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4.1 Procedimentos metodológicos

4.1.3 Construção do corpus

4.1.3 Construção do corpus

O corpus da pesquisa é composto por um conjunto de uma (1) acusação criminal e uma (1) defesa criminal. Os dois componentes da amostra foram coletados no júri realizado no dia 24 de abril, do ano de 2017, na cidade de Alagoinha, Paraíba, Brasil. O júri aconteceu em razão da ação penal de um homicídio qualificado que ceifou a vida de J.M.A., disposta no processo de número 0001304-73.2016.815.0521, em face dos acusados W.J.S., R.A.M. e

J.C.G. Mesmo o júri sendo de três acusados, para nossa amostra, coletamos apenas os discursos referentes à defesa e à acusação do réu W.J.S.

O crime julgado aconteceu no município de Mulungu–PB, como um fato típico caracterizado pelo assassinato de J.M.A., pela razão de ele estar denunciando os acusados para a polícia, por eles estarem exercendo o comércio ilegal de substâncias entorpecentes na região. Os acusados já não eram réus primários e tinham nas fichas vários registros de passagem pela polícia; na verdade, já tinham sido acusados em outro júri. Isso tudo para informar que o comportamento dos réus não era dos melhores na localidade; como haviam estado envolvidos com negócios ilícitos, para não voltar à prisão, eliminaram a vítima de modo covarde e por um motivo torpe. Esse crime repercutiu não só na cidade de Mulungu como também em toda região através das mídias digitais e das mídias radiofônicas. Causando nos cidadãos a sensação de medo e a impressão de falta de justiça, por falta de pessoas capazes para denunciar. Até que, por meio de uma denúncia anônima, houve a manifestação de cidadãos da comunidade e isso fez com que a polícia prendesse os acusados.

Por uma questão de esclarecimento, queremos informar o que são acusação e defesa criminais, bem como o lugar que esses gêneros ocupam na base legal jurídica do Processo Penal. O primeiro termo diz respeito à produção da fala da promotora de justiça, que tem por finalidade promover a condenação do réu no Tribunal do Júri. (ACQUAVIVA, 2011). Conforme consta no artigo 476 4 do Código de Professo Penal (CPP), no júri, os debates começam com a fala do representante do Ministério Público (a Promotora) e depois se estende ao Advogado de Defesa. A Promotora terá o tempo de uma hora e meia para formular seu discurso, podendo ter mais uma hora, caso peça réplica. Em relação ao segundo gênero, a defesa criminal, a produção discursiva será formulada por um advogado particular ou por um defensor público e estes têm a função de apresentar a defesa de um determinado réu. A parte que constitui a defesa também terá o tempo de uma hora e meia para produzir seu discurso, bem como poderá ter mais uma hora, em caso de tréplica.

Esses gêneros são criações discursivas expressas pela oralidade e, por esta razão, a promotora e o advogado devem dispor de recursos necessários para que suas comunicações sejam produzidas conforme os padrões de coerção da acusação e da defesa. Sendo assim, a primeira questão que deve ser observada é a criação estilística determinada pelo padrão da linguagem formal. A segunda questão diz respeito à criação estilística que favoreça uma

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Encerrada a instrução, será concedida a palavra ao Ministério Público, que fará a acusação, nos limites da pronúncia ou das decisões posteriores que julgaram admissível a acusação, sustentando, se for o caso, a existência de circunstância agravante. (BRASIL, CÓDIDO DE PROCESSO PENAL, art. 476).

tonalidade agradável caracterizada pelo timbre, pelo ritmo e pela harmonia da voz. Um terceiro requisito que também deve ser considerado é a carga de sentimentos que os oradores devem expressar na construção de suas palavras, bem como a criação da estética de si moldada pela construção de valores ético-morais e cognitivos. Por fim, o último elemento que queremos apresentar é a demonstração de elementos racionais caraterizados pelo requinte de inteligência. Por serem constituídas como gêneros orais, a acusação e a defesa devem ser formuladas para criar a estética do belo e do justo em adequação ao caso, visto que as pessoas ouvintes podem se deixar levar pela beleza e pelo encanto das palavras, razão esta que pode influenciar o resultado do júri, estimulando o estado de espírito do conselho de sentença. Como propõem Bubnova, Baronas e Tonelli:

A voz é, assim, a fonte de um sentido personalizado; atrás dela há um sujeito pessoa; mas não se trata de uma ―metafísica da presença, dos sentidos pré-existentes e imóveis, nem de algo fantasmagórico, mas de um constante devir do sentido permanentemente gerado pelo ato-resposta, que vai sendo modificado no tempo ao ser retomado por outros participantes no diálogo. (BUBNOVA, BARONAS e TONELLI, 2011, p. 274).

A defesa e a acusação são tipos de enunciados nos quais a intenção discursiva dos falantes é organizada, sequenciada e produzida pela determinação de quatro momentos padronizados, a conhecer: a saudação; a defesa e a acusação propriamente ditas, onde acontece a exposição dos fatos e a exposição das provas; a orientação para os quesitos; e os agradecimentos. Esses quatro elementos correspondem às quatro etapas da estrutura estável desses dois gêneros. Por serem considerados gêneros retóricos, é a composição do corpo de jurados que determina o modo como os debatedores devem criar a comunicação argumentativa mediante o caso específico, pois essa relação entre falantes e ouvintes é o fato preponderante para que seja efetivada a imbricação da língua na vida. Em relação a isso, na TDL, encontramos um aspecto emblemático caracterizado pela limitação de criação estilística do enunciador, um problema que diz respeito à coerção do gênero em relação à possibilidade de o falante não poder usar o máximo de criatividade na produção de enunciados. De acordo com Bakhtin, “todo estilo está indissociavelmente ligado ao enunciado e às formas típicas de enunciado, ou seja, aos gêneros do discurso”. (BAKHTIN, 2011, p. 265). Esse ponto de vista demonstra que o sujeito tem total liberdade para construir seu enunciado, de modo que o considere relevante em relação à sua intenção discursiva. No entanto, o mesmo autor deixa claro que essa liberdade fica restrita para a criação estilística em gêneros que não são literários. Assim, Bakhtin evidencia:

Entretanto, nem todos os gêneros são igualmente propícios a tal reflexo da individualidade do falante na linguagem do enunciado, ou seja, ao estilo individual. Os gêneros mais favoráveis da literatura de ficção: aqui o estilo individual integra diretamente o próprio edifício do enunciado, é um dos seus objetivos principais (contudo, no âmbito da literatura de ficção os diferentes gêneros são diferentes possibilidades para a expressão da individualidade da linguagem através de diferentes aspectos da individualidade). As condições menos propícias para o reflexo da individualidade na linguagem estão presentes naqueles gêneros discursivos que requerem uma forma padronizada, por exemplo, em muitas modalidades de documentos oficiais, de ordens militares, nos sinais verbalizados de produção, etc. Aqui podem refletir-se não só os aspectos mais superficiais, quase biológicos da individualidade (e ainda assim predominantemente na realização oral dos enunciados desses tipos padronizados). (BAKHTIN, 2011, p. 265).

A razão dessa limitação está no fato de a defesa e a acusação serem consideras tipificações de enunciados que só produzirão um resultado adequado em relação à intenção discursiva se forem estruturadas nessa ordem dos quatro momentos que apresentamos. Em vista disso, as limitações são determinadas porque, no momento da saudação, por exemplo, os oradores não podem e não devem realizar a sustentação da defesa ou da acusação; pelo contrário, esse é um momento no qual a promotora ou o advogado se cumprimentam e também aos outros participantes do júri. Outras limitações podem ser estabelecidas caso os debatedores realizem ações diferentes das que exigem cada etapa.

Conforme defende Bakhtin, a razão da limitação da criação estilística é sustentada porque “na maioria dos gêneros discursivos (exceto nos artísticos-literários), o estilo individual não faz parte do plano do enunciado, não serve como um objetivo seu, mas é, por assim dizer, um epifenômeno do enunciado, seu produto complementar”. (BAKHTIN, 2011, 265 – 266). Por outro lado, como não existe a restrição total na criação estilística, o autor elucida que “em diferentes gêneros podem revelar-se diferentes camadas e aspectos de uma personalidade individual, o estilo individual pode encontrar-se em diversas relações de reciprocidade com a língua nacional”. (BAKHTIN, 2011, p. 266). Nesse sentido, aplicando esse entendimento ao processo de construção discursiva da defesa e da acusação, podemos afirmar que o todo da ética estilística exercerá influência na criação do segundo momento desses gêneros, isto é, na fundamentação. A razão disto é porque na normatização do processo penal, embora exista a determinação do tempo e da ordem das falas dos debatedores, não existe uma prescrição que determine um padrão de como o discurso deve ser construído, ou que estipule os tipos de argumentos que devem ser utilizados. Os oradores são livres para que,

conforme as regras do estilo da linguagem formal, possam preencher suas falas com os tons necessários e adequados à sua intenção argumentativa.

A escolha desses gêneros é justificada devido ao fato de constituírem instâncias discursivas nas e pelas quais acontece o evento da acusação e da defesa, ou seja, por organizarem e estabelecerem, relativamente, o lugar da luta dialógica que determina a materialização das intenções dos sujeitos enunciadores. Ademais, é nesses tipos discursivos que podemos observar o modo como, argumentativamente, a dialogia constitui as EA. Outra razão relevante da seleção é por que nesses gêneros podemos identificar o diálogo marcado, ou não, de outros gêneros referentes ao todo do processo, como por exemplo, a denúncia, o auto de prisão em flagrante, o laudo de exame técnico pericial, a audiência de instrução etc. Isso está sendo dito para informar que não foi necessário utilizar outros gêneros, pois, na própria tessitura da acusação e da defesa, encontramos possíveis diálogos com alguns desses gêneros que constituem o todo do Processo Penal.

O procedimento da coleta dessas produções discursivas aconteceu da seguinte maneira: (1) fomos até ao Fórum onde aconteceu a sessão do júri; (2) pedimos autorização das partes para podermos participar do e gravar o júri; (3) gravamos as duas produções através de um gravador digital (Mini Gravador Digital Sony ICD – PX 333); e, por fim, (4) fizemos a transcrição dessas produções.