5. DIREITO ANTIDISCRIMINATÓRIO E PRINCÍPIOS CONSTITUCIONAIS
5.2 Constitucionalidade da Lei Maria da Penha
Maria da Penha é o nome atribuído à Lei 11.340/06 e refere-se a Maria da Penha Maia Fernandes, símbolo da luta e resistência de mulheres contra violência doméstica. Em 29/05/1983, Maria da Penha foi atingida por um tiro de espingarda, desferido pelo seu então marido, atingindo sua coluna e causando lesões que a deixaram paraplégica. O réu foi julgado diversas vezes e preso mais de dezenove anos depois a prática do crime, em 2002, cumrpindo dois anos de prisão e liberado.
Tomando conhecimento do fato, a Comissão Interamericana de Direitos Humanos, órgão da OEA (Organização dos Estados Americanos) solicitou informações ao Brasil entre 1998 e 2000, porém o país se omitiu em responder as indagações da comissão. Frente ao silêncio, a organização elaborou um relatório, em 2001, dispondo o prazo de um mês para que o país cumprisse as recomendações presentes.
Novamente o país silenciou-se, sendo condenada internacionalmente, impondo o pagamento de uma indenização em favor de Maria e responsabilizou o Estado por negligência e omissão frente a violência doméstica, recomendando, ainda, a adoção de diversas medidas. Cabe salientar que à época da elaboração do relatório (abril de 2001) o agressor ainda não tinha sua situação judicial definida, tendo em vista que somente foi preso em 2002 (CUNHA; PINTO, 2012, p. 28).
Com fulcro no art. 226, §8º da Constituição Federal, ratificados pela Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Violência contra Mulher (1979) e na Convenção Interamericana para Prevenir, Punir e Erradicar a Violência contra a Mulher - Convenção do Belém do Pará (1994) - surge a Lei 11.340 que tem importante objetivo de suprir as lacunas deixadas por legislação esparsas, ineficientes no papel de coibir a violência praticada no âmbito doméstico.
Como todas as demais normas antidiscriminatórias, a Lei Maria da Penha também sofreu diversas manifestações contrárias, alegando que ser uma lei inconstitucional por ferir o princípio da isonomia entre homens e mulheres, não obstante, população e parte da doutrina comemoraram o importante avanço em defesa das mulheres.
Os debates e críticas, além das dúvidas doutrinárias suscitadas acerca da lei levaram a Presidência da República propor ação de constitucionalidade em favor dos artigos 1º, 33 e 41 da aludida diretriz:
Art. 1 o Esta Lei cria mecanismos para coibir e prevenir a violência
doméstica e familiar contra a mulher, nos termos do § 8 o do art. 226
da Constituição Federal, da Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Violência contra a Mulher, da Convenção Interamericana para Prevenir, Punir e Erradicar a Violência contra a Mulher e de outros tratados internacionais ratificados pela República Federativa do Brasil; dispõe sobre a criação dos Juizados de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher; e estabelece medidas de assistência e proteção às mulheres em situação de violência doméstica e familiar.
Art. 33. Enquanto não estruturados os Juizados de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher, as varas criminais acumularão as competências cível e criminal para conhecer e julgar as causas decorrentes da prática de violência doméstica e familiar contra a mulher, observadas as previsões do Título IV desta Lei, subsidiada pela legislação processual pertinente.
Art. 41. Aos crimes praticados com violência doméstica e familiar contra a mulher, independentemente da pena prevista, não se aplica a Lei n o 9.099, de 26 de setembro de 1995.
No pedido, o autor alegou que a proteção do Estado à família, por força de princípio (art. 226, §8) da Constituição fundido com observância aos desequilíbrios existentes em razão de peculiaridades físicas e morais da cultura brasileira, tem obrigação em corrigir tais disparidades.
Por unanimidade, o Supremo julgou constitucional a lei e afirmou que não se considera ilegítimo ou desproporcional o uso do gênero como critério de diferenciação, assegurando o acesso efetivo à reparação, proteção e justiça. A Corte também decidiu que a lei reduz a discriminação social e cultural, portanto, a discriminação negativa.
Os votos da Corte Suprema aduziram que legislações compensatórias são constitucionais e não ferem o conjunto normativo nacional, pois promove a igualdade material. Aspecto este que, pautado com base na busca pela atenuação das diferenciações ocasionadas por discriminações, também foi utilizado como argumento estruturante na ação que declarou a constitucionalidade da cotas raciais (ADPF 186).
Outro ponto importante levantado pelos Ministros é a utilização do gênero como critério basilar para aplicação do Direito Antidiscriminatório, considerando que a violência perpetrada pelas diferenças entre gênero. É possível concluir, portanto, mediante uma interpretação hermenêutica, que a Lei Maria da Penha poderá ser aplicada em situações de violência contra mulheres trans, haja vista que a presença das disparidades entre gênero e as violências causadas por tal também são presentes e devem ser evitadas e protegidas pelo Estado nestes casos.
Vale acrescentar um trecho da importante análise desenvolvida pela Defensora Pública e Mestra Constitucionalista Ana Cristina Teixeira Barreto:
Baseadas em leis discriminatórias e exclusivistas que serviram de instrumento de consolidação da desigualdade e assimetria na relação entre homens e mulheres, as sociedades estabeleceram um patamar de inferioridade e submissão em relação ao homem, não somente na seara doméstica, no direito familiar, mas no cenário público, como, por exemplo, no mercado de trabalho, através do pagamento de remuneração inferior à percebida pelos homens pelo exercício de funções semelhantes ou da dupla jornada de trabalho. A discriminação também foi sentida nos espaços públicos e privados de poder que refletiam a tímida participação política das mulheres, quase sempre limitada ou proibida.
Os próprios movimentos de direitos humanos ignoravam de início, as bandeiras de luta do feminismo a favor da participação política, igualdade no mercado de trabalho, educação, aborto e sexualidade das mulheres, dentre tantas outras reivindicações (2010, p 52).
Temos, portanto, que instrumentos antidiscriminatórios, além de constitucionais, podem ser observados por perspectivas particularistas, neste caso o gênero, com intuito de perseguir desigualdades, violências, opressões e discriminações.