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Considerações sobre o referencial teórico e o objeto de pesquisa

CAPÍTULO 1 – A construção do cidadão como sujeito político

1.6 Considerações sobre o referencial teórico e o objeto de pesquisa

O referencial teórico até aqui apresentado permite elaborar um recorte do campo de observação da pesquisa e apresentar considerações em torno do objeto de pesquisa. Sobretudo são as considerações que permitem identificar como o objeto de pesquisa é abordado na presente tese. Os sujeitos da pesquisa são educadores populares que se constituíram como sujeitos políticos e compõem um movimento social. Deste modo eles são entendidos como sujeitos que

disputam no campo político educacional tendo a capacidade de elaborarem projetos políticos. Esta característica é apresentada pela teoria de TOURAINE sobre os movimentos sociais e que tem um papel importante na percepção de que os sujeitos estudados deslocaram-se da posição de demandantes de políticas para a de propositores destas políticas. Esta noção de projeto político também foi apresentada acima com as análises de DAGNINO que permitem identificar os sujeitos como grupo que disputa com seu projeto nos espaços públicos onde a política educacional é elaborada. Considerar que os sujeitos disputam pela definição de projetos educacionais significa considerar suas diversas participações nos espaços políticos, ou seja, a participação é vivenciada por estes personagens. E para o entendimento dos resultados desta participação PATEMAN auxilia na medida em que mostra que os sujeitos têm suas concepções alteradas a partir do processo participativo. Deste modo, e na busca de uma concepção dialética, este estudo de tese aborda os sujeitos como constituídos dentro de um determinado movimento social, portadores de concepções que foram apreendidas em ações dirigidas a partir de um determinado projeto político. Por isto mesmo é que o estudo da emancipação dos sujeitos políticos envolve o estudo do movimento social, do projeto político e da disputa travada nos espaços públicos.

Em termos de análise, esta tese toma os educadores populares do Morro da Glória em Porto Alegre como formadoras de um movimento social de periferia urbana. Se por um lado é possível afirmar que os educadores populares entram na cena política local em uma data determinada (junho de 1998), por outro lado o histórico de vida de algumas de suas componentes mostra uma longa trajetória dentro de um movimento popular desde a década de 1980. Os sujeitos estudados se constituíram atores políticos a partir do momento em que desenvolveram ações políticas, e se configuraram como integrantes de um movimento social de periferia urbana que hoje possui uma bandeira de luta por educação que lhes identifica perante a sociedade civil e o poder público local. De fato, as reivindicações destes sujeitos compõem uma agenda de temas de demandas da população local do Morro da Glória, onde questões como moradia, trabalho, saúde e educação são os principais e estão associados. Diversas vezes, como mostrado em capítulo adiante, as propostas para a melhoria da qualidade da educação infantil são diretamente atreladas às questões de formação e salário dos educadores, e estes às questões de oportunidades de trabalho daquele grupo social. Nestes termos, a identificação do grupo de educadores e de suas ações como um movimento social específico (sempre na concepção de herdeiras de um

movimento maior local) é resultado de uma definição arbitrária do pesquisador mais do que de uma separação clara entre os diversos atores sociais do bairro ou envolvidos com a educação nas periferias de Porto Alegre – a instrumentalização do conceito de movimento social é, então, resultado da opção teórica do pesquisador.

A esta altura alguns comentários podem ser tecidos sobre o objeto estudado nesta tese a partir da proposta teórica de TOURAINE. Na área de educação em Porto Alegre, a exemplo do que tem ocorrido em outras cidades do país, é saliente o número de mulheres envolvidas com o tema. Os papéis de cuidar da casa e da família constantemente entram em choque com as atividades de educadora. No Morro da Glória, onde mulheres compõem um movimento social, as peculiaridades em ser indivíduo e ator social são evidentes, tal como propõe TOURAINE (1994). Os papéis sociais de esposa e mãe são sobrepostos pelos papéis de ator social das educadoras que buscam alterar uma realidade social para além do espaço do lar. Mais ainda, como movimento social, os educadores populares passam a disputar representações sociais sobre o que é “educação” e o é “educador” na esfera pública local. Observadas de perto, o que aparece são os conflitos entre os papéis sociais de ser mulher (e mãe) com os objetivos de efetivação de projetos sociais que são, ao mesmo tempo, projetos para si e para o meio onde vivem. Nas entrevistas, diversas foram as referências que as educadoras fizeram às dificuldades que encontraram dentro da própria família durante o período em que iam se tornando atores sociais.

Compreender os educadores populares dentro da proposta de TOURAINE significa partir do estudo das personagens como indivíduos com histórias de vida singular e compreendê-las como atores em formação na medida em que ingressam nos espaços públicos. Neste ingresso são elaborados projetos, disputadas concepções e representações sociais. Os projetos impactam sobre as políticas públicas propriamente ditas, ao passo que as concepções são disputadas no campo da cultura. Em meio a isto se dá a constituição do sujeito.

Na análise das disputas locais, como no caso de Porto Alegre, é possível identificar a centralidade do Estado no que diz respeito às demandas, o que permite a utilização da proposta de TOURAINE como análise. O Estado, materializado na figura local da Prefeitura, representa o maior palco das disputas. Prefeito, vereadores, órgãos e funcionários públicos são envolvidos pelas diversas formas de articulação dos educadores populares. Espaços públicos como as plenárias do Orçamento Participativo, as reuniões dos Conselhos Municipais, as audiências da Câmara Municipal e até mesmo espaços de composição diversa como o Conselho de Direito da

Criança e do Adolescente e o Fórum de Entidades são arenas de disputa por políticas públicas ou por concepções de educação.

Assim as demandas por educação e as disputas pelos significados acerca desta educação concentram-se na Prefeitura, mas não se limitam a ela. Há, sem dúvida, a presença de um adversário contra o qual o movimento luta. Mas o que TOURIANE chamou de “adversário social organizado” não parece evidente num primeiro momento. Os educadores populares, como um movimento social, disputam representações sociais sobre a educação infantil, a educação da periferia e o ser educador em um espaço público no qual o “outro” grupo não se mostra. Suas disputas se dão contra um modelo reacionário de educação, contra um modelo elitista, tradicional e excludente de educação. É somente a partir do entendimento da situação de população marginalizada, excluída e dominada que o “adversário social organizado” pode ser identificado – ele é uma elite que historicamente dirige o poder público, utilizando-se do Estado nos seus diversos níveis para reafirmar sua posição de domínio. Assim o movimento social dos educadores populares dirige suas ações para os espaços de poder, disputando com os grupos da elite a efetivação de projetos pelo Estado. Daí vem a referência à luta contra um modelo hegemônico de dominação social, tal como apontado por TOURAINE.

A partir de MELUCCI a discussão sobre os educadores populares de Porto Alegre pode ser aprofundada e novas relações identificadas. Um aspecto relevante é diferenciar o movimento social de educadores populares em Porto Alegre daqueles espaços públicos como sua entidade, os fóruns de educação, órgãos como o Conselho Municipal de Educação e a Comissão de Educação da Câmara Municipal. As práticas sociais do movimento alcançam estes espaços, por vezes se manifesta dentro deles e neles são alteradas, repensadas. Mas é necessário diferenciar o que é o movimento social e o que são as implicações de suas ações. No que diz respeito ao estudo desta tese, a consideração é a de que o estudo do movimento de educadores populares em Porto Alegre extrapole os campos de ação deste ator coletivo. Suas propostas trazem implicações sobre outros espaços, em especial sobre as representações na esfera pública acerca do que cabe como educação das periferias, como condições de trabalho dos educadores populares e como justiça social a partir da democratização do serviço educacional. No processo de elaboração das suas propostas o movimento social se direciona para além de si mesmo, buscando e aprendendo linguagens de outros grupos. Aprender a falar outras linguagens significa elaborar seus discursos e projetos de modo que outros os compreendam. Este é um aspecto que, junto à luta travada,

auxilia no alcance do reconhecimento da legitimidade do movimento social. Mas também diversos são os momentos nos quais os movimentos falarão à frente, extrapolando os limites do reconhecimento por parte dos outros em função da luta por impor sua nova visão de mundo.

A ideia da sensação de falta apresentada por MELUCCI é especialmente relevante no caso do estudo da presente tese, uma vez que as reivindicações do movimento social da região da Grande Glória foram nos anos 1980 questões como pavimentação, transporte e moradia. Assim como nos anos 1980 as reivindicações possuíam significados aos moradores da região, do mesmo modo a reivindicação por educação no final dos anos 1990 esteve impregnada de outros significados que vão além da questão da alfabetização, pré-alfabetização ou atendimento à infância. A questão dos educadores populares do Morro da Glória é analisada a partir da proposta de MELUCCI, a reivindicação por uma educação infantil que se constituiu em uma sensação de “falta” que está para além do atendimento à infância – a falta de educação infantil é para os educadores populares também uma questão de cidadania, de reconhecimento do direito à educação não somente para as crianças e não de qualquer educação. Falta no final da década de 1990 em Porto Alegre o reconhecimento do trabalho (e da identidade) do educador popular e uma educação que resulte da participação política das periferias urbanas.

A sensação de falta para MELUCCI (2004) está ligada à identidade. Indivíduos de um grupo social identificam a si mesmos a partir da falta comum que sentem. No caso dos educadores populares em estudo, a falta comum é a de uma formação, de condições de trabalho, de remuneração e de um tipo de atendimento dado à infância que traduz uma situação social de marginalização. Reconhecem sua história a partir da interdição que é comum ao grupo. Mas são capazes de construir significados àquilo que lhes falta no momento em que passam a reivindicar, no momento em que passam a agir para alcançar suas necessidades. Durante a ação novos significados são construídos, especialmente nos momentos de conflito e negociação com outros atores sociais. Assim a mobilização inicial de um movimento para alcançar determinado serviço social torna-se também uma luta por definir as características e condições deste serviço, assim como a relevância dele para o grupo diante de outros grupos e do governo. A noção de falta e de direito em supri-la é construída dentro do campo da cultura que, também este, sofre mudança e está em construção pelo movimento social.

Cabe lembrar aqui que quando MELUCCI afirma que uma necessidade é socialmente construída ele diz que ela não é reflexo imediato de uma realidade, e sim a construção social a

partir desta realidade. A realidade é algo objetivo, material, palpável, mas as representações sociais em torno desta realidade e as explicações dos fatores que a construíram e que a reproduzem são disputados em um campo chamado cultura e compõem a ideologia. Por isto que as demandas do movimento social da região da Grande Glória nos anos 1980, aquelas por infra- estrutura, que trataram de uma dimensão propriamente material da vida já trouxeram consigo o discurso de um direito e uma condição para a cidadania. Assim, mesmo as demandas mais materiais receberam significações que estiveram em disputa naquele período entre uma sociedade em politização e um Estado ainda autoritário. Nos anos 1990 as demandas se encaminharam para o que são nos anos 2000: objetos carregados de significações e disputados desde sua definição. Isto explica a disputa pela definição de um modelo de educação, por um modelo de educador e pelo próprio conceito de educação e de educador que ocorre no caso da educação infantil em Porto Alegre.

No caso do movimento dos educadores populares de Porto Alegre a expansão da fronteira do campo de definição de sua identidade foi alterada significativamente desde o início do movimento – que é anterior à criação da Associação de Educadores Populares. A circulação que o movimento e mesmo algumas de suas personagens fizeram por novos espaços implicou a ampliação do campo de definição da identidade, implicou também a ampliação do campo de lutas, de conflitos para alcance de bens e de reconhecimento, e junto com a ampliação veio a alteração da força dos diversos atores sociais. Este último ponto é mais evidente quando o movimento passou a negociar com o Ministro da Educação Tarso Genro a elaboração de um curso superior destinado aos educadores populares. O envolvimento do Ministério da Educação reorganizou as forças enfrentadas pelo movimento de educadores, sobretudo minimizando a relevância do executivo municipal como será tratado em capítulo adiante.

Por fim, acerca da definição da identidade MELUCCI (2004) afirma que ela se dá pela ação. O encontro com o outro, o conflito e a negociação são sempre parte da busca por definir a identidade. Deste modo, a busca por um determinado atendimento à infância na periferia e por uma determinada formação do educador é também parte da busca por reconhecimento e pela construção de uma identidade. Nestes termos, a compreensão da identidade dos atores coletivos é ponto fundamental para entendê-los. O mesmo acontece com a ideologia. Como mostrou GOHN (1997), para MELUCCI a ideologia é um nível analítico decisivo para se entender os movimentos sociais. A ideologia sofre constantes alterações, é dinâmica e atua nos conflitos e tensões entre

grupos mesmo dentro de um mesmo movimento social. Como é ela quem estabelece os sentidos das ações aos indivíduos, opera na integração e guia a identidade do grupo, sua definição é objeto de constantes disputas dentro de um mesmo movimento social. O papel da ideologia em um movimento social é o de definir a identidade coletiva no que diz respeito às compreensões sobre a ação, sobre os objetivos do grupo, a identificação do objeto em disputa e do inimigo. Adotar estas últimas considerações de MELUCCI implica dedicar atenção especial à ideologia dos educadores populares de Porto Alegre, verificando como ela veio sendo elaborada durante a existência do movimento social.