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PARTE I ENQUADRAMENTO TEÓRICO

1. Educação e Formação de Adultos: Resenha Histórica e Referências Teóricas

1.5 Processo de Reconhecimento, Validação e Certificação de Competências

1.5.1 Constrangimentos e Potencialidades do Processo de RVCC

As opções políticas de implementação do SNRVCC identificaram-se com alguns compromissos assumidos no âmbito da V CONFINTEA. De igual modo, as opções metodológicas e a promoção da animação local presentes nesse sistema revelam uma preocupação de manter-se ligado às referências da Educação Popular e aos quadros teóricos de uma Pedagogia Emancipatória (Alcoforado, 2008). Pelo que foi afirmado, apercebemo-nos que estas práticas emergentes são terreno de conflitos e contradições, apresentando constrangimentos e potencialidades que tentaremos enunciar seguidamente.

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Para Liétard (1997) a problemática do reconhecimento e validação integra um jogo de influências e relação de forças que não beneficiam o indivíduo pois os sistemas de validação devolvem à pessoa uma série de responsabilidades coletivas como o desemprego e exclusão social. Estas questões reforçam a necessidade de perceber o reconhecimento e a validação noutro contexto que não uma resposta imediata para os problemas económicos e sociais dos quais destacamos a aquisição de competências de modo a tornar as pessoas aptas a lidar com a mudança tecnológica e organizacional e a sobreviverem no mercado global da competitividade. Para o mesmo autor, este sistema não deve ter este caráter imediatista mas uma função educativa duradoira na construção de identidade pessoal e social (Pires, 2007).

A natureza dos próprios elementos do PRVCC, tal como a questão das competências, da experiência de vida e da avaliação, tornam este processo bastante complexo, tanto para os profissionais como para os adultos. A própria rapidez do crescimento destes centros, em número, não foi acompanhado pela formação dos profissionais, tendo as equipas dos Centros um papel fundamental na gestão da complexidade mencionada. Estes profissionais deparam-se, por isso, com a dificuldade de perceber e fazer perceber ao adulto a lógica do processo na medida em que os adultos não têm referências relativamente a este modelo, distinto do modelo escolar. A complexidade destes elementos repercute-se nas funções dos vários elementos da equipa condicionados por um conflito entre a lógica humanista e a avaliação instrumental. A primeira coloca o enfoque no adulto, no autorreconhecimento que permita levar a um processo formativo e construtivo, que promova a emancipação do adulto, por sua vez a segunda exige o cumprimento de metas7 quantitativas relativas ao número de adultos certificados, o que perverte a visão humanista do processo (Cavaco, 2007).

A conceção e a reformulação dos instrumentos de mediação constituem uma das principais dificuldades da equipa, o que significa que a construção de situações- problema constitui uma dificuldade para os formadores. Torna-se difícil, assim, conceber situações-problema que se possam identificar com um conjunto alargado de

7 Os resultados anuais indexados ao número de inscritos, em cada ano civil, e que são tidos em conta na

avaliação da atividade do centro, reportam-se aos objetivos de: encaminhamento, desenvolvimento de PRVCC e certificação parcial e total. O CNO da Escola Básica e Secundária Henrique Sommer situa-se no nível de resultados “A” pelo facto de trabalhar com públicos com caraterísticas específicas (Orientações Técnicas para a Candidatura Técnico-Pedagógica dos Centros Novas Oportunidades - Biénio 2010/2011). Este nível excecionado estabelece 250 adultos inscritos;225 adultos com diagnóstico e encaminhamento definidos;101 adultos em processo RVCC e 91 adultos certificados (total e parcial).

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competências e que sejam adequadas à especificidade do percurso de cada adulto. A aplicação de situações-problema é uma tarefa árdua que nem sempre é possível assegurar por formadores, principalmente se estes estão a tempo parcial nos CNO’s, como acontece em muitos centros existentes em escolas públicas (Cavaco, 2007). Acresce a isto, a instabilidade das equipas, frequente nas escolas, que em cada início de ano letivo são confrontadas com elementos novos, sem experiência e sem formação. Na formação complementar, os formadores deparam-se com o dilema formar/ reconhecer. Assim, ou optam por transmitir conteúdos, recorrendo a atividades escolarizadas como fichas para que o adulto colmate as lacunas de formação ou optam por uma lógica de reconhecimento de competências, criando situações-problema que conduzam o adulto à evidência da competência. Há aqui o risco de perverter a lógica do PRVCC a partir do momento em que o formador opte pela “escolarização” do processo (Cavaco, 2007).

Estes profissionais desenvolvem uma reflexão constante sobre o seu trabalho pelo caráter inovador e recente da implementação destas metodologias. Tal atitude é importante para a consolidação das metodologias e instrumentos de trabalho, os quais, pela necessidade de adequação aos diferentes públicos, têm que estar em constante atualização (Cavaco, 2007). Por outro lado, a própria rapidez na qualificação, relativamente ao ensino regular, permite um maior feedback e avaliação dos processos de reconhecimento o que leva, consequentemente, à necessidade da reformulação mencionada anteriormente.

As estratégias de reconhecimento e validação devem constituir um ato voluntário, cabendo à pessoa a decisão sobre o momento adequado, dependendo dos seus interesses. Os pressupostos em que assentam estes dispositivos devem permitir ao adulto a possibilidade de gerir os seus próprios tempos para recorrer a estes processos educativos e retomar um percurso de educação/formação ao longo da vida. O que dissemos requer, por parte desses mesmos sistemas, uma mudança na forma e na estrutura da sua organização no sentido da sua flexibilização ao nível da modularização ou capitalização de unidades de formação e, ainda, ao nível dos horários flexíveis, estudo a tempo parcial, formação à distância e condições particulares de financiamento.

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Os processos de reconhecimento e validação permitem a elaboração de projetos pessoais e profissionais, constituindo-se estes como uma base para estratégias de autoformação e no planeamento de percursos formativos. Estes processos promovem assim a educação/formação ao longo da vida, sendo também atrativos, por decorrerem num período temporal mais curto, para os adultos que ambicionam retomar o seu percurso escolar ou reorientar a sua trajetória definitiva (Pires, 2005).

2. O Processo de Reconhecimento, Validação e Certificação de