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CONSTITUIÇÃO DO CORPUS

No documento 2015IvertonGesseRibeiroGoncalves (páginas 79-82)

Descrever as construções da cenografia e do ethos discursivo das mulheres em uma comunidade, como a da italianidade em Nova Prata, que se legitima ao longo da grande temporalidade, é uma tarefa hercúlea, posto que as práticas discursivas das mulheres nessa comunidade se registram das mais variadas formas. No entanto, se estamos certos de que todo discurso é regido por um sistema de restrições, então qualquer enunciado de boa formação semântica produzido no âmbito da imigração italiana em Nova Prata pode ser tomado como objeto de análise. Para evitar um exaustivo trabalho de quantificação, alguns critérios de ordem metodológica guiaram a seleção de corpus para esse estudo.

Primeiramente, buscamos textos que registram a mulher como enunciador. Procuramos dar preferência a textos já publicados e que circulam na comunidade como textos aprovados pela cultura da colonização italiana. Para este estudo, entendemos por textos aprovados os textos que circulam livremente na comunidade discursiva com aceitação tácita por parte de seus indivíduos. Um segundo, mas não menos importante critério, foi a seleção de textos que favorecessem a construção de cenografias a serviço das manifestações culturais e da construção da identidade em Nova Prata. Buscou-se também considerar os textos que se perpetuassem como voz de autoridade, isto é, textos históricos sobre a colonização e textos de instituições governamentais52. A voz de autoridade consiste no enunciador que tem reconhecimento e é autorizado, pela posição que ocupa, a enunciar-se como representante da comunidade discursiva. Dessa forma, chegamos a um vídeo documentário, material que atendeu aos critérios normatizados. Esse corpus se constitui em um grande enunciado e o descrevemos na sequência.

52 Como exemplo, temos o vídeo documentário produzido pela Secretaria Municipal de Educação e Cultura de

O vídeo documentário é uma produção da Secretaria Municipal de Educação e Cultura (SMEC) de Nova Prata. Esse material, intitulado “Mulheres e memórias”, foi produzido a fim de homenagear a figura da mulher que, com seu trabalho, contribui para o cultivo de uma comunidade sólida e para a perpetuação de uma memória de coragem, determinação e muito suor. O fato de ser uma produção realizada por um órgão público, responsável pela promoção e manutenção da educação, esse vídeo se caracteriza como uma cartilha para as gerações mais jovens, pois pode ser descrita como uma estrutura estruturante (BOURDIEU, 1989) em que são expostos mitos, crenças e universos simbólicos distintos a serviço da construção de materiais simbólicos. Algumas mulheres descrevem, em entrevistas, seu percurso de vida na região de Nova Prata, destacando sua profissão como o bem mais valioso doado ao município. As profissões (agricultora, professora, cozinheira, costureira entre outras) das entrevistadas, que constam no vídeo, estão associadas aos aspectos históricos, socioeconômicos, religiosos e culturais que embasam a comunidade de Nova Prata. Serão transcritas as principais passagens do vídeo para a realização da análise e a análise não será realizada com todas as entrevistas, visto que nos importa apenas os enunciadores que falam a partir do discurso da italianidade.

O vídeo é composto por entrevistas de oito mulheres, no entanto, selecionamos para este trabalho seis entrevistas, considerando que só terão espaço nas análises as práticas discursivas que favorecem a construção da cenografia como legitimação da cultura e a constituição do ethos discursivo que demarque uma imagem de si, promotora de uma identidade cultural a serviço da imigração italiana. Por não atender aos critérios estabelecidos, algumas entrevistas não foram incluídas neste estudo, ou ainda porque nelas se verifica a repetição de resultados percebidos nas demais entrevistas.

A análise exige que destaquemos alguns conceitos norteadores do processo científico de investigação, e que foram emprestados do aporte teórico-metodológico de Maingueneau (2008a, 2008b, 2008c, 2008d, 2013, 2015). São eles: semântica global e os planos constitutivos (intertextualidade, vocabulário, tema, estatuto do enunciador e do destinatário, dêixis enunciativa, modo de enunciação, modo de coesão), cenografia e ethos discursivo. Partindo dessa instrumentalização metodológica, pretendemos analisar, descrever e compreender as manifestações culturais materializadas no discurso e a identidade construída pelo discurso das mulheres da imigração italiana em Nova Prata.

O corpus selecionado para essa pesquisa sugere a elaboração de algumas hipóteses: a) o estudo da cenografia e do ethos permite vislumbrar as interferências da cultura da colonização italiana em Nova Prata, no sistema de restrições semânticas, bem como identificar a materialização das manifestações culturais no discurso dessa comunidade;

b) o quadro teórico-metodológico, com base em Maingueneau (2008a, 2008b, 2008c), que fundamenta esta pesquisa, possibilita estudar as marcas identitárias e as manifestações culturais por via do discurso;

c) as práticas discursivas das mulheres da imigração italiana em Nova Prata apresentam cenografias específicas dessa comunidade discursiva e instauram um ethos que é legitimado pela temporalidade da colonização nessa região.

Quanto aos objetivos, a pesquisa é classificada como exploratória (PRODANOV; FREITAS, 2009), pois nos encaminha para a familiaridade com as práticas discursivas constituídas em prol das manifestações culturais e a composição do ethos discursivo como constructo de identidade desse espaço discursivo.

Os procedimentos técnicos pensados para a pesquisa são de ordem bibliográfica e documental. Nesse particular, intentamos revisar os estudos já realizados sobre cultura, identidade e manifestações culturais, bem como os estudos que abordam os fatos linguísticos sob a perspectiva enunciativo-discursiva. Consideramos a grande relevância desse estudo para documentarmos o modo de enunciação, consequentemente, a cenografia e o ethos discursivo, das mulheres em uma comunidade que, de acordo com o banco de teses da Capes, ainda não teve investigações científicas, de caráter linguístico, realizadas sobre ela.

Nossa pesquisa, quanto à abordagem, se classifica como qualitativa, uma vez que a fonte direta para a investigação, interpretação das ocorrências discursivas e atribuição de significados é o próprio discurso das mulheres da imigração italiana em Nova Prata. Conforme já apontamos anteriormente, a concepção de discurso adotada nessa pesquisa (MAINGUENEAU, 2008a) é regida por uma semântica global, portanto, não necessitamos realizar uma análise quantificadora. Qualquer prática discursiva que seja gerada a partir desse sistema semântico estará regrada pelas mesmas restrições, e o que temos a fazer é interpretá- las e extrair delas os significados visíveis. (CHIZZOTTI, 2010). De acordo com Chizzotti (2010, p. 28), “o termo qualitativo implica uma partilha densa com pessoas, fatos e locais que constituem objetos de pesquisa, para extrair desse convívio os significados visíveis e latentes”, isso porque numa abordagem qualitativa a interpretação dos eventos depende do sentido que as pessoas atribuem às suas práticas. Relacionando essa descrição de Chizzotti (2010) à descrição da cena de enunciação feita por Maingueneau (2013), entendemos que a cena englobante é determinada a partir do modo de inscrição social do discurso e, consequentemente deixa transparecer uma identidade social na prática discursiva.

Por fim, apresentamos, na seção seguinte, os procedimentos metodológicos que guiaram nosso olhar investigativo sobre o corpus.

No documento 2015IvertonGesseRibeiroGoncalves (páginas 79-82)