Anexo VI – Declaração de Estocolmo sobre o ambiente humano 1972
1.2 Considerações sobre Política e Direito
Criações históricas compõem o acervo de nossa experiência cultural, tendo como realce o valor da pessoa humana. São valores como a liberdade, igualdade, justiça, bem comum, privacidade, que assinalam progressivas conquistas de ética. Para o Professor Miguel Reale, o último desses valores, dotado de força imperativa e constante, é o ecológico, relativo ao valor da natureza em geral e do “meio ambiente” em particular. Desse valor decorre tal força que, por toda a parte do mundo, surgem “partidos verdes” disputando o poder político. Não é difícil compreender tal fato quando o progresso tecnológico ameaça destruir a natureza.
Nesse ponto houve uma inversão de 180 graus, pois, há menos de meio século, a natureza era considerada expressão máxima de estabilidade e segurança, a tal ponto que para muitos o Direito Natural seria a base inamovível da legislação. Agora ao se perceber que “a natureza morre”, apela-se para a lei para salvá-la... (REALE, 2001) (grifo nosso).
É provável que, em razão de seu poder coercitivo, a lei possa representar, efetivamente, um dos instrumentos mais eficazes em favor da preservação ambiental. Tarefa árdua que envolve tantos atores quanto o conhecimento e a sensibilidade para compreensão de inúmeras situações – que no caso da questão ambiental estão longe de serem exatas –, já que o surgimento de uma norma não se dá ao acaso, mas tem origem em fatos sociais e nas necessidades que visam satisfazer. São os valores e as estruturas sociais que influenciam o aparecimento de uma norma, de modo que esta deve estar inserida
em um contexto mais amplo, dentro de uma conjuntura social, dentro de um Estado, sob um governo, estes umbilicalmente ligados à Política e ao Direito.
O termo direito deriva do latim directum, que significa reto, correspondendo de forma aproximada à ideia de seu real conceito, já que conduz a um sentido de retidão de comportamento. A noção de Direito também está ligada à noção de Justiça, sendo ambos conceitos correlatos. Mas o sentido atual de Direito é muito mais amplo, como se verá adiante. Para Vico, o termo Direito teria origem em Júpiter, deus romano identificado com o deus grego Zeus que, segundo a mitologia, exigia obediência às suas leis e punia os que as violavam, “chamado pelos latinos de Ious, dele deriva a antiga designação ious para o direito, que, contraindo-se a seguir, deu ius – justiça” (VICO, 1974, p. 15).
O desenvolvimento do Direito é assim traduzido por Reale (1956):
Enquanto o homem se concentra em si mesmo e vive como homem isolado, não há que falar em Direito. O Direito surge tão- somente quando um homem se coloca diante de outro homem e há recíproca afirmação do “eu”. Se ambos dizem “eu sou”, surge o problema da existência do “outro”, que só se resolve pela afirmação: “nós somos”. Esta já é uma afirmação do Direito mesmo, porque pelo Direito se torna possível a coexistência pacífica e ordenada de indivíduos e de grupos, distintos segundo sua livre razão comum de ser. Igualdade de homens livres em uma convivência feita de recíproco respeito e de concórdia (REALE, 1956, p. 279).
Quanto ao surgimento do Direito, Menezes (1964) assim preleciona:
Como complemento e integração dos sistemas éticos elaborados em sociedade cindida em agrupamentos de interesses que se contradizem – surde o direito como sistema de normatividade imperativa, suprindo as insuficiências da normatividade moral (MENEZES, 1964, p. 54).
O Direito atua, portanto, para promover a justiça, o respeito, a concórdia, de forma a ordenar as relações interpessoais, gerando compromissos e normas, funcionando como meio de regulação de conflitos de interesses e de
vontades, para permitir a convivência entre as pessoas (MELO, 2005). No ensinamento de Reale (1999, p. 1), Direito, aos olhos do homem comum, é ordem e lei, ou seja, “um conjunto de regras obrigatórias que garante a convivência social” mediante o estabelecimento de limites à ação de cada um de seus membros. E continua o renomado autor:
Podemos, pois, dizer, sem maiores indagações, que o Direito corresponde à exigência essencial e indeclinável de uma convivência ordenada, pois nenhuma sociedade poderia subsistir sem um mínimo de ordem, de direção e solidariedade. É a razão pela qual um grande jurista contemporâneo, Santi Romano, cansado de ver o Direito concebido apenas como regra ou comando, concebeu-o antes como “realização de convivência social ordenada (REALE, 1999, p. 2).
Para Paupério (1969), o Direito
[...] é uma espécie de moral social, que regula o comportamento interno da sociedade, de modo a disciplinar a vida das pessoas e dos grupos, em suas relações recíprocas (PAUPÉRIO, 1969, p. 59).
Mas o Direito não se limita a um mero produto de força imperante no meio social, mesmo que seja esta a vontade da maioria, mas deve visar a implantação da ordem social justa, que possa garantir a cada um aquilo que lhe é devido.
Herrmann (1995) sublinha que
O direito é, juntamente com a religião, a moral e as regras de etiqueta, um instrumento de controle social. Ele regula a vida, isto é, as relações sociais através do Estado, que é o órgão competente pela elaboração das leis. Como o Estado é a expressão dos grupos dominantes, o direito regula as relações sociais de acordo com os interesses, valores, idéias e perspectivas desses grupos. É fator de “adaptação social” o que em outras palavras significa dizer que Ele é instrumento de dominação social. Funciona, também, como foi dito, como instrumento de políticas públicas, estas entendidas como sendo a escolha consciente dos caminhos necessários; quer à realização das metas do governo, tanto por moto próprio, tendo em vista os interesses dos seus executores, como por pressão das
forças vivas da nação; quer, por outro lado, ao atendimento das demandas sociais reprimidas (HERRMANN, 1995, p. 30).
Pereira (1971) ensina que em todo o tempo, em qualquer época em que se encontre um agrupamento social onde os homens coexistam, seja na célula familiar tribal, na entidade estatal, ainda que em estágio rudimentar, o fenômeno jurídico é sempre encontrado. E continua:
Há e sempre houve um mínimo de condições existenciais da vida em sociedade, que se impõe ao homem através de forças que contenham sua tendência à expansão individual e egoísta. Estas forças ora se objetivam no aparelho intimidador do Estado, ora se impõem pela contenção mística da religião, ora se concentram na absorção autoritária de um chefe eventual. A forma, pois de sua atuação varia. Na escala de valores, sua afirmação ideal é insuscetível de padronização. Mas na apuração de sua incidência é uma constante. Há e sempre houve uma norma, uma regra de conduta, pautando a atuação do indivíduo, nas suas relações com os outros indivíduos (PEREIRA, 1971, p. 15).
Deste modo, pode-se verificar que ao longo dos tempos são as regras de direito que têm buscado assegurar a harmonia e a justiça nas relações sociais.
O termo Política, por sua vez, deriva do grego polis, que significa cidade. O termo, assim, é comumente usado para indicar atividades da polis, ou seja, do Estado.
Quando os agregados humanos alcançaram certo nível de cultura, passaram a estabelecer hierarquias e a adotar normas de conduta capazes de regular as relações do grupo.
Na história de todas as sociedades “chegou um momento em que os homens sentiram o desejo, vago e indeterminado, de um bem que ultrapassa o seu bem estar particular e imediato e que ao mesmo tempo fosse capaz de garanti-lo e promovê-lo. Esse bem é o bem comum ou bem público, e consiste num regime de ordem, de coordenação de esforços e intercooperação organizada. Por isso o homem se deu conta de que o meio de realizar tal regime era a reunião de todos em um grupo específico, tendo por finalidade o bem público. Assim, a causa primária da sociedade política reside na natureza humana, racional e perfectível. No
entanto, a tendência deve tornar-se um ato; é a natureza que impele o homem a instituir a sociedade política, mas foi a vontade do homem que instituiu as diversas sociedades políticas de outrora e de hoje. O instinto natural não era suficiente, foi preciso a arte humana” (DABIN apud AZAMBUJA, 1969, p. 3).
Ao passar da vida nômade para a sedentária, o homem fortaleceu sua convivência social. Nesses grupos foram se moldando as formas de vida familiar, econômica, religiosa, política e jurídica. A justiça regulada pelo costume veio a se transformar em Direito quando do aparecimento do Estado, o qual, no início, apenas intervém como mediador e pacificador, passando numa fase seguinte a exercer sua autoridade, que consistia em constranger as pessoas a se apresentar em juízo e, posteriormente, o Estado passa a impor sua decisão coativamente, exercendo a justiça por intermédio de órgãos especiais.
Diversas teorias buscam explicar a origem do Estado, apresentando-o como produto da família, da proteção da propriedade e da guerra.
Herrmann (1995) ensina que:
[...] Foi, todavia, com Aristóteles e São Tomás de Aquino que a política adquire um conteúdo ético-moral, subordinando-se, de conseqüência, a valores etéreos e difusos, que se materializam com a realização do bem comum e que consistem em encaminhar o homem segundo os preceitos da virtude, da honra e da bondade. Com Maquiavel, precursor da tradição democrática moderna, a Política adquire novo significado e subsidia as teorias subseqüentes. Na obra – “O Príncipe” – aparece pela primeira vez a distinção entre Estado e governo, este entendido como agente da atividade política (HERRMANN, 1995, p. 23).
Para Maritain (apud PAUPERIO,1969, p. 33), o Estado é “um organismo especial, dotado de faculdades supremas como garantia da justiça e do direito”; para Villeneuve (apud PAUPERIO, op. cit., p. 33), é
[...] a instituição temporal dotada de poder soberano, que assegura, sob o ponto de vista político-jurídico, e conforme o Bem Público, a direção e a representação de uma comunidade humana suficientemente extensa e diferenciada.
Duguit (2009, p. 54), sublinha que a palavra Estado, em seu sentido mais amplo “designa toda sociedade humana em que percebemos diferenciação política entre governantes e governados, ou, segundo expressão consagrada: uma autoridade política” e, manifestando-se sobre o fim e funções do Estado, assim preleciona o autor:
Considerando o poder político fato legítimo, infere-se que as ordens desse poder também são legítimas quando se conformam com o direito; a par com isso, o emprego do constrangimento material pelo poder político é autêntico quando visa assegurar a sanção do direito. [...] Portanto, a discussão acerca do fim a que se destina o Estado, ou poder político, pode ser esclarecida considerando-se que o poder político tem por fim realizar o direito, comprometendo-se, em virtude do direito, a realizar tudo o que estiver ao seu alcance para assegurar o reino do direito. O Estado fundamenta-se na força, e esta força legitima-se quando exercida em conformidade com o direito (DUGUIT, op.cit., p. 85).
Azambuja (1969, p. 86) coloca que o Estado é a forma jurídica que a nação organizada apresenta, esclarecendo que quando a nação se organiza juridicamente, surge o Estado como entidade de Direito. Para Groppali (1968, p. 5), o Estado é o portador da ordem jurídica, o ente que unifica e personifica a sociedade.
Tem-se, portanto, que a Política visa à realização dos fins da comunidade através da ação do Estado (REALE, 1999, p. 333), e que este, o Estado, surgiu da vontade do homem para organizar e garantir sua sobrevivência dentro de um grupo social e num determinado território, como meio de garantir a convivência harmônica e o seu bem estar.
Suponhamos os homens chegando àquele ponto em que os obstáculos prejudiciais à sua conservação no estado de natureza sobrepujam, pela sua resistência, as forças de que cada indivíduo dispõe para manter-se nesse estado. Então, esse estado primitivo já não pode subsistir, e o gênero humano, se não mudasse modo de vida, pereceria.
Ora, como os homens não podem engedrar novas forças, mas somente unir e orientar as já existentes, não têm eles outro meio de conservar-se senão formando, por agregação, um conjunto de forças, que possa sobrepujar a resistência, impelindo-as para um só móvel, levando-as a operar em concerto.
[...] Essa pessoa pública, que se forma, desse modo, pela união de todas as outras, tomava antigamente o nome de cidade e, hoje, o de república ou de corpo político, o qual é chamado por seus membros de Estado quando passivo, soberano quando ativo, e potência quando comparado a seus semelhantes (ROUSSEAU, 1973, p. 37/40). (grifo nosso).
Para alcançar os objetivos que permitam harmonia nessa dupla relação entre Estado e indivíduo, as ciências jurídicas têm evoluído no ordenamento da sociedade, mediante a edição de legislações que definem direitos e estabelecem deveres, como resultado da ação consciente, que busca atender aos reclamos da sociedade.