3. MÉTODO
3.2. FASES DA PESQUISA
3.2.2 Construção e Validação do Framework e Roteiro de Pesquisa
A elaboração do framework e roteiro de pesquisa para estudo de caso está estruturada em três etapas nominadas: 1) Construção do Framework; 2) Construção do Roteiro de Pesquisa 3) Validação do Framework e Roteiro de Pesquisa (Estudo de Caso).
Construção do Framework
Considerando o objetivo geral da pesquisa que é “Propor um framework que contemple dimensões de análise e abordagens de design para inovação social”, este estudo utiliza-se do próprio processo de concepção do framework e do roteiro de pesquisa, como balizadores das etapas de pesquisa. De forma prática, Jabareen (2009) indica que a construção de um framework se baseia em um processo de teorização da literatura multidisciplinar existente. Já para a técnica de análise (dados, processos e procedimentos), o autor propõe uma análise conceitual do
framework que visa gerar, identificar e traçar os maiores conceitos do fenômeno, assim como desenvolver conceitos com seus próprios atributos, características, limitações e perspectivas distintas.
Como produto final, o framework pode apresentar diferentes estilos e representações: “Normalmente são projetados na forma de gráficos e diagramas, e são acompanhados por textos exploratórios. Além disso, esses instrumentos podem ter vários níveis organizados para facilitar sua visualização e compreensão.”
(SHEHABUDEEN et al., 1999 apud DELGADO, 2016, tradução nossa).
Quanto à análise dos dados do framework, a literatura selecionada deve ser variada e relevante, representando efetivamente o fenômeno quanto às suas características sociais, culturais, políticas e ambientais, que serão a base empírica para o desenvolvimento da análise do framework. O processo de análise do framework sugere interação contínua entre coleta e análise de dados (JABAREEN, 2009). Para a construção de um framework, Jabareen (2009) define oito etapas:
1) Mapear a literatura;
2) Ler e categorizar os dados;
3) Identificar conceitos;
4) Desconstruir e categorizar os conceitos;
5) Integrar conceitos
6) Sintetizar, e construir sentido;
7) Validar o framework;
8) Repensar e revisar o framework.
A partir das etapas indicadas por Jabareen (2009), define-se:
- O mapeamento da literatura é feito em uma das fases macro, a Pesquisa Bibliográfica por meio da RBA;
- A leitura e categorização dos dados obtidos a partir da pesquisa bibliográfica, depois de lidos e classificados, com auxílio de um quadro, resultam no delineamento inicial do framework;
- A identificação dos conceitos é feita após a leitura e categorização dos dados, organizadas em quadros, contribuindo para o segundo delineamento do framework;
- A desconstrução e categorização dos conceitos é trabalhada em quadros, contribuindo para o delineamento do framework;
- A integração dos conceitos consiste no último delineamento do framework antes de sua concepção final, também realizado com auxílio de um quadro;
- A síntese e construção de sentido, é a última etapa, onde o framework é proposto. Para representá-lo graficamente, utiliza-se um editor de imagens;
- A validação do framework é feita com a aplicação do roteiro de pesquisa em estudo de caso;
- A revisão do framework mostra-se como uma atividade contínua, a ser realizada periodicamente, conforme a necessidade percebida do pesquisador.
Construção do Roteiro de Pesquisa
O estudo de caso, segundo (Yin, 2001), é caracterizado por ser empírico, indutivo, e observacional e tem o objetivo de investigar um fenômeno em seu contexto real. O estudo de caso é considerado a estratégia ideal quando se quer responder questões “como e porque” sobre um assunto específico, sendo que o método em questão contribui para a compreensão de fenômenos sociais complexos.
De acordo com Dresch et al., (2015), o estudo de caso permite descrições e relatos de fenômenos baseados em fontes de dados distintos e combinados.
De acordo com Yin (2001), as evidências para um estudo de caso podem ser coletadas por meio de seis fontes: documentos, registros em arquivo, entrevistas, observação direta, observação participante e artefatos físicos. Nesta pesquisa, opta-se por utilizar documentos, entrevista e obopta-servação direta como fonte de coleta de evidências.
Diferentemente da pesquisa bibliográfica, a pesquisa documental utiliza como base, materiais que não receberam tratamento analítico ou que podem ser trabalhados de acordo com os objetivos da pesquisa (GIL, 2008). Prodanov e Freitas (2013) compreendem que os materiais a serem usados para a investigação e como
fonte de informação, necessitam de leitura e crítica por parte do pesquisador.
Yin (2001), estabelece que os documentos devem ser o objeto de planos explícitos de coleta de dados. O autor considera como fonte os seguintes materiais, que podem ser observados no Quadro 24:
QUADRO 24 - EXEMPLOS DE DOCUMENTOS
Fonte: A autora (2018), com base em Yin (2001), p. 107
As entrevistas atuam como importantes fontes de informação, consideradas essenciais para obter evidências em estudos de caso (YIN, 2001). Prodanov e Freitas (2013) consideram a entrevista uma técnica ideal devido a sua facilidade de aplicação, sendo realizada pessoalmente, a partir da descrição verbal dos informantes.
Gil (2008) afirma que a entrevista é uma das técnicas de coleta de dados mais utilizadas no âmbito das ciências sociais, descrevendo-a como: “uma forma de interação social, um diálogo assimétrico, em que uma das partes busca coletar dados e a outra se apresenta como fonte de informação.” (GIL, 2008, p. 109). Dessa forma, as entrevistas pressupõem a formulação de perguntas ao investigado pelo investigador, que busca obter dados que interessam à sua investigação.
A entrevista auxilia na obtenção de informações complexas das pessoas quanto ao que: “sabem, creem, esperam, sentem ou desejam, pretendem fazer, fazem ou fizeram, bem como acerca das suas explicações ou razões a respeito das coisas precedentes.” (GIL, 2008, p. 109 apud SELLTIZ et al. 1967, p. 273).
De acordo com Prodanov e Freitas (2013), a entrevista é sempre realizada face a face e tem como pré-requisito, um roteiro de questões preestabelecidas e organizadas na sequência a serem formuladas. De acordo com os autores, uma das modalidades de entrevista, é a entrevista estruturada que segue um roteiro preestabelecido, com base em formulário elaborado com antecedência, e que será
utilizada nesta pesquisa.
As observações diretas podem ser feitas durante a visita de campo ao local escolhido para o estudo de caso na data da entrevista. Tais observações podem incluir a identificação de comportamentos ou condições ambientais relevantes, que podem ser registrados em fotografia, ajudando a transmitir as características observadas. (YIN, 2001).
Gil (2008) compreende que a observação, que denomina simples, é realizada por um pesquisador alheio à comunidade, grupo ou situação que pretende estudar, que observa espontaneamente os fatos que ocorrem na situação, podendo também ser chamada de observação-reportagem uma vez que apresenta características comuns às técnicas jornalísticas. O autor recomenda três itens a serem considerados em uma observação: os sujeitos, o cenário e o comportamento social, conforme é demonstrado no Quadro 25.
QUADRO 25 - EXEMPLOS DE ITENS DE UMA OBSERVAÇÃO DIRETA
Fonte: A autora (2018), com base em Gil (2008), p. 102
Gil (2008) ressalta que por mais espontânea e informal que seja a observação, exige-se o mínimo de controle na obtenção de dados, uma vez que, seguindo procedimentos científicos, será analisada e interpretada. Da mesma forma, Yin (2001) indica que as observações podem ser informais ou formais, fazendo parte de um protocolo de estudo de caso.
Considerando as formas de coleta de evidência (documentos, entrevista e observação participante) e a constatação da necessidade de formalização e estruturação de coleta de dados (YIN, 2001; GIL, 1995), esta dissertação se propõe a elaborar um roteiro de pesquisa para estudo de casos de inovação social.
Tratando-se de uma entrevista estruturada, como é a modalidade selecionada
para esta pesquisa, Gil (2008) afirma que o processo de preparação do roteiro é parecido com a redação do questionário, concluindo que um questionário pode ser convertido num roteiro de entrevista e vice-versa.
As questões do estudo de caso representam um ponto central na pesquisa e podem ser organizadas em um documento específico, acompanhadas de indicações de possíveis caminhos sobre como coletar os dados conforme Yin (2001):
“São um conjunto de questões substantivas que refletem a investigação real [...] são questões específicas que o pesquisador do estudo de caso deve manter em mente ao coletar os dados, uma planilha para disposição específica de dados e as fontes em potencial de informações ao se responder cada questão.” (YIN, 2001, p. 91).
Yin (2001) ressalta que as questões formam a estrutura de uma investigação, mas algumas não devem ser feitas literalmente ao entrevistado. Com isso, aponta dois itens a serem observados na elaboração de questões de estudo:
- As indagações, devem ser elaboradas como se fossem feitas ao pesquisador, e não ao respondente, porque são lembretes das informações que precisam ser coletadas e suas razões. O objetivo das questões é de manter o pesquisador focado em seus objetivos à medida que a coleta se desenvolve;
- As questões podem acompanhar possíveis fontes de evidência (como por exemplo: quais documentos ou observações podem ser levantados e feitos). Essa conexão entre questões de interesse e as possíveis evidências, representam uma tática proveitosa na coleta de dados.
Yin (2001) ressalta a importância de o pesquisador seguir um plano formal para a coleta de dados em um estudo de caso, mas que também esteja atento a informações específicas que não estavam previstas. A partir disso, o ideal é que o pesquisador esteja aberto a realizar reflexões e associações ao se deparar com as novas informações.
A partir disso, define-se que para a Construção do Roteiro de Pesquisa, realizam-se as seguintes etapas:
- Indicação dos documentos a serem levantados;
- Indicação de itens de observação direta;
- Elaboração das perguntas da entrevista estruturada derivadas do framework e seus conceitos;
- Síntese do roteiro de pesquisa, onde ocorre a integração da indicação dos documentos a serem levantados, itens a serem observados e a elaboração de perguntas, resultando no roteiro de pesquisa completo.
Validação do Framework e Roteiro de Pesquisa (Estudo de Caso)
O estudo de caso, segundo Yin (2001), tem o objetivo de investigar um fenômeno em seu contexto real, considerado como uma estratégia ideal quando se quer responder questões “como e porque” sobre um assunto específico, sendo que o método em questão contribui para a compreensão de fenômenos sociais complexos. De acordo com Dresch, Lacerda e Antunes (2015), o estudo de caso permite descrições e relatos de fenômenos baseados em fontes de dados distintos e combinados.
Conforme sugere a literatura, primeiramente faz se o estudo de caso piloto, e após o estudo de caso definitivo. Segundo Yin (2001) o estudo de caso piloto auxilia os pesquisadores a aprimorar planos para coleta de dados em relação, tanto aos conteúdos, quanto nos procedimentos propostos, ajudando a alinhar questões relevantes ou até mesmo a providenciar modificações conceituais. Por sua importância, é uma das etapas contempladas na pesquisa.
A definição dos estudos de caso piloto e definitivo é feita a partir de casos catalogados pela professora Liliane Iten Chaves e seus alunos, durante a disciplina de design para inovação social na Pós-Graduação e Graduação no Programa de Design da UFPR a partir do ano de 2009. O objetivo da disciplina era fazer com que os alunos analisassem as iniciativas já existentes, identificando possíveis intervenções de design a serem feitas (CHAVES; FONSECA, 2015).
Nas disciplinas, o levantamento de dados foi feito em consonância com a rede internacional DESIS7, que possui um formato pré-estabelecido para orientar a escolha dos casos, assim como para direcionar as atividades a serem realizadas, para que os estudantes projetem possíveis intervenções nos casos. O formato
7 DESIS (Design for Social Innovation and Sustainability) é uma rede internacional de grupos de pesquisa em Design baseados em Universidades de diversos países e tem como foco reforçar o papel do Design nos processos de Inovação Social, desenvolvendo projetos tanto dentro de comunidades locais, para promover seu desenvolvimento local, como fora, criando ferramentas e conhecimentos que permitem definir como o papel e as capacidades de Designers são percebidos. (DESIS, 2018) – acesso em 8 de fevereiro de 2018, tradução nossa.
fornecido pela rede DESIS trata-se de um toolkit composto por documentos e formatos de apresentação em PowerPoint (CHAVES; FONSECA, 2015).
O toolkit organiza-se em uma sequência de quatro passos, sendo eles: 1) Levantamento de casos promissores; 2) Coleta de dados e preenchimento da documentação dos casos selecionados; 3) Exercício de design através da organização de um workshop; e 4) Disseminação dos resultados (CHAVES;
FONSECA, 2015). Na etapa de levantamento de casos promissores, os critérios se baseiam no projeto EMUDE8, conforme descritos no Quadro 26.
QUADRO 26 - CRITÉRIOS DE ESCOLHA DOS CASOS
Fonte: Elaborado pela autora (2018), com base em Chaves e Fonseca (2015) p. 6
De acordo com os dados fornecidos pela professora Liliane Iten Chaves, foram coletados ao todo 27 casos promissores nos anos de 2009, 2010, 2012, 2014, 2015 e 2016. No Quadro 27, apresentam-se os casos coletados.
8EMUDE (Emerging User Demands for Sustainable Solutions) financiado pela Comunidade Europeia no 6° Programa Quadro, em 2006. O EMUDE, em conjunto com outras duas atividades (documento sobre Consumo e Produção Sustentáveis, do Ministério do Ambiente sueco e a UNEP (Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente ou United Nations Environment Programme), denominado, Creative Communities for Sustainable Lifestyles (CCSL), em 2008 e a Conferência Internacional Changing the Change, realizada em Torino, nas atividades para Torino World Design Capital, em 2008), motivaram a origem da rede DESIS (CHAVE;
FONSECA, 2015).
QUADRO 27 - CASOS COLETADOS PELA PROFESSORA LILIANE ITEN CHAVES
COLETA NOME DO CASO CIDADE ESTADO PAÍS
CURSO DE EXTENSÃO
Moeda Social Apuanã Acre Brasil
Lavanderia Coletiva Denver Hill Curitiba Paraná Brasil Jardinagem Libertária Curitiba Paraná Brasil Bicicletada Curitiba Curitiba Paraná Brasil
DISCIPLINA DA GRADUAÇÃO
Carona Brasil Curitiba Paraná Brasil
Casa da Videira Curitiba Paraná Brasil Freecycle Curitiba Curitiba Paraná Brasil Pré-Vestibular em Ação Curitiba Paraná Brasil
PROBEM Curitiba Paraná Brasil
DISCIPLINA
PPGDESIGN Aldeia Coworking Curitiba Paraná Brasil
DISCIPLINA PPGDESIGN
Freguesia do Livro Curitiba Paraná Brasil
Ciclovida Curitiba Paraná Brasil
Carona solidária na UFPR Curitiba Paraná Brasil
DISCIPLINA PPGDESIGN
Bosque da Casa Gomm Curitiba Curitiba Brasil Brechic Solidário Curitiba Paraná Brasil Caminhadas Observacionais de Curitiba Curitiba Paraná Brasil
Centro Comunitário Parque das Águas
Claras Piraquara Paraná Brasil
Espaço Cultural Casa Iririú Joinville Santa
Catarina Brasil Grife Social Omunga Joinville Santa
Catarina Brasil Movimento de Mulheres da Primavera Guarapuava Paraná Brasil Praça de Bolso do Ciclista Curitiba Paraná Brasil
DISCIPLINA PPGDESIGN
A Casa é Sua Curitiba Curitiba Brasil Casa da Videira - Comida Relacional Palmeira Paraná Brasil Coletivo Alimentar Curitiba Paraná Brasil
DISCIPLINA PPGDESIGN
Algramo Santiago Santiago Chile
Auguri Curitiba Paraná Brasil
CSA Curitiba Curitiba Paraná Brasil
Fonte: A autora (2018)
A partir disso, define-se que para a Validação do Framework e Roteiro de Pesquisa (Estudo de Caso), realizam-se as seguintes etapas:
- Definição do estudo de caso piloto;
- Estudo de caso piloto;
- Definição do estudo de caso definitivo;
- Estudo de caso definitivo.
O caso escolhido para estudo piloto foi o Auguri, coletado no ano de 2016, na disciplina de Pós-Graduação, que trabalha com o reaproveitamento de flores usadas na decoração de festas de casamento, transformando-as em buquês e doando-as para idosos em casas de repouso. Para o estudo de caso piloto, foi testado um esboço do roteiro de pesquisa aplicado por meio de entrevista, que buscava compreender as dimensões da inovação social e as abordagens de design. Com o resultado da aplicação piloto, percebeu-se a necessidade de um aprofundamento maior em relação ao roteiro de pesquisa. As providências foram tomadas e o roteiro de pesquisa, agora mais consolidado e completo, formulado a partir do framework, é aplicado no estudo de caso definitivo.
O estudo de caso definitivo escolhido foi a Casa da Videira, coletado no ano de 2009 na disciplina de Graduação em Design. A Casa da Videira foi escolhida, pois se apresenta como um caso completo, propondo soluções voltadas à sustentabilidade do ponto de vista ambiental, social e econômico, principalmente a partir da discussão em torno da naturalização do alimento. Além disso, seu representante, Cláudio Oliver demonstrou interesse em contribuir com esta pesquisa assim que recebeu a carta de apresentação, onde os objetivos do trabalho foram detalhados e o convite feito para que colaborasse com estudo (a carta de apresentação pode ser analisada no Apêndice B). Com a resposta positiva de Cláudio, o estudo foi viabilizado.
Os resultados da Construção do Framework e do Roteiro de pesquisa, assim como sua validação a partir do estudo de caso são elaborados confrontando a teoria trazida no Capítulo 2 (Fundamentação Teórica), apresentados no capítulo seguinte.