3 O PAPAEL DA MOEDA NA ECONOMIA: A MOEDA SOCIAL COMO
3.2 Considerações sobre a oferta da moeda
O desenvolvimento de um instrumento monetário eficiente ocorreu em paralelo ao desenvolvimento da sociedade, tanto em relação ao sentido de um conjunto de pessoas (comunidade) que necessita da interação com outras via trocas de bens, como pela capacidade única de produzir os mais diversos bens e serviços através da divisão do trabalho e especialização produtiva. Este processo trouxe um inegável desenvolvimento econômico e o surgimento de um sistema monetário que, devido à sua complexidade, figura na pauta de debate dos filósofos e economistas muito antes do nascimento da economia como ciência. A
importância da moeda como parte indissolúvel da economia real suscitou discussões teóricas dos seus efeitos, tanto na produção como no sistema financeiro propriamente dito.
A endogeneidade ou exogeneidade da oferta monetária, as razões da demanda por moeda, a constância ou inconstância da velocidade de circulação da moeda, a neutralidade ou não-neutralidade da moeda sobre a parte real da economia, a relação entre a oferta monetária e o nível geral de preços, todos são pontos debatidos e ainda não resolvidos pela teoria econômica.
Ao longo do tempo o pensamento econômico avançou no estudo da moeda, pelo fato de estar intimamente ligada ao produto econômico e às relações resultantes desta interação, interferindo tanto no fluxo monetário quanto no de produção. A moeda adquiriu demasiada importância para o sistema econômico, devido as suas funções de meio de troca, de reserva de valor e de unidade de conta. Desta forma, a moeda e o crédito podem ser caracterizados como o fluído da economia. Tal importância se refletiu em divergências teóricas latentes entre os diferentes autores quanto a seus efeitos nos preços e na demanda da produção, além das decisões dos agentes a demandar moeda.
Aristóteles formulou a ideia de moeda como meio de troca e padrão de valor, antes mesmo do nascimento da ciência econômica. Segundo John F. Bell (apud LOPES E ROSSETTI, 2005) foi Aristóteles que deduziu.
Muitas coisas necessárias à vida não são facilmente transportáveis, razão que levou os homens a empregar em suas transações algo intrinsecamente útil e facilmente aplicável aos propósitos comuns da vida, como o ferro, a prata e coisas similares; esses bens são um veículo de troca e um repositório de valor, de vez que constituem um padrão universal de medição, sobre o qual há geral concordância. Suas ideias foram mais bem entendidas do que qualquer outro pensador durante mais de mil e quinhentos anos após sua existência (LOPES, ROSSETTI, 2005, p. 185).
Durante um longo período de tempo o pensamento econômico a respeito da moeda permaneceu estagnado, ficando muito mais focado em aspectos de moral e ética, sobre o acúmulo de riqueza e da cobrança de juros sobre empréstimos de moeda. Novas reflexões são registradas somente com o surgimento da Escola Mercantilista (1450-1750), configurada a partir de artigos e pensadores como Jean Bodin, Malestroit, Thomas Mun, entre outros. Tendo como premissa de que a riqueza de uma localidade (reinado) era atribuída aos estoques de ouro e prata e o excedente econômico gerava-se a partir do comércio, especialmente com o exterior. Com a expansão do comércio entre as diferentes nações durante a época do Renascimento, surge a necessidade de um expressivo aumento da base monetária (ouro e prata cunhados em moedas). Como a quantidade disponível desses metais era cada vez mais
insuficiente para o volume do comércio, iniciou-se uma busca incessante pelos mesmos. Formando assim, a tese central da política econômica dos Estados Nacionais, de que o de que o acúmulo de metais preciosos se constituía na forma representativa de riqueza.
Os economistas clássicos rejeitaram totalmente a tese central do pensamento mercantilista onde a riqueza de uma nação era fundamentada pela quantidade de metais preciosos e partiram em defesa da linha de pensamento a qual a quantidade da moeda é definidora do nível de preços da economia. A transição do mercantilismo para o liberalismo clássico ficou a cargo de filósofos como David Hume. No pensamento clássico a verdadeira riqueza de uma sociedade era sua força de trabalho e as mercadorias resultantes dessa interação, além de destacar que o preço é uma relação entre o nível de moeda e o nível de produto, podendo variar mediante alteração destas variáveis.
O principal expoente na estruturação do pensamento liberal, Adam Smith, foi enfático, em sua obra mais conhecida “Wealth of Nations”, ao afirmar que a riqueza de uma nação não era dada pelo nível de estoque de metais preciosos e que a moeda serviria apenas de véu para as transações do produto. A moeda era considerada simplesmente um meio de pagamento e o aumento dos estoques desses metais acabariam ocasionando a elevação interna dos preços, com o consequente aumento das importações e o fluxo desses metais para fora do Estado.
Estas afirmações de Smith, de que a moeda é simplesmente um meio de pagamento e que um sistema de papel-moeda bem gerido supre até com maior eficiência essa demanda revela a centralidade do seu pensamento, onde a moeda é neutra em relação ao produto, visto que o sistema sempre opera em equilíbrio, portanto somente interfere no nível geral de preços, mas não nos preços relativos que estão relacionados à alocação de recursos.
Sendo assim, a despeito das divergências históricas quanto a endogeneidade ou exogeneidade da oferta da moeda, os clássicos foram categóricos em afirmar que a moeda é neutra no longo prazo em relação às variáveis reais da economia, ou seja, a produção e o emprego não são afetados pelo aumento ou diminuição da base monetária. A moeda no modelo clássico serve apenas de véu para as transações, levando em conta que a economia opera sempre no pleno emprego e uma oferta bem regulada a partir de uma política monetária eficaz é suficiente para manter o nível de preços dentro do nível tolerado.
No contraponto teórico aos clássicos, o inglês John Maynard Keynes, considerado um divisor de águas no pensamento econômico por rejeitar a passividade do modelo clássico na solução dos problemas econômicos e ao introduzir novos aspectos com relação à moeda. Em sua teoria a moeda ganha um papel importante, por seu aspecto de não neutralidade no dimensionamento das variáveis reais da economia, não mais sendo considerada apenas como
um meio de troca para as transações, mas também se caracterizando como importante reserva de valor.
Desta forma, enquanto para os clássicos a moeda afeta a demanda agregada de bens e serviços que, ao operar em pleno emprego, não altera o nível de emprego e a parte real da economia, mas sim os preços, para Keynes, a moeda afeta a taxa de juros, que interfere nos níveis de investimento, provocando variações na demanda agregada e, portanto, na parte real da economia, considerando os preços constantes no curto prazo.
Este debate teórico está longe de acabado, ficando aos sucedâneos dos clássicos e de Keynes o desafio da definição com relação a neutralidade ou não da moeda na atividade econômica. Como no curto prazo já existe um mínimo consenso de que a moeda pode afetar a parte real da economia, se assume estes preceitos nesta dissertação, pois como diria Keynes, “o longo prazo é formado de curtos prazos”.
Para Kohler (2003), as economias locais têm especificidades próprias quando comparadas ao nível macro dos Estados Nacionais por que suas economias são extremamente abertas às transações para fora do território, pelo livre fluxo de bens, serviços, capitais, rendas e fatores de produção. Esta é uma característica que não está presente nem mesmo no bloco econômico mais integrado do mundo, a União Europeia (UE), por exemplo. Além do mais os agregados macroeconômicos tão importantes para o estudo e determinação de medidas intervencionistas não estão disponíveis, há escassez de indicadores para diagnosticar, prognosticar e intervir na economia local.
Especificamente em relação aos municípios, o habitat das unidades familiares, encontra-se um modelo ideal de economia aberta visto que o fluxo dos fatores de produção e de bens e serviços é totalmente livre, sem barreiras alfandegárias, tributação diferenciada ou outro condicionante (KOHLER, 2003, p. 96).
Assim, baseados nos estudos de Kohler (2003), podemos identificar que o desenvolvimento de pequenas economias está atrelado de forma significativa à sua base monetária, sendo determinada ex-ante por sua dinâmica econômica. Portanto, no momento que os estoques patrimoniais (recursos e pessoas) desta pequena economia são alocados de forma eficiente na produção de bens e serviços, tanto para exportação como para o mercado local, maior será sua capacidade de beneficiar-se dos fatores exógenos que conjuntamente com os endógenos determinam a base monetária. Este raciocínio fica claro na medida em que percebemos que a dificuldade de uma economia se desenvolver, interromper um processo de dependência reside numa série de fatores intercalados como elos de uma corrente, causa e efeito, que são perfeitamente racionalizáveis, mas de difícil resolução dada às restrições de recursos e a ineficiência das políticas econômicas no âmbito local.
Além dos fatores exógenos e endógenos que determinam a base monetária temos, por fim a questão da velocidade de circulação da moeda, que para os economistas clássicos é constante, mas para Keynes, a partir da introdução da demanda especulativa, esta se torna variável no curto prazo. A partir do estudo de Kohler (2003, 2011) o estoque de moeda é limitante do crescimento, assim como a velocidade de sua circulação, que, em conjunto, conformam o véu da atividade econômica local.