2. ASPECTOS SOCIOLÍNGUÍSTICOS DO CRIOULO DE CABO VERDE
2.4. CONSTRUÇÃO DO BILINGUISMO FUNCIONAL EM CABO VERDE
Havendo um consenso de que a diglossia é um facto em Cabo Verde e, tendo em conta todos os problemas advenientes da coabitação linguística, expressos nas linhas anteriores deste capítulo, é necessário que se saiba então se essa situação é a mais favorável para Cabo Verde. A maioria dos autores defende que a situação linguística que seria mais favorável para o país, seria uma situação caracterizada pelo bilinguismo real e funcional, ideia com a qual também concordamos, uma vez que esse fenómeno equivale também ao desenvolvimento. Nesse sentido, é necessário esclarecer o que é um bilinguismo real e funcional, quais as suas vantagens e quais os passos a serem dados para que em Cabo Verde essa situação seja uma realidade. Os esforços feitos, no sentido de se implementar uma política linguística que iniba a exclusão do crioulo e para que se reconheça direito de cidadania, quer ao crioulo, quer ao português, ou seja, se valorize a complementaridade entre as duas línguas em Cabo Verde, são já um passo importante nesse sentido.
O bilinguismo funcional e real seria então um tipo de bilinguismo em que os falantes dominariam as duas línguas, quer na vertente oral, quer na escrita, com a mesma performance e competência, o que segundo Crystal citado no Dicionário de Termos Linguísticos é característico de um país em que aos indivíduos se pode reconhecer competência comunicativa ou gramatical em mais do que uma língua.
As vantagens desse tipo de bilinguismo são várias. Um país onde se verifica esse tipo de bilinguismo consegue atrair visitantes de diferentes nacionalidades, facilitando as relações internacionais na comunicação. Além disso, os indivíduos bilingues que habitam esse país, podem adaptar-se facilmente em qualquer país, isto é, conseguem um trabalho e socializam-se rapidamente. Por tudo isso, há quem defenda que a importância do estudo e da valorização desse tipo de bilinguismo resultam das situações socioeconómicas, sociopolíticas e sócio culturais do mundo contemporâneo e globalizado e, neste caso, entendemos que Cabo Verde
não deve por isso constituir uma excepção. É nesta óptica que Tomé Varela da Silva (1998)18 também defende que as duas línguas (entenda-se crioulo e português) não só são cúmplices como também são condições para um desenvolvimento harmonioso, equilibrado e integrador de Cabo Verde e por isso, é necessário uma política linguística visando a construção de um verdadeiro bilinguismo (Tomé Varela da Silva, 1998:114).
Para se alcançar essa complementaridade funcional e social entre as duas línguas em presença em Cabo Verde e para que se alcance o bilinguismo desejado, Veiga (1998) diz que
uma das primeiras condições para a oficialização do crioulo é a existência de um alfabeto e de uma escrita estandardizados. Tal alfabeto deve não só poder representar todas as variantes do crioulo como também poder contribuir para a unificação dessas mesmas variantes (Manuel Veiga 1998:95-96).
Além desse primeiro passo, o mesmo autor (2004:11) considera ainda que outros passos são importantes nesse processo, nomeadamente: a funcionalização e o prestígio do crioulo em todos os níveis de comunicação e domínios de emprego; a promoção e o desenvolvimento da investigação linguística em diversas áreas; o fomento e o estímulo à criatividade literária; o aumento e a valorização do crioulo nos diversos domínios da comunicação; a previsão e a programação, a nível da Reforma da Educação, o ensino do crioulo, a curto, médio e longo prazos e a adequação e rentabilização da metodologia do ensino ao contexto linguístico cabo- verdiano, tendo o crioulo como língua primeira e o português como segunda.
Em Cabo Verde, em 1987, houve uma experiência de ensino bilingue com adultos que teve sucesso, em que a língua portuguesa foi introduzida depois de os alunos serem alfabetizados em língua materna, o crioulo. Entretanto, neste caso, a situação é diferente, pois se tratava de adultos e, como sabemos, os factores que motivam e determinam as aprendizagens nesta faixa etária não são os mesmos que nas crianças. Por isso há que esclarecer muito bem as perspectivas para a construção de um verdadeiro bilinguismo no país.
Pela importância que as duas línguas assumem em Cabo Verde, o crioulo, como suporte identitário e instrumento insubstituível para a integração no todo nacional e o português como suporte de uma parte da visão do mundo que temos e como instrumento eficaz quer para o diálogo intercultural, quer para a integração de Cabo Verde na comunidade internacional, os defensores dessa ideia defendem que a situação linguística que melhor servirá ao país será
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aquela, onde o bilinguismo é um dado real e não uma simples miragem. Por isso, deve- se trabalhar numa perspectiva de transformar o português em língua veicular e do crioulo em língua co-oficial. Com isso o português será aprendido com rigor, por todas as crianças na idade escolar e por todos os estudantes durante a fase académica e os alunos estarão melhor preparados para codificar e descodificar a língua portuguesa, nos diversos domínios do seu emprego, nas diversas funções que exercerem, o que traduzir-se-á na melhoria da qualidade de ensino.
O crioulo por seu lado ao ser transformado numa língua co-oficial vai fazer parte do currículo de ensino como disciplina de estudo e também como instrumento de comunicação e de recurso para possibilitar uma melhor compreensão de outras matérias. O crioulo passará também a estar presente na administração, nos diplomas legais, nas sessões parlamentares, nas comunicações ao país dos òrgãos de soberania, nos meios de comunicação social, na literatura, enfim, em todas as situações formais de comunicação, dentro do país como na diáspora.
É certo que essa transformação implica investimentos, mas os resultados a serem alcançados no futuro serão de certo compensadores. E para evitar eventuais problemas é necessário que esse bilinguismo seja construído de forma paulatina e de acordo com as reais possibilidades de Cabo Verde.
No que se refere à escrita do crioulo, é sabido que o cabo-verdiano fala em crioulo, mas está mais habituado a escrever em português, daí que nesse aspecto, deve-se primar por uma complementaridade entre as duas línguas.
CAPÍTULO III
3. OFICIALIZAÇÃO DA LÍNGUA CABO-VERDIANA: