5.1 Resultados da ação em PDT: o trabalhar do juiz e da juíza
5.1.1 Constituição do trabalho e o enfrentar da mentira
Após o tempo dedicado aos estudos para aprovação no concurso, os juízes e juízas são nomeados e recebem treinamento técnico, de aperfeiçoamento e de atualização em cursos na Escola da Magistratura durante os primeiros meses após a posse. No entanto, apesar de o treinamento técnico e os estudos serem fundamentais para os processos de aprendizagem, não se pode considerá-los como suficientes para que cada um dê conta do real que será enfrentado no dia a dia da profissão. Grande parte
do aprendizado sobre o trabalho na magistratura acontece na prática, na vivência, no dia a dia.
Resumidamente, o papel do juiz e da juíza do trabalho é julgar os conflitos apresentados entre as partes (geralmente a empresa ou instituição contratante e o trabalhador ou trabalhadora contratado) e solucioná-los através de acordos ou sentenças. Os conflitos chegam ao juiz ou à juíza através de petições, documentos e testemunhos apresentados pelas partes e são discutidos durante audiências, com a presença de advogados, advogadas e testemunhas. Embora haja contato com a matéria a ser julgada ao ler as petições, ao estudar as provas e evidências e ao confrontá-las com a legislação e com as súmulas vinculantes, o real do trabalho do juiz e da juíza se dá de modo significativo durante as audiências. É no dia a dia das audiências que a juíza ou o juiz une as informações que entende como necessárias (provas, depoimentos) para propor conciliações (acordos) ou posteriormente exercer o papel de promover a justiça e solucionar conflitos, proferindo a sentença.
O trabalhar da juíza e do juiz vai, portanto, muito além da leitura de provas e do escutar das testemunhas, pois a magistrada ou o magistrado constrói uma sensibilidade vivenciada nas audiências através de percepções e sentimentos. Tal sensibilidade, aliada à sabedoria prática, permite que cada um se torne mais convicto sobre o que é mais verídico em cada caso. A partir daí a magistrada ou o magistrado faz um juízo sobre a sinceridade ou sobre a mentira expressas pelas partes, sobre a consistência das provas e sobre a relação específica entre os fatos, o direito e a jurisprudência, aplicando a lei do melhor modo possível. O seu entendimento daquilo que faz justiça para cada caso é sempre uma vivência específica e não há caso igual, apesar de haver semelhança entre as matérias julgadas na Justiça do Trabalho.
Um dos temas centrais de preocupação é o de como lidar com a mentira. É comum que uma ou ambas as partes em um processo estejam faltando com a verdade. Assim, um dos grandes desafios é detectar sinais de que há algo estranho e construir estratégias para induzir os sujeitos que estão fazendo uso do artifício da mentira a cair em contradição e, consequentemente, melhor esclarecer os fatos. Isto se passa durante a audiência, considerada como uma etapa fundamental do trabalho do magistrado e da magistrada, que por sua vez desenvolve modos de questionar e de investigar que permitam explicitar as inconsistências nas falas e no comportamento de depoentes. A sensibilidade e a experiência necessárias para melhor compreender
um olhar, uma mudança no tom de voz ou uma expressão corporal distinta só são adquiridas com a vivência das audiências, ao experimentar e refletir sobre as sensações que elas propiciam.
Lidar com a mentira é, portanto, fonte de frustração e ansiedade para juízas e juízes, apesar de ser algo nuclear na profissão, porque não se poderia esperar que as partes agissem sempre de acordo com os fatos e porque sempre haverá um confronto de pontos de vista distintos. Compreender que se trata de teses distintas que se discute em juízo ou de uma mentira deliberada para se auferir algum benefício é o foco da sensibilidade e expertise. A frustração e a ansiedade emergem sobretudo quando não conseguem fazer a distinção entre uma mentira ou sinceridade, quando não conseguem detectar as mentiras e suas origens ou, ainda, quando não conseguem evidências para servir como prova de que alguém está mentindo ou sendo sincero.
Conseguir, através de seus atos, propiciar algo de justo para as partes e para a sociedade é permeado pela questão desta relação com o veraz.
Nas situações onde não conseguem evidências que possam servir como prova para sustentar uma convicção de que a parte está sendo sincera em sua declaração ou que está mentindo, a juíza ou o juiz se posiciona para encontrar caminhos para chegar mais próximo daquilo que considera justo, mesmo sabendo que, provavelmente, sua sentença será reformada em outra instância. Para este grupo de magistrados e magistradas, sentir que a parte está falando a verdade, mas não conseguir julgar a favor, ou sentir que ela está mentindo e não conseguir julgar contra são as piores situações que enfrentam no trabalho.
Desacreditar o depoimento de uma testemunha ou mostrar convicção de que o depoimento seja verdadeiro mesmo sem provas para se apoiar são questões delicadas e que exigem por parte dos magistrados e magistradas um esforço, uma experiência e uma astúcia considerável. Há diferentes estratégias para tentar lidar com essa questão como, por exemplo, a de buscar no início de um depoimento uma abordagem de comprometimento, reforçando a todos os presentes na audiência as consequências legais e morais da mentira no âmbito de um processo judicial.
Portanto, não se trata apenas de uma questão de tempo das audiências, mas, sim, do engajamento para desenvolver um trabalho de qualidade. Trata-se de manter atenção permanente para detectar os sinais que os participantes emanam durante as audiências. A preparação e construção bem fundamentadas das sentenças requerem
que cada um leve em consideração também a sua sensibilidade, relatando os elementos circunstanciais que detectaram durante a audiência, como a maneira de falar e a entonação da voz, incluindo os gaguejos, a expressão corporal, o movimento do olhar, entre outros.
A convicção não é expressa durante as audiências, uma vez que é fundamental que ainda haja um período de reflexão por parte do magistrado ou da magistrada antes de sentenciar. Isto também serve para não exacerbar os conflitos com as partes no momento do confronto de pontos de vista nas audiências.
O trabalhar da juíza e do juiz envolve o corpo, o estar presente e engajado na audiência para poder enriquecer o seu ponto de vista. Não se trata de um trabalhar pautado em um tipo de procedimento padronizado. Trata-se de um trabalhar sensível, que exige apreciar e se engajar em cada situação particular e agir de um modo compreensivo e singular na hora de tratar com as partes e testemunhas. Construir a sua convicção é também um trabalho que exige criatividade, pois o trabalho não é o de apenas aplicar a lei pautado no texto legal, mas de compreender e interpretar o que aquelas pessoas vivenciaram e buscar ser o mais justo possível. Portanto, ser juiz ou juíza é uma arte, a de saber conduzir as audiências, de compreender o que há de evidências nos autos e de ser criativo na hora de sentenciar e de “aplicar” a lei de modo justo.