ANGOLIZAÇÃO FORMAL DA LÍNGUA PORTUGUESA
ARMINDO JAIME GOMES
4. Constrangimentos característicos ao contexto de Angola
Com o reavivar do slogan «Vamos descobrir Angola», o início da década de 1980 pareceu ter sido uma época na qual as gerações literárias de antes e pós- independência, então distanciadas em idades, experiências e expectativas, pareciam convergir na «conscientização» sobre a angolanização do texto com base em pressupostos ocidentais. O discurso do contexto foi (des)construído a partir de emoções revolucionárias assentes em princípios do comunismo científico, em que o pensamento de Agostinho Neto (1985:27) tornava-se cada vez mais orientador, particularmente depois de ter dito que: “todos nós, creio que concordamos em que o
escritor se deve situar na sua época e exercer a sua função de formador de consciência, que seja agente activo de um aperfeiçoamento da humanidade”.
A partir de 1976, os manuais escolares de língua portuguesa dos níveis básicos, rechearam-se de estratos de textos literários, seleccionados de autores africanos de língua portuguesa em perseguição à identidade e valores literário-linguísticos endógenos no texto produzido com base nos pressupostos ocidentais. À medida que a importância da escrita das línguas locais passava aos alunos, dava-se-lhes a oportunidade de manobrar a língua portuguesa mesclada com o vocabulário adaptado à linguística Bantu, fazendo com que se falasse um português angolano, diferente do padrão e de outras realidades a ele adaptado. Os alunos passaram a conhecer a escrita e alguma pronúncia das línguas nacionais através do alfabeto ocidental.
A estratégia de levar o texto africano na escola deu brecha sociopolítica na juventude da década de 1980. Protegido pela JMPLA, um novo movimento
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sociocultural denominado Brigada Jovem de Literatura, emergiu no seio dela e, apostada em pesquisas locais, aos poucos expandiu-se pelo país até formar uma associação de âmbito nacional de 1987, cujo protagonismo marcou o discurso literário dos anos seguintes e actualmente. O debate daí difundido penetrou no campo universitário e, coincidindo com as reformas constitucionais de 1990 da II República, cederam-se nos espaços institucionais de pesquisa e estudos da sociocultura nacional. Do resto sabe-se apenas que, aos 19 de dezembro deste ano, Angola subscreveu o acordo da uniformização da grafia sem qualquer tentativa de aplicabilidade.
Tentativas de estudos das línguas locais incluindo a língua portuguesa, quer do ponto de vista de variantes, quer da escrita e divulgação, assim como linhas de influências, internamente passaram em revista entre estudantes e docentes dos ISCED’s. Em 9 anos correspondentes com o período de paz, de 2002 a 2011, é possível admitir que em Angola há um «português das maiorias», aquele falado, ouvido e percebido por todos, com sentido das línguas locais, caracterizado por sotaque e fonética Bantu, mesclado, fluente, cujo erro da língua portuguesa padrão faz a regra. Difere-se do «português das minorias» por este esforçar-se ao nível do padrão seguido à risca por grupos com ligação a Portugal, veiculado particularmente por meios de difusão radiotelevisiva por se precisar de manter boa imagem perante Portugal. De certo modo, a veiculação do «português das minorias» circunfecha- se no centro do casco urbano dos maiores centros urbanos de Angola, entre gente hostil às línguas locais, que visitou Portugal ou dele tem afinidades e reserva-se particularmente para fins diplomáticos.
Entretanto, visivelmente, o quadro evolutivo linguístico de Angola manifesta-se promissor quer na capacidade de assunção de terminologias da língua portuguesa, quer o contrário.
Alguns exemplos (1):
Português
Do angolano Ao padrão
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É como? - O que se passa?
É quanto é? - Quanto custa?
Fazer descarado - Declarar zangas com outrem
Gasosa - Refrigerante
Gatinhar - Engatinhar
Mais-velho - Chefe. Autoridade.
Maioria parte - Maior parte
Nunca… - Não…
Pirão - Guisado de farinha de milho ou de mandioca.
Saboar - Ensaboar
Xará Pessoas com o mesmo nome
Exemplos (2):
Português
Do angolano Ao padrão
Primo-irmão - Filho da irmã ou do irmão da mãe
Prima-irmã Filha da irmã ou do irmão da mãe
Pai-grande - Irmão da mãe
Mãe-grande Irmã da mãe
Mamã-sogra - Mãe da esposa ou do esposo
Papá-sogro Pai da esposa ou do esposo
Kasule, kwasule - Ultimogénito
Kota - Mano ou mana
Mano - Irmão mais velho
Mana - Irmã mais velha
Exemplos (3)
Do português padrão Às línguas locais
Cama - Ohama
Pão - Ombolo
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Boroa / broa - Ombolowa
Escola - Osikola
Tempo - Otembo
Candeeiro - Ondiyelo
Bom dia - Mbondiya
Boa noite - Mbwanote
Boa tarde - Mbwatali
Com licença - Sesa
Da licença - Ndalisesa
Exemplos (4): Conjugação de verbos
Do português angolano - Ao português padrão
Você me deste - Você me deu
Você dormiste - Você dormiu
Você fizeste - Você fez
Você comeste - Você comeu
Te fiz lá - Fiz por ti
Me dá lá - Dê-me
Me compraram com ele - Vendi
Vai ir - Irá
Vou ir - Irei
Vás ir - Irás
Vão ir - Irão
Conclusões
A língua portuguesa falada em Angola, obviamente foi sofrendo mudanças evolutivas mediante as dinâmicas, particularmente socioculturais e etnolinguísticas
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cultura ocidental, fazendo com que hoje um angolano fosse identificado com peculiaridades distintas de outras nações falantes da língua portuguesa.
Quer as línguas locais, quer o português falado em Angola são línguas nacionais intercambiadas em todos os aspetos, mas os indicadores para tais demonstrações tornam-se escassos porque os 36 anos da independência nacional continuam insuficientes na dedicação de instituições afins à reflexão sobre assuntos de género.
Por esta e outras razões, o levantamento sobre a realidade actual adia-se, mas fica percebida a ideia do reconhecimento da sua importância. Basta ter em conta que a língua portuguesa é a oficial e o Estado angolano recomenda que se desenvolvam esforços para a utilização das línguas locais.
BIBLIOGRAFIA
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