Discurso de Bertha Lutz na Comissão
Eis por que não posso permanecer muda neste momento; um dever de gratidão obriga-me a tornar público o reconhecimento da mulher brasileira a todos aqueles, sem distinção de cor política ou partidária, que, desde o visconde de Pedra Branca, no início do Império, até o governo provisório, deram o seu concurso à emancipação política do nosso sexo.
Cumprido este grato dever, passo a expor, muito rapidamente, qual deve ser, na minha opinião humilde, a atuação da mulher brasileira na comissão elaboradora do anteprojeto.
Admitindo-nos ao cenário político, o que procuraram os homens em nós? Imitadoras das suas paixões políticas, rivais igualmente empe-nhadas em fazer carreira? Não.
Em todos os momentos difíceis o homem volta-se para a mulher, pro-curando na alma feminina as qualidades que nela se sublimaram através dos séculos: a ternura, a tolerância, a generosidade, o bom senso, o espírito de sacrifício, a capacidade de renúncia de si própria em benefício comum.
Se os homens de nossa terra nos chamam, é porque a pátria estre-mecida necessita de nós. São as qualidades eternas de nosso sexo que devemos trazer para a comissão elaboradora do anteprojeto da Constituição.
Atravessamos dias difíceis. É um momento grave para a nossa pátria e igualmente grave para as outras nações. As fórmulas antigas não satisfazem mais. As democracias nascidas do movimento constitu-cionalista do início do século passado periclitam. Por todos os lados desmoronam instituições que pareciam edificadas para resistir ao embate dos séculos. Só uma ordem de fenômenos é comparável com o que se descortina em redor de nós: o surgimento de uma nova era geológica, que arrasa montanhas, que inunda continentes, que seca mares e levanta cordilheiras na planície.
Ouvem-se rumores subterrâneos que são prenúncios de movimentos sísmicos. Os atos apaixonados, a atuação precipitada dos homens de hoje são fenômenos que refletem modificações sociais profundas.
Parecem condicioná-las, mas, na realidade, delas são reflexos. É nesse ambiente de agitação intensa que a mulher é chamada a colaborar na
vida política; é nesse cenário cataclísmico que estamos aqui reunidos para elaborarmos o anteprojeto da nova Constituição do Brasil.
Psicologicamente, o momento não poderia ser menos propício. Em nenhum país do mundo reina serenidade no ambiente. Em todos eles, inclusive no nosso, a opinião pública está dividida em numerosas correntes. Velhos monarquistas folheiam saudosos os relatos de viagem dos primeiros naturalistas, sonhando com os tempos áureos do Império, patrono das artes e da ciência. Jovens irrequietos voltam o olhar para aquele campo boreal de experiência, no qual o espetá-culo simultâneo do fausto e da miséria conduziu dirigentes por um consórcio estranho do ceticismo europeu e do despotismo oriental, a criarem uma entidade política nova, o homem coletivo, que visa transformar os seres humanos numa vasta coleção de robôs.
Há poucas semanas, foi abafada a tentativa de um grande Estado de promover a constitucionalização pelas armas. A imprensa diária noticia a organização de um certâmen inteiramente diverso, um con-gresso destinado a examinar preliminarmente se o Brasil deseja ver-dadeiramente uma Constituição. É neste ambiente de tantas facetas, em que avultam os ódios, em que se multiplicam as doutrinas eco-nômicas sociais e políticas, que devemos trabalhar. Poderemos fazê-lo eficazmente? Não sei. Devemos, entretanto, tentá-lo, porque dos erros do passado e das angústias do presente deverá nascer um Brasil novo, mais justo e mais perfeito. E esse Brasil reclama uma codificação nova de suas leis. A nossa tarefa é hercúlea. Para desem-penhá-la eficazmente, necessitamos de objetividade serena e de patriotismo construtor; mais ainda: necessitamos a colaboração do Brasil inteiro. Da profundidade da minha alma de brasileira, lanço, pois, desta tribuna, um apelo a todas as forças vivas da nação.
Em primeiro lugar, apelo para a opinião pública, para a imprensa bra-sileira, a fim de que nos auxilie pela crítica construtora, pelo conselho benevolente e pela confiança animadora na pureza das nossas inten-ções. Em seguida apelo para o governo provisório da República, cuja responsabilidade é tremenda, dado o caráter absoluto do poder que detém. Peço-lhe encarecidamente que, em face da não existência no momento atual de um órgão legislador do poder público, cerque esta
assembleia pequenina, por ele mesmo nomeada, da independência e da imunidade imprescindíveis para que possa deliberar sabiamente.
Finalmente, apelo para os outros membros desta comissão que representa, hoje, o penhor dado pela ditadura à corrente constitu-cionalista de que colaborará na recondução do Brasil ao regime legal.
Reféns, voluntários ou involuntários, cabe-nos perante a história res-ponsabilidade máxima no cumprimento integral e consciencioso do nosso dever.
Se cada um de nós procurar imprimir à Constituição nascente o cunho da nossa individualidade própria, sairá ela das nossas mãos com deformações esqueléticas permanentes, semelhantes àquelas que se encontram nos crânios indígenas adultos, amoldados na oca-sião do nascimento pelos dedos sacrílegos dos pajés.
Uma Constituição não deve ser uma camisa de força, nem o espelho de um momento que procura perpetuar inutilmente a imagem das pai-xões transitórias e de teorias evanescentes. Deve marcar um passo à frente, na marcha redentora da civilização. Deve ser uma moldura ampla que possa enquadrar todas as manifestações da vida política brasileira, no domínio pacífico da lei.
Meus senhores, as minhas palavras, talvez, vos pareçam pedantes.
Não as interpreteis assim. Disse-vos, inicialmente, que procuraria falar-vos em nome da mulher, chamada pela primeira vez a colaborar na vida política do Brasil. As minhas palavras procuram somente traçar diretrizes e definir orientações.
Neste momento em que a mulher é injustamente excluída da subco-missão técnica (palmas prolongadas) é preciso firmar muito clara-mente que a mulher não representa uma classe, mas metade da popu-lação; que aqui está menos para usufruir direitos do que para cumprir obrigações, que não visa apenas garantir interesses, mas principal-mente defender ideais, que não esposa correntes partidárias, por mais respeitáveis que sejam, porque procura colaborar, despretensiosa e imparcialmente, em tudo que se relacione com o progresso da pátria, a grandeza do Brasil.
(Muito bem, muito bem. Palmas no recinto e nas galerias.)