• Nenhum resultado encontrado

5 DESCRIÇÃO E ANÁLISE DOS DADOS

5.2 ASPECTOS DO AMBIENTE

5.2.1 Construção da Parentalidade

Com Winnicott (2005) percebeu-se como o ambiente é importante para a constituição psíquica do ser humano, pois irá prover o que for necessário à vida, alimentando o bebê não só com a nutrição real para seu desenvolvimento, no aspecto fisiológico, como também o nutrindo em seu mundo simbólico e afetivo, proporcionando-lhe experiências. Sabendo desta

importância do ambiente, Winnicott pontua que esta fase precoce é massivamente representada pela mãe, que terá influência no desenvolvimento maturacional do bebê. Sob esta ótica apresentam-se, abaixo, cenas do desenrolar da construção da parentalidade, processo que não ocorre prontamente, de antemão, e se forma ao longo da integração vivida pela Mãe, ressaltando suas competências e faltas nos cuidados com as filhas.

Mãe fala com a filha em seu colo com um tom de voz baixo, olhando-a de forma carinhosa, ao mesmo tempo em que faz carinho em sua mão: “Né filha?”. Nara que está com dois meses e três semanas escuta atenda olhando para o rosto da mãe, enquanto sua irmã continua dormindo no carrinho ao lado.

Mãe: já mudou desde a última vez que você veio aqui né? Elas já estão querendo largar o

seio [faz uma pausa e olha para a pesquisadora com semblante triste] porque meu leite está ficando fraco, não tô produzindo mais tanto leite como eu tava, porque eu tô toda meio assim ainda sabe? Eu que entrei na rotina delas né?! Elas ainda não entraram na minha, aí eu perco a hora deu almoçar, aí me perco toda e meu peito tá muchinho, não tá mais enchendo como enchia antes, aí eu ainda coloco [se referindo ao seio] porque tem um pouco, mas eu vejo que quando acaba [o leite] elas ficam nervosas, aí tem que dar a mamadeira.

A Mãe teve dificuldades em amamentar no seio, mas mesmo assim não desistiu da tarefa e insistiu até conseguir, porém como visto na cena acima, perto dos três meses já estava quase sem leite. Percebe-se nesse trecho como a mãe se propôs a seguir o que acreditava ser importante para suas filhas, muitas vezes chegando à exaustão, como conta que chegou um dia a vomitar devido à privação de sono, ou ainda quando se questiona se é uma boa mãe porque elas ficaram gripadas.

Ela associa à diminuição do leite ao fato de estar sendo negligente consigo mesma, mas não se culpa por saber que está fazendo isso em nome de servir suas filhas. Tal adaptação aos horários faz lembrar a sintonia afetiva descrita por Winnicott (1966/2000) necessária nesse começo. No estado de Preocupação Materna Primária, a mãe faz esse movimento em direção ao filho que a distancia de si mesma e de todo o resto. A Mãe reafirma isso quando alega que está se sentindo sozinha nesse período.

Winnicott (1958/2000) declarou que é a partir dessa espécie de regressão a serviço do bebê que a mãe poderá compreender, de forma criativa, seu infante, suas comunicações, identificando-se com suas necessidades e vulnerabilidades. Como qualquer exercício de holding, essa identificação não é paralisante, mas pelo contrario, é metabolizadora para favorecer o desenvolvimento do outro.

Ainda no processo de construção da parentalidade é possível identificar cenas de carinho e ternura entre elas, há um apaixonamento pelas filhas, e muitas vezes um ciúmes das outras pessoas que ajudam nos cuidados como, por exemplo, quando as filhas sorriem para a Avó antes de sorrirem para a mãe, competências fundamentais para a constituição das gêmeas.

A mãe, neste momento, está em sintonia afetiva com as duas meninas, pois as permitem estabelecer a rotina de acordo com suas próprias necessidades, e as meninas de alguma forma parecem “saber” que precisam se revezar para ter esta mãe, acordando em momentos distintos para mamar. Parece de forma mágica que na verdade foram elas, as gêmeas, que conseguiram se conectar a necessidade da mãe de atender cada uma de uma vez, dado que esses cuidados tão iniciais não são possíveis de serem realizados com duas bebês simultaneamente. E desta forma ambas encontram um jeito de ter a mãe só para si quando acordadas. Nesta dinâmica interminável, sem intervalos, de constante holding e handling cada hora com uma das filhas, as duas meninas acabam por ser atendidas por um ambiente suficientemente bom, mesmo que este esteja sendo levada à fadiga e ao esgotamento.

Sinais como: quando a criança chora a mãe sabe identificar o que ela quer; mãe fala usando a prosódia materna manhês; há troca de olhares; Mãe faz algo e aguarda a resposta das filhas, dando suporte as suas tentativas; identifica quando a filha está fazendo manha; usa um linguajar particular entre elas; oferece alimentos semissólidos no devido tempo; alterna momentos de interesse; não se sente obrigada a satisfazer todas as demandas da filha; e estabelece pequenas regras; são indícios de competência da mãe neste cuidado, e a presença deles clarifica sua boa função de holding e handling estabelecida9.

Há, porém neste caminho algumas faltas que chamam atenção, quando as meninas estão com mais de 12 meses, a mãe ainda não lhes pede para nomearem objetos que apontam e não oferece brinquedos como alternativa ao seu corpo quando a buscam. Tais falhas podem ser intuídas como dificuldades nascidas da gemelaridade, pois a mãe pode vivenciar uma culpa por não conseguir dar o colo e ou a atenção que ela julgaria necessário a cada uma das filhas, e quando a solicitam ela as pega imediatamente, mesmo que para isso seja necessário trocá-las de lado mais de três vezes em um único minuto. Ou ainda, não as estimulam a

9 Itens selecionados no Protocolo IRDI, para maiores informações ver: “Leitura da constituição e da

psicopatologia do laço social por meio de indicadores clínicos: uma abordagem multidisciplinar atravessada pela psicanálise” In: KUPFER, M. C. et al. Valor preditivo de indicadores clínicos de risco para o desenvolvimento infantil: um estudo a partir da teoria psicanalítica. Lat. Am. Journal of Fund. Psychopath, v. 6, n. 1, p. 48-68, 2009.

começarem a falar por não reconhecer nelas a capacidade simbólica à idade referente, pois pode ter dificuldade de perceber o estágio de desenvolvimento das filhas, uma vez que fica tomada por uma dinâmica agitada, ou seja, pela necessidade constante de assisti-las em suas demandas como trocas de fraldas, comida, ou evitar machucados, sobrando pouco tempo para observações mais minuciosas. A partir desse ponto pode infantilizá-las, não reconhecendo suas capacidades, ou mesmo, pode percebê-las como não preparadas para a comunicação com o ambiente para além delas mesma, o que sugeriria uma pressuposição da mãe de que “elas se bastam”.

Documentos relacionados