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3.1 RACIONALIDADE AMBIENTAL: PARA UMA ESTRATÉGIA DE GESTÃO DA

3.1.2 Construção Conceitual Da Racionalidade Ambiental

Para sua construção conceitual, a RA toma como base o conceito de racionalidade weberiano que consiste num sistema de regras de pensamento e ação que se estabelecem dentro de esferas econômicas, políticas e ideológicas, legitimando determinadas ações e conferindo um sentido de organização da sociedade em seu conjunto; essas regras orientam processos, práticas e ações sociais para determinados fins, através de meios socialmente construídos, que se refletem em sistemas de crenças, normas morais, acertos institucionais e padrões de produção (WEBER, 1994). Constitui, assim, um sistema de raciocínios, valores, normas e ações que relacionam meios e fins. Desta maneira, a RA é conceituada como:

Um nó complexo de processos materiais e simbólicos, de raciocínios e significados construídos por um conjunto de práticas sociais e culturais, heterogêneas e diversas. [Este nó complexo] é a resultante de um conjunto de normas, significados e interesses, valores e ações que não se dão fora das leis na natureza, mas que a sociedade não se limite simplesmente a limitar (LEFF, 2006, p. 250).

Deste conceito se inferem as categorias centrais da RA: a concepção de que racionalidade é um conjunto de raciocínios, mas, sobretudo, de significados, de sentidos que se dão a partir da relação homem/natureza; a integração das variadas ações sociais com os sentidos e significados e saberes culturais de cada povo, de cada comunidade, rechaçando, já no conceito, a ideia de globalidade no sentido de universalidade e aniquilamento das práticas

locais; a heterogeneidade, a diversidade, a pluralidade com um valor social moral que incorpora uma política da diferença.

A RA é ainda: a utilização de meios eficazes para consecução dos objetivos desta racionalidade, tais como são as técnicas e as normas, pois, para além de um conceito teórico, a RA é uma praxeologia de uma nova ação social no campo da vida; o lugar de importância que a natureza e as leis limite desta, tal como a entropia, possuem no cenário da relação entre sociedade e meio ambiente, buscando os caminhos para interligar as pontas soltas desta relação recuperando os sentidos simbólicos historicamente construídos pelos povos e a natureza.

Na construção conceitual da RA, alguns construtos são de acentuada importância, pois fazem parte desta aglutinadora categoria do pensamento ambiental. Para a RA é de elevada importância a formação de uma política da diferença, tal que privilegie o encontro da diversidade no sistema produtivo, no sistema jurídico, no sistema político, ético e social. Além disso, metodologicamente, a RA pugna por uma análise multicriterial dos objetos do conhecimento e dos saberes, de modo que seja levado em consideração o plexo de relações, interações e influências que incidem sobre determinado ato, fato, fenômeno, acontecimento, objeto material, de modo que não se perca de vista a variedade de causas, efeitos, de ordem e de desordem que incide sobre o que se pensa, sobre o que não se pensa e sobre o que poderá ainda se pensar.

Esta multicriterialidade viabiliza o campo da dialética de lógicas opostas, não no sentido de que as lógicas se opõem para que uma supere a outra e se sobressaia construindo uma verdade; diferentemente desta cosmovisão, a RA utiliza a dialética das lógicas opostas no sentido de superar as contradições de ambas as lógicas e integrar as características das mesmas, no sentido de que “se o homem se refere à natureza, é que ele próprio é natureza; se, pelo contrário, a natureza se «cultivou», é que o desenvolvimento da vida produziu a hominização que, em compensação, a afecta” (OST, 1997, p. 284).

Assim, à oposição entre racionalidade econômica e racionalidade ambiental, a RA busca eliminar as contradições destas racionalidades que se situam no campo do hiper – hipereconomizado, hiperobjetivado, hipercientificizado, hipertecnologizado – sem, no entanto, aniquilar a importância da racionalidade instrumental e técnica – que é preponderante na racionalidade econômica – na construção da própria RA, pois sem técnica e sem instrumentos, as racionalidades material, teórica e cultural ficam sem meios práticos para se concretizar.

Este caminho dialético conforme proposto na RA leva a um caminho da outridade, do encontro com o outro, não só com o próximo humano, mas com o Outro que está fora de Si mesmo, mas que conSigo se relaciona e interage em interdependência. Para tanto, a RA, através do conceito de outridade, fixa que a nova racionalidade, a racionalidade ambiental, só faz

sentido se a ação social está voltada para este Outro, para uma ética da outridade que rechaça a ideia do ensimesmado e vai ao encontro daquilo ou daquele que está fora si, que é exterior a si mesmo, mas que conSigo forma uma realidade imbricada, interligada, mútua e interdependente. O Outro Absoluto, no contexto da RA, é tido aqui como o meio ambiente, a natureza natural que dialogicamente fornece as bases da existência material e que se conecta ao seu próprio Outro, que é a pessoa humana, através do simbólico, dos sentidos, do material e do imaterial, dos valores, da técnica e da ética, da política e da economia, do direito e da moral, da ciência e dos saberes.

É neste sentido que a RA critica um dos pilares da racionalidade moderna: o logocentrismo, o centrismo, que num maniqueísmo tende a um código binário num jogo de tudo ou nada, de muito ou pouco, do biocêntrico ou antropocêntrico, instigando a transmudar a racionalidade para a pluricentralidade da existência na qual orbitam variados centros e em que nenhum chama para si a atenção total, mas que divide, que integra, que compartilha, de forma participativa, num apanágio multivariado de interesses, de condições, de mundos de vida, para usar uma expressão habermasiana.

Ante esta construção conceitual da RA e ainda que se fixe tal conceito, a RA não se configura em conceito acabado e pronto, é, outrossim, uma construção conceitual que é marcada pelo objetivo do desenvolvimento sustentável, de meios e instrumentos eficazes na consecução dos objetivos, de métodos e técnicas de produção, de sistemas de conhecimento e de significação, de teorias e conceitos. Destes, compreende-se a dimensão aglutinadora da RA que se articula em quatro níveis que invertem a ordem positivista e determinista da racionalidade moderna, ordenando-se conforme: a) racionalidade material ou substantiva; b) racionalidade teórica; c) racionalidade técnica ou instrumental; d) racionalidade cultural.