2.2 Sustentabilidade, Turismo e Responsabilidade Social
2.2.1 Construção da responsabilidade social e turismo
2.2.1.1 Conceito de turismo
Com o fim traumático da Segunda Guerra Mundial, o conhecimento humano (saberes tecnocientíficos) chegou a um nível capaz de destruir as condições de existência da vida na terra. Isso fez com que se reconhecesse a questão ambiental como uma nova maneira de crescimento do seguimento turístico, que reoriente o convívio social e os ciclos naturais com os impactos positivos e negativos da natureza heterogênea do turismo, no qual comprometa a possibilidade de uso dos recursos para as gerações futuras. Com a revolução ambiental emergida na década de 1960, que remontava ao romantismo do século XVIII, a indústria do turismo tem aumentado significativamente suas responsabilidades, relacionando suas atividades perante a sustentabilidade do meio ambiente chamada de “turismo sustentável”. De acordo com a OMT (1999), turismo sustentável é define as relações entre as necessidades dos turistas e as regiões receptoras, contemplando a gestão dos recursos econômicos, sociais e as necessidades estéticas para manutenção da integridade cultural e dos processos ecológicos.
Será que o conceito de turismo sustentável não está fundado no conceito de Desenvolvimento Sustentável? Não seria melhor Turismo Responsável? No âmbito dos conceitos e definições de turismo, Barretto (2003), salienta que existem atualmente 17 definições de turismo.
A definição da palavra turismo é uma matéria bastante controversa e vaga, pois, alguns acentuam os aspectos sociais devido aos benefícios de aproximação entre povos (DIAS, 2003a), outros, os aspectos geográficos devido ao deslocamento voluntário e temporário de uma pessoa, (IGNARRA, 1999), e outros, definem turismo na esfera holística e técnica Beni (2001), e assim por diante, a pesquisa, como forma de orientar o leitor para compreensão do estudo e atender às necessidades de eficácia econômica à eficácia social e ambiental, conceitua a atividade turística, efetivamente em quatro elementos básicos: demanda, oferta, espaço geográfico e operações de mercado (OMT, 1999). Segundo a Organização Mundial do Turismo – OMT/Organização das Nações Unidas - ONU, “turismo” é “atividades que realizam as pessoas durante suas viagens e estadas em lugares diferentes ou
seu entrono habitual, por um período consecutivo inferior a um ano, com finalidade de lazer, negócio ou outras.” (SANCHO, 2001 p.38).
2.2.1.2 Desenvolvimento e Sustentabilidade
Nas últimas décadas, tanto os estudos a níveis acadêmicos quanto a níveis governamentais relacionados às varias dimensões de sustentabilidade (econômico, as questões sociais e a degradação do meio ambiente) alcançaram a necessidade de construção de novos modelos inter, multi e transdisciplinares para a atividade turística. Neste sentido, o paradigma ambientalista representado pelo conceito de desenvolvimento sustentável, extraído do Relatório Brundtland (1988) é um conceito chave para perceber os instrumentos de controle no mundo, sob os pontos de vista econômico, social e ambiental, uma vez que oculta uma crítica ao padrão de desenvolvimento vigente. Segundo a definição clássico o desenvolvimento sustentável é “aquele que atende às necessidades do presente, sem comprometer a possibilidade de as gerações futuras atenderem as suas próprias necessidades”. (Relatório Brundtland, 1988, p.430).
Oficialmente o conceito de desenvolvimento sustentável tem suas raízes no conceito de ecodesenvolvimento surgido na Conferência Internacional para o Meio Ambiente
Humano, realizada na cidade de Estocolmo, em 1972, como possibilidade para enfrentar as
novas visões neoliberalistas de privatização dos territórios dos povos tradicionais, a exclusão deliberante da participação das comunidades nos processos decisórios, o agravamento das desigualdades numa repugnante violação aos diversos meio ambientes e ecossistemas e as novas ideias sobre uma economia em estado de equilíbrio com respeito às diferenças culturais e limitações biofísicas. Contudo, deve-se ressaltar que tanto o conceito de desenvolvimento
sustentável como de ecodesenvolvimento ainda deixam em aberto a reflexão da totalidade
das relações pensadas e praticadas.
Apesar do anúncio da crise ecológica na década de 70, expressada por Ignacy Sachs e Maurice Strong sobre o estilo de vida insustentável dos homens, com desperdício de recursos materiais naturais e humanos, o conceito de “desenvolvimento sustentável” na atividade turística é inspirado no “Our Common Future”, em 1987, (World Comission of Environment
and Development 1987, apud RUSCHMANN, 1999, p.10). Neste sentido, para contribuir com
a confusão dos sentidos ideológicos agregados ao conceito de desenvolvimento sustentável em campos distintos de compreensão, muitos autores desenvolvem novas terminologias com o adjetivo “ambiental” para ajustar-nos a reprodução social capitalista.
Abre-se assim um novo imperativo categórico (ético-responsável de cunho futurista) na formulação de uma moral para o crescimento da humanidade. A ação ética não deve ser para consigo mesma (autárquico e autoreferido). Segundo Hans Jonas (2006) ela deve ter como horizonte a perenização planetária da vida. Considerando a convergência entre o Relatório Brundtland (1988|) e o imperativo da responsabilidade de Hans Jonas (2006), o conceito de desenvolvimento sustentável no estudo implica em uma ética da responsabilidade que atende às necessidades do presente sem comprometer a possibilidade de as gerações futuras atenderem às suas próprias necessidades.
A ideia de desenvolvimento sustentável disseminada e popularizada nas conferencias do RIO 92, a Eco 92, e na Conferencia de Johanesburgo, a Rio+10, em 2002, como meta social está carregada de questões não resolvidas: a falta de mecanismos de responsabilidade no tocante à falta de infra-estrutura básica (água e esgoto) para as comunidades, ao desenvolvimento para compatibilizar os diversos interesses das atividades econômicas às características de uma nova racionalidade produtiva e à dinâmica da educação onde aperfeiçoe a qualidade de vida dos caçadores de um lado e dos coletores do outro. O fato é que um desenvolvimento sustentável descontextualizado de pressupostos fundastes de uma política da diversidade, da diferença e da alternativa, gera resultados inócuos e, muitas vezes, apenas reproduzem na economia, na ecológica, na moral e na cultural a racionalidade produtiva capitalista.
As dimensões pelas quais a questão da sustentabilidade é abordada variam de acordo com o documento e estratégias para atingir a sustentabilidade o meio ambiente. Neste sentido, o conceito de “meio ambiente” foi contextualizado nos aspectos de integrações sociais, econômicos e culturais produzidos por uma cultura simbólica e uma cultura material (SATO, 1995). Descrevendo o conceito de Meio Ambiente segundo a classificação de Sauvé
et al. (2000) modificado por Sato (2001) que considera sete categorias representativas do
ambiente, o estudo associa estas diferentes abordagens e estratégias aos efeitos positivos e negativos da atividade turística.
Representações Palavras-chave Problema identificado Objetivos da EA Exemplos e estratégias Natureza que devemos apreciar e respeitar Preservação, árvores, animais, natureza
Ser humano dissociado da natureza (mero
observador)
Renovação dos laços com a natureza, tornando-nos parte dela
e desenvolvendo a sensibilidade para o
pertencimento
Imersão na natureza, “aclimatização”; processos
de “admiração pelo meio natural Recursos que deves gestionar Água, resíduos sólidos, energia, biodiversidade
Ser humano usando os recursos naturais de uma forma irracional
Manejo e gestão ambiental para um futuro sustentável
Campanhas, economia de energia, reciclagem do lixo e
interface com a Agenda 21
Problemas que devemos solucionar Contaminação, queimadas, destruição, danos ambientais
Ser humano tem efeito negativo no ambiente e a vida está ameaçada
Desenvolver competências e ações
para a resolução dos problemas por meio de
comportamentos responsáveis Resolução de problemas, de estudos de caso Sistema que devemos compreender para as tomadas de decisão Ecossistema, desequilíbrio ecológico, relações ecológicas
Ser humano percebe o sistema fragmentado, negligenciando uma visão global Desenvolver pensamento sistêmico (ambiente como um grande sistema) para as
tomadas de decisões
Análise das situações, modelagem, exercícios para
validação dos conhecimentos e busca de
decisões
Meio de vida que devemos conhecer
e organizar
Tudo que nos rodeia, “oikos”, lugar
de trabalho e estudos, vida cotidiana
Ser humano não solidário e cultura
ocidental não reconhece a relação do
ser humano com a Terra
Desenvolver uma visão global do ambiente,
considerando as interrelações local e global, entre o passado,
presente e futuro por intermédio do pensamento cósmico
Valorização e utilização das narrativas e lendas das comunidades autóctones, discussões globais, enfoques
na Carta da Terra Projeto comunitário com comprometimento Responsabilid ade, projeto político, transformaçõ es, emancipação Ser humano é individualista e falta compromissos políticos com sua própria comunidade Desenvolver a práxis, a reflexão e a ação, por intermédio do espírito crítico e valorando o exercício da democracia e do trabalho coletivo
Fórum ambiental com a comunidade, pesquisa-ação
e pedagogia de projetos
Quadro 4 - Representações ambientais.
Fonte: Categorias das representações ambientais. Traduzido e modificado de SATO (2001).