CAPÍTULO 3: OS QUARTOS E OS CONTEXTOS
3.1 A Constituição Social dos Quartos
Por ser uma série produzida no Brasil, é coerente que se trate de quartos no Ocidente. A maneira de morar é cultural, tendo características muito distintas entre países, regiões, e como o Brasil teve colonização europeia, é coerente observar o Ocidente especificamente, ainda entendendo que a forma de morar da Europa também teve influência da forma de morar de tantos outros lugares, esse movimento não é centrado apenas geograficamente. Um exemplo que ilustra essa questão é a maneira distinta que as sociedades indígenas organizavam suas casas, quando os colonizadores aportaram no país. Algumas aldeias indígenas possuem as casas em formato circular, na sua origem, as casas são conhecidas como ocas e, nesse caso, as famílias dividiam o mesmo espaço, sem a configuração que os europeus trouxeram ao país, denominadas de quartos. Esse é apenas um dos muitos exemplos que podem ser apontados, demonstrando a constituição social da forma de morar e da constituição dos quartos. Assim, esse exemplo ilustra um dos processos culturais que o país atravessou, não significando que esse seja o único ponto a se observar, pois as necessidades que são impostas pela passagem do tempo, também influenciam em mudanças consideráveis na organização da maneira de morar de qualquer etnia, não apenas das indígenas, aqui citadas.
Perrot (2011) pontua que quarto de dormir só aparecerá nos dicionários a partir do Século XVIII, ou seja, não é tão antigo quanto possa parecer. A maneira que as pessoas habitavam suas casas e locais em que dormiam, por exemplo, na Europa, foi um dos motivos das epidemias que se espalharam. Os hábitos de higiene eram ignorados por parte dos camponeses, inclusive por conta da situação financeira, frio e outras questões que eram comuns ao período. A autora comenta que os lençóis permaneciam os mesmos, bem como as camas, por anos consecutivos. As pessoas dormiam com a mesma roupa que passavam o dia. Na Europa, por conta das doenças que espalhavam-se, houveram medidas de
higienização, para que a população pudesse ter longevidade, dentre elas, levou-se em consideração as formas de morar, sendo um dos enfoques da empreitada.
Com a vinda de europeus à terras tropicais, com a temperatura muito adversa à Europa, paulatinamente os hábitos de higiene mudaram. Porém, era comum no Século XIX ilustrações mostrarem diferença entre o que se constitui como quarto na década de 1990, década que a Série “Quartos-São Paulo” foi constituída, no Brasil.
Imagem 13. Debret. Les dèlassemens d’une aprés diner, 1835.
Fonte: Voyage pittoresque et historique au Brésil. P. 42.
A imagem 13 mostra um espaço que remete ao descanso, embora não haja privacidade, o espaço é coletivo. Há um homem deitado no chão, lendo, sob uma esteira que parece ser feita de palha. Outro, em pé com algo que lembra uma jarra, outro homem em pé com um instrumento de sopro, uma flauta, e o que está sentado em uma espécie de cama, com um instrumento de corda, mais antigo que um violão atual. A imagem é parte das ilustrações do livro de Debret, que dedicou anos de sua vida a retratar o Brasil do Século XIX.
No final do século XIX, as condições eram desastrosas. Dez por cento das habitações moscovitas eram constituídas por “apartamentos de subsolo” (eufemismo para porões) e por “apartamentos de leitos e de cantos”, que em 1898, abrigavam 180 mil pessoas. Muitos operários dormiam nas oficinas e nas fábricas. (p. 52-53).
O que Perrot (2011) aponta é para a situação que no Século XIX podia ser percebida pela maneira que as pessoas habitavam o espaço. Esse argumento permite pensar que as casas, os quartos, são espaços que permitem revelar status. A maneira que os bairros constituem-se remetem à maneira como a sociedade configura e se relaciona com a cidade .
No início do Século XIX em Paris, na França, a despesa com aluguel, por exemplo, era de 10% a 20% do orçamento da classe operária, segundo Perrot (2011). A autora aponta para o problema dos pagamentos dessas moradias, pois no dia do pagamento, era grande a movimentação das famílias para mudança de endereço, por não possuir a quantia necessária para o pagamento do aluguel. A autora aponta “no prazo de pagamento de julho de 1882 - um prazo ao acaso - assim, ocorrem 3695 mudanças em nove bairros do centro e leste da capital, sendo que os bairros burgueses se mostram imensamente mais estáveis. (Perrot, 2018, p. 110). É a defesa do direito à moradia uma das principais bandeiras da Comuna de Paris, para as classes operárias, o importante era parecer limpo e alinhado, portanto o vestuário e as festas eram parte do orçamento da família, segundo a autora. Stalysbrass (2008) apresenta algumas situações em que as roupas na Inglaterra, consumiam parte significativa da economia e as casas de penhor faziam parte da paisagem urbana, com fluxo intenso de transações de roupas, casacos. Ou seja, reforça o que é apontado no trecho que Perrot (2018) aponta para a aparência, embora as condições financeiras não pudessem acompanhar essa necessidade.
No Brasil, o início da colonização apresentou características distintas em cada região do país. Schwarcz (2009) comenta sobre a imagem que o Brasil tinha aos europeus, no Século XIX. A hierarquização, tendo os europeus como avançados e o novo mundo como bárbaro, foi disseminado pela imagem que os viajantes filósofos descreveram das viagens que fizeram para escrever seus tratados. A autora chama a atenção para a falta de alteridade, sendo o Brasil visto como o outro, muitas vezes bárbaro, o que justificava várias práticas sociais da época, como a imposição de um estilo arquitetônico europeu, como o Neoclássico, por exemplo.
Rochelle Costi evidencia o cômodo da casa que, segundo ela (anexo 1), a princípio estaria mais ligado à intimidade. O quarto denota o espaço individual ou compartilhado, que é parte integrante da casa, ligado diretamente à questão da moradia. No Brasil da década de 1990, em que a Série foi produzida, as desigualdades sociais eram latentes, como será possível observar no trabalho da
artista. Segundo IBGE37, o crescimento entre 2004 e 2014, o número de aquisição
de imóveis cresceu no país, bem como os bens duráveis. Essa informação demonstra que o quadro nos anos subsequentes ao da Série apresentada, conta com o desenvolvimento financeiro da população do país. Isso não significa que as desigualdades sociais não persistam. Um dos exemplos que se pode destacar é o quarto de um casal de catadoras de papel, imagem 14, que é uma das fotografias da Série, profissão que em 1998, assim como na atualidade, continua a ser mal remunerada. Além de estar abaixo da média salarial mínima, conta com a informalidade que não permite salubridade e vigência de legislação que profissionalize as pessoas que precisam exercer essa função.
A artista comenta (Rosa, 2005) a respeito do conjunto de imagens que conseguiu após caminhar pelos bairros que mapeou para a produção do seu trabalho:
Na época tirei férias da revista onde trabalhava e saí por São Paulo à procura de exemplares para a minha pesquisa: espaços temporários como pensões para trabalhadores nordestinos e alojamentos nos canteiros de obras da construção civil, apartamentos do Projeto Cingapura, barracos cortiços, prostíbulo, refúgio espiritual, residências de classe média e alta. Concluído o levantamento, um conjunto eclético de imagens, pude perceber uma incrível harmonia entre elas, como se houvéssemos alcançado a intangível igualdade entre os seres humanos. Parece-me que na cama, durante o sono e abandono da consciência, finalmente chegamos a ser todos realmente semelhantes. (Entrevista de Rochelle Costi à Ivo Mesquista, 2005, p. 177).
A artista deixa evidente no relato citado, que a escolha dos quartos pretendia mostrar a diferença social que as imagens dos quartos relacionados ofereciam, pois desde a escolha dos bairros até a escolha das atividades cotidianas e diversas formas de morar, foram previamente selecionadas pela artista.
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Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Para informações completas: https://brasilemsintese.ibge.gov.br/habitacao.html
O Brasil é um país considerado em desenvolvimento, segundo FMI38, na década de 1990, Rochelle Costi escolheu os quartos para demonstrar, entre outras coisas, as diferenças sociais que fazem parte do cenário do país.