3 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
3.2 EDUCAÇÃO INFANTIL: ASPECTOS NORMATIVOS
3.2.1 Constituição da República Federativa do Brasil –
Promulgada em 5 de Outubro de 1988, a nova constituinte foi também chamada de Constituição cidadã, pois acolheu em seu texto reivindicações sociais sobretudo no que diz
respeito a educação. No trecho a seguir CURY, discorre sobre:
Não se pode dizer que a Constituição Federal, no que se refere ao capítulo sobre a educação, não haja incorporado em seu texto os clamores dos educadores que, exigindo a democratização da sociedade e da escola pública brasileiras, buscaram traduzi-los em preceitos legais (CURY, 1997, p. 199). A construção dos dispositivos que contemplam a criança na Constituição, foi antecedida pelo estudo das legislações internacionais e pelos trabalhos da Frente Parlamentar Constituinte. Em 1987 a Comissão Nacional da Criança e Constituinte realizou trabalhos no sentido de subsidiar a escrita da Constituição, instituída por portaria interministerial e por representantes da sociedade civil organizada. (ANDRADE, 2010)
A Constituição Federal (CF), definiu o atendimento institucionalizado às crianças como direito social, conforme dispõe artigo 208, inciso lV: “O dever do Estado com a educação será efetivado mediante a garantia de [...] atendimento em creche e pré-escola às crianças de zero a seis anos de idade” (BRASIL, 1988). O artigo 227 dispõe sobre os direitos da infância brasileira de forma abrangente:
É dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança e ao adolescente, com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e a sobrevivência familiar comunitária. (BRASIL, 1988)
Foi a primeira vez, que no Brasil, uma CF referiu se as garantias de efetivação do dever do estado para com a Educação Infantil. É válido ressaltar que essa conquista, se deu pelo empenho e mobilização dos profissionais que trabalhavam com as crianças, a reivindicação popular e de entidades representativas. (MOREIRA e LARA, 2012)
Outros dois artigos merecem atenção, eles dizem respeito sobre as garantias de direitos sociais dos trabalhadores e que incluem o cuidado com as crianças: Artigo 7, inciso XXV“[...] assistência gratuita a filhos e dependentes desde o nascimento até seis anos de idade em creches e pré-escolas”; Artigo 208, inciso IV “[...] atendimento em creche e pré- escola às crianças de zero a seis anos de idade”. (BRASIL, 1988)
Quanto aos princípios do ensino, estabelecidos na CF, dois incisos são importantes de serem observados na implementação do Ensino Infantil, são eles: Artigo 206 “I – igualdade de condições para o acesso e permanência na escola.”; “VII – garantia de padrão de qualidade.”(BRASIL, 1988)
Historicamente o acesso ao Ensino Infantil, não obedecia a observância desses princípios, nem todos tinham possibilidade de frequentar instituições que atendessem esse nível de ensino, por indisponibilidade de vagas e ou dificuldade de acesso. Quando conseguiam, a qualidade do ensino ofertado era em muitas situações precarizada, pelo sucateamento dos espaços e fragilidade na formação dos profissionais que atendiam as
crianças. (MOREIRA; LARA, 2012)
A CF, também se pronunciou sobre a fiscalização e atendimento aos critérios e normas de oferta do Ensino infantil, aspectos que até então não haviam sido considerados normativamente. O artigo 209 propõe: “O ensino é livre à iniciativa privada, atendidas as seguintes condições: I – cumprimento das normas gerais da educação nacional; II – autorização e avaliação de qualidade pelo Poder Público. Posteriormente”(BRASIL, 1988)
Quanto aos gastos com o custeamento da educação, o que fica estabelecido é que a União deve gastar 18%, enquanto os Estados Federados, Distrito Federal e municípios 25% de sua receita, resultante de impostos e transferências. E ainda sobre as responsabilidades quanto a oferta e os subsídios o artigo 211 apresenta: "A União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios organizarão em regime de colaboração seus sistemas de ensino. §1°- A União organizará o sistema federal." (BRASIL, 1988)
Fica evidente que, embora o texto constitucional trouxe conquistas, ele também se mostrou frágil, quando algumas afirmações se mostraram vagas. É o caso da questão da qualidade, dos investimentos, das responsabilidades. É verdade que muitas dessas especificações carecem de leis próprias para serem mais precisas, e a CF já previa essa necessidade quanto sinaliza, sobre uma lei própria para educação e posterior o estabelecimento de diretrizes e referenciais.
O próximo documento a ser considerado é o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), primeiro documento que vem de encontro a realidade das crianças desvalidas que até então não possuíam garantias e respaldo legal.
3.2.2 Estatuto da Criança e do Adolescente
O ECA foi elaborado e sancionado como a lei 8069/90, logo após a promulgação da Constituição de 1988. Sua publicação traz uma concepção de proteção integral direcionada às crianças e aos adolescentes, que se contrapõe ao caráter assistencialista, corretivo e repressivo das ações socioeducativas adotadas até então. Ele reconhece e reitera os dispositivos constitucionais, que caracterizam crianças e adolescentes como sujeitos de direitos e a necessidade de serem considerados prioridades na agenda das políticas públicas. (ANDRADE, 2010)
Os artigos 3o e 4o enfatizam a concepção de proteção integral e estabelecem as responsabilidades das famílias, da sociedade e do Estado na garantia dos direitos para a infância e a adolescência:
Art. 3o – A criança e o adolescente gozam de todos os direitos fundamentais inerentes à pessoa humana, sem prejuízo da proteção integral de que trata esta Lei, assegurando-se-lhes, por lei ou por outros meios todas as oportunidades e facilidades, a fim de lhes facultar o desenvolvimento físico, mental, moral, espiritual e social, em condições de liberdade e de dignidade.
Art. 4o – É dever da família, da comunidade, da sociedade em geral e do Poder Público assegurar, com absoluta prioridade, a efetivação dos direitos referentes à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao esporte, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária. (ECA, 1990)
O ECA enfatiza e garante amplamente a Educação Infantil para todas as crianças, pois em vários de seus artigo consta a ideia de garantia de prioridade ao atendimento a esses direitos. O artigo 54° enfatiza a obrigatoriedade do Estado no atendimento às crianças de 0 a 6 anos em creches e pré-escolas, e o artigo 11° estabelece a incumbência do município em oferecer a Educação Infantil, porém ressaltando a prioridade dele no ensino fundamental. O Estatuto estabelece, ainda, a criação de instrumentos na defesa do atendimento aos direitos das crianças e dos adolescentes, que são os Conselhos dos Direitos da Criança e do Adolescente. (ANDRADE, 2010)