aprendizes.
Neste contexto, consideramos que o conhecimento explícito sobre determinado processo pode favorecer o aprendiz com vistas a uma maior eficácia no seu aprendizado. Em nossa opinião, a instrução explícita pode representar uma prática útil na sala de aula, isto porque através dela podemos chamar a atenção do aprendiz para detalhes até então não detectados. Contudo, na nossa pesquisa, como veremos nos Procedimentos Metodológicos, selecionamos os informantes que tiveram a oportunidade de estudar aspectos fonéticos da língua espanhola e outros que não, em todos os níveis analisados. No entanto, observamos que esse fato não fez diferença no resultado da aplicação do
fenômeno investigado. Ainda assim, acreditamos que explicitação de conceitos relacionados ao processo de ensino-aprendizagem de línguas e a explicitação de algumas regras (aqui, fonéticas) pode contribuir de forma positiva para o aprendizado, embora isso não seja determinante.
É interessante notar, segundo Alves (2009), a importância de se ressaltar que a prática da instrução explícita não é uma regressão a abordagens de ensino de segundas línguas com foco na forma linguística, como, por exemplo, o Método de Gramática Tradução. O autor mostra que se trata, na verdade, de uma retomada do tempo e espaço de aspectos possivelmente abordados implicitamente nas aulas. Ele se posiciona a favor de aulas que despertem no aprendiz a necessidade de observar atentamente sua pronúncia na realização de atividades. Ainda que, como citamos, isso não tenha ocorrido com os nossos informantes, concordamos com Alves (op.cit.), no sentido de que trabalhar a pronúncia é necessário, porque é uma forma de ajudar o estudante a usar os fonemas diferentes da sua LM, por isso mesmo difíceis de apreender na LE.