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Constituição do sujeito: Subjetividade e Intersubjetividade

CAPÍTULO I EMBASAMENTO TEÓRICO

1.3 Relação cognição e afeto

1.3.1 Constituição do sujeito: Subjetividade e Intersubjetividade

Vygotsky (2000, p. 33) afirma que “o homem é o conjunto das relações sociais

encarnado no indivíduo” e ressalta que essas relações são fundantes dos sujeitos. A questão do

sujeito está nas relações sociais e nas práticas sociais, na dinâmica dialética entre o funcionamento interpsicológico e o funcionamento intrapsicológico, transição que acontece pelas mediações semióticas de sujeitos em interação. Essa interação construtiva da própria identidade é essencialmente dialética e conflituosa. Maheirie (2002) afirma que o sujeito, compreendido à luz de uma matriz histórico-dialética, é construído a partir da objetividade, mediado pela subjetividade, de forma que não se reduz à condição de puro objeto. Também não podemos dizer que o sujeito ocupa a condição de sujeito absoluto, já que está determinado pelas condições objetivas do contexto, pelo qual a constituição do sujeito não está atrelada nem a um polo nem a outro, mas se dá dialeticamente “no confronto eu-outro das

relações sociais” (MOLON, 2011, p.617).

Segundo Vygotsky (2007), a constituição do sujeito se orienta pela formulação da lei genética do desenvolvimento cultural, de acordo com a qual toda função aparece em duas dimensões, primeiro na dimensão interpsicológica e depois na dimensão intrapsicológica. Segundo Molon (2008), para Vygotsky nada apresenta existência por si mesmo, as funções psicológicas superiores não acontecem na ausência de relações sociais que as potencializam. Sendo assim, é nas relações entre as pessoas e por elas que se constituem as funções psicológicas superiores; é através da relação com os outros que acontece a conversão dos processos na dimensão social em processos na dimensão individual. Esse processo de conversão do interpsicológico para o intrapsicológico, segundo Vygotsky (2007), não acontece por mera reprodução, mas por reconstituição de todo o processo envolvido, no qual as funções psicológicas permanecem sendo quase sociais. Para Molon (1995 apud MOLON, 2008), no entanto,

(...) a noção de conversão pressupõe o processo de superação e de mediação pois a questão não está na internalização de algo de fora para dentro, mas na conversão de algo nascido no social que se torna constituinte do sujeito

permanecendo “quase social” e continua constituindo o social pelo sujeito

(MOLON, 1995, p 139 apud MOLON 2008, p.14).

Nessa perspectiva, Maheirie (2002) assevera que a constituição do sujeito contempla duas dimensões, a saber: i) a objetividade - como materialidade e ação, e ii) a subjetividade - como capacidade de estar em relação, compreendida como condição e possibilidade de significar o mundo. A partir desta visão ontológica do sujeito, a subjetividade é a dimensão do sujeito que é capaz de negar a objetividade como uma dimensão absoluta, e nesse sentido, é a dimensão que lhe permite ao sujeito se relacionar com a objetividade produzindo sentidos na relação do eu-outro pela intersubjetividade.

Vygotsky (2007) trouxe uma nova maneira de entender a constituição do ser, no qual o social passa a ser valorizado. Acredita-se que o ser é constituído a partir da inter-relação dos aspectos biológico e ambientais, na qual os fatores social, histórico e cultural têm um papel essencial na formação do sujeito, mas não se desvinculando do aspecto biológico. Assim, tanto o fator interno quanto o externo estão presentes, cada qual com suas especificidades, em uma relação complementar e dialética.

Compreende-se que, independente das particularidades dos sujeitos, sua subjetividade é formada em um processo de desenvolvimento onde necessariamente o fator externo, o

“outro”, deve estar presente, possibilitando ao sujeito a internalização de conceitos

culturalmente construídos e, no decorrer do processo, deve possibilitar o afastamento das emoções instintivas para tornarem-se sociais e históricas, o que reconhecemos como funções psíquicas superiores.

Vygotsky (2001b) ressalta que as emoções são esse organizador interno das nossas reações, que estimulam ou inibem essas ou aquelas reações. “Desse modo, a emoção mantém seu papel de organizador interno do nosso comportamento” (p. 139). De acordo com Vygotsky (2001c apud TOASSA,2011,p 93.), o caráter ativo da emoção é seu traço mais importante, distanciando-se de toda representação de passividade do organismo frente ao meio social e cultural, formando assim as próprias experiências do sujeito, ou seja, o que Vygotsky vai chamar de vivência de prazer ou desprazer.

A maneira de ver o sujeito, na teoria de Vygotsky (2001a; 2007), e de ver o seu

desenvolvimento confere à teoria uma postura “sociointeracionista”, pela colocação de que o

objeto é socialmente mediada. As FPS (percepção, memorização, atenção, pensamento e imaginação) são marcadas pelo uso de instrumentos simbólicos, já internalizados. O alcance de formas superiores ocorre de modo descontínuo; os avanços são resultados de revoluções, que consistem de momentos de emergência de novas formas de mediação e transformação produzidas pelas mudanças geradas no plano intersubjetivo.

Segundo Pereira (2002), o intersubjetivo não é o plano do outro, mas o da relação com o outro, o seu reflexo sobre o intrassubjetivo não é de caráter especular e nem suas ações internalizadas são a reprodução de ações externas mediadas socialmente. Portanto, o conhecimento do sujeito não é dado do externo para o interno, suas ações não são delineadas pelo meio externo e nem o seu conhecimento é cópia do objeto. Como diz Pereira (op. cit.), a intersubjetividade está na gênese da atividade individual e participa da construção das formas de ação autônoma ou da autorregulação. Não se concebe uma construção individual sem a participação do outro e do meio social, o que torna imprescindível a relação intersubjetiva, pois é nesse espaço relacional que há a possibilidade do conhecimento.

Segundo Molon (2011), o sujeito não é reflexo, não é comportamento observável, nem reações não manifestadas e nem o inconsciente, mas o sujeito é uma conformação de um sistema de imagens próprias trazidas à consciência, na qual os estímulos sociais desempenham um papel importante na constituição do eu, já que o contato com os outros sujeitos permite o reconhecimento do outro, de suas emoções e suas vivencias, ao mesmo tempo em que, propicia o próprio reconhecimento do eu, o que será aprofundado a seguir.