O CORAÇÃO QUER O QUE O CORAÇÃO QUER
1. A construção do regime emocional recifense e as disputas entre o amor moderno e tradicional
Um dos pontos pacíficos nos estudos em Antropologia e em Sociologia é que todo grupo sócio-cultural se organiza de acordo com leis, limites e garantias ao que fazem os indivíduos dentro do grupo. Regras culturais e sociais que vão desde a produção artística até a forma de lidar com os transgressores, passando certamente pela forma de tratar as emoções dentro do grupo social, o que os(as) autores(as) especialistas no assunto chamam de regime emocional (REDDY, 2001) ou comunidade emocional (ROSENWEIN, 2002).
Segundo a definição de Reddy (2001, p. 55), regimes emocionais (emotional regimes, no original) são espaços emocionais dentro de culturas e grupos humanos, criados com o objetivo de controlar as formas emocionais, definindo diferentes valorações para cada emoção (e suas diversas expressões), tendo em vista atender/sancionar as expectativas individuais. Desta forma, o regime emocional (ou um enorme superego, para usar um termo da psicanálise) determina como, quando e de que forma os desejos individuais podem ser atendidos sem prejuízos para a coletividade (REDDY, 2001, p. 60-62). Um regime emocional institui, portanto, quais objetivos emocionais (emotional goals, no original) são pertinentes, quais emoções devem ser vistas com aversão e quais devem ter seu apetite estimulado, bem como os limites de valência dentro dos quais é possível se expressar uma emoção (REDDY, 2001, p. 21-23). No nosso caso, perceberemos que o amor tem por objetivo hegemônico no regime emocional recifense vintista e trintista o casamento e a constituição de família; é uma emoção de apetite estimulado, cuja valência encontra seus limites no ciúme violento e no hedonismo, que são, por sua vez, emoções adversas e de baixa valência, pois seus objetivos são meramente a destruição do ser amado(a) quando este torna-se infiel, e a obtenção de prazer, tornado a emoção coincidente com seu objetivo.
Embora a literatura em filosofia e em psicologia tenha tendido para a associação estática entre ciúme e amor (ROUGEMONT, 2003), esta não é certamente uma junção correta para todos os grupos, ao longo de toda a história – e a forma como os(as) jovens do século XXI estabalecem relações ficando, e como eles lidam com o ciúme já parece ser suficiente para defender este argumento. O
ciúme como um elemento do amor faz parte de regimes emocionais bastante específicos, bem como sua valorização como algo, até certo ponto, desejável dentro de um relacionamento.
A presença recorrente de crimes motivados pelo ciúme, o elevado índice de processos por crimes passionais e a presença de artigos sobre honra e o direito do homem separar-se da mulher cuja virgindade tenha sido perdida antes do casamento são indicativos de que o ciúme era um componente presente nas práticas amorosas dos(as) recifenses vintistas e trintistas. Isso não quer dizer, entretanto, que o ciúme fosse necessariamente algo que se desejasse no amor.
Isto nos revela um traço bastante importante a respeito da construção dos regimes emocionais: as práticas amorosas não tem a ver, necessariamente, com os objetivos que a comunidade emocional elege. Em outras palavras, embora o ciúme não fosse algo valorizado como ideal amoroso, ele era certamente um item presente nas práticas amorosas. Reddy e outros argumentam que isto acontece por causa do difícil balanceamento existente entre os desejos, os ímpetos e as vontades dos indivíduos dentro de um regime, e as concessões que eles tem de fazer para manter este mesmo regime funcionando: conflitos entre instâncias distintas do eu e da sua interação com os outros; conflitos entre coisas que, grosso modo, os psicanalistas convencionaram chamar id, ego e superego.
Contudo, estas considerações não explicam por que uma mesma faceta de uma emoção pode flutuar de desejável a indesejável. No caso particular do Recife nos anos 1920 e 1930, a resposta parece estar localizada em outra emoção e na sua forma mais característica de expressão: a raiva e a violência. Vários autores (DEMAUSE, 1982; ELIAS, 1994b, 1995; STEARNS, apud ROSENWEIN, 2002) já se debruçaram sobre a relação entre a tentativa de controle do coração e das emoções, e o desenvolvimento da Civilização Ocidental. Na leitura desses autores, os indivíduos inseridos na Civilização Ocidental caminharam no sentido de tentar “controlar o coração”, fazendo com que os traços mais fortes e arrebatadores das emoções fossem amainados e controlados. Esta tentativa foi referendada pela vontade de controlar os elementos que aproximam os seres humanos de outros animais, para torná-los cada vez mais civilizados, fazendo com que a violência ciumenta passasse a ser encarada como indesejável e perniciosa para o mulher e o homem civilizados.
Em outros pontos deste trabalho já discorremos a respeito do repúdio de jornalistas das mais variadas frentes (jornais e revistas) a respeito dos homens que assassinavam ou espancavam suas amásias motivados por ciúmes, e como o repúdio estava associado ao “barbarismo” destes crimes, incompatíveis com uma cidade moderna e civilizada como o Recife. Esta forma de pensar não foi, como já dissemos, suficiente para dissociar ciúme e amor
Silencioso ou expansivo, calmo ou violento, educado ou escandaloso – o ciúme tem todas essas modalidades – ele vibra no coração da humanidade. E o amor do homem – a namorada, a amante ou a esposa (pois que o amor não distingue tais convenções) – é colocado bem alto, tão isolado de tudo, que ele não admite que outros olhos o olhem, nem ao menos que (como se isso fosse possível) pensamentos de outrem se fixem sobre o projeto em torno daquilo que se lhe tornou pensamento constante. Egoismos? Seja. É
ciúme: é o amor (grifo nosso)143.
Em seu discurso, Andrade admitia vários tipos de ciúme: silencioso ou expansivo, calmo ou violento, educado ou escandaloso. Localiza sua origem no amor do homem pela mulher, que o impede de aceitar que outro se coloque entre os dois. Constrói uma relação sintética e direta entre ciúme e amor: um é o outro, e o outro é um. Aquele que ama não pode, portanto esquivar-se de ser ciumento.
No mesmo ano da matéria de Andrade, Pamplona escreveu a matéria para o Diário de Pernambuco em que faz coro ao colega e ao time dos que achavam o ciúme algo desejável, que apimenta e complementa o amor
Há quem o pinte em cores tenebrosas, há quem o imagine doce e belo, julgando-o imprescindível à perfeição do amor. [...] Se o ciúme é a causa de muita desgraça pelo menos provoca, também, grandes alegrias e completa, de certo modo, o sentimento amoroso144.
O mesmo ciúme que provoca coisas tenebrosas é o que traz alegrias. Pamplona completa: “A civilização não consegue domar o egoísmo humano; para a satisfação amorosa é necessário que ele exista”145 – por maior que fosse a tentativa de controle, o coração sempre daria uma volta na civilização e continuaria a tentar atender seus desejos, a obter o que lhe dá prazer.
143
ANDRADE, H. O ciúme. Jornal do Commercio. Recife, 1º out. 1937.
144
PAMPLONA, M. S. O mal do ciúme. Diário de Pernambuco. Recife, 11 jul. 1937, p. 2.
145
A pesquisadora Anne-Marie Sohn concorda que as coisas mudaram, pois a partir do período entre as guerras, “Para a opinião pública, o marido violento não era mais o senhor, mas um homem brutal, desaprovado” (SIMMONET, SOHN, 2003, p. 137).
Esta forma de perceber o ciúme e o amor como conexos tem a ver com outro mito que adquiriu força no Ocidente. Exploramos este mito da emoção amorosa no início deste capítulo e retomaremos agora.
Há pouco tempo, a conceituada revista National Geographic (Brasil) publicou uma matéria sobre a química e biologia do amor146. Em outras palavras: aquilo que acontece no microverso que forma nossos cérebros e nossos corpos quando amamos. Um das conclusões foi particularmente interessante – amar é algo próximo da loucura, tanto nas características biológicas, quanto nas reações químicas provocadas no corpo: “O amor e o transtorno obsessivo-compulsivo podem ter um perfil químico similar. Tradução: pode ser difícil distinguir entre amor e doença mental. Tradução: não seja tolo, evite”147.
O amor e os transtornos obsessivos-compulsivos guardariam entre si não somente o desequilíbrio nos níveis de serotonina (neurotransmissor que, dentre outras coisas, é responsável pela regulação do sono, do apetite e do ritmo cardíaco), mas as alterações comportamentais provocadas por ele. Obsessivos-compulsivos e amantes centrariam suas atenções nos objetos/seres que provocam o desequilíbrio, apresentando pouco ou nenhum interesse por outras coisas da sua vida, chegando, inclusive, a apresentar comportamentos bastante distintos do “regular” quando diante da coisa amada, compulsionada – o que reforça o ponto de vista dos makacêses e a sua interpretação de tais reações como próprias de uma doença com origem em magia má (garring lolo), e não em uma emoção.
A que retornamos com isso? Ao mito de Eros, do Cupido todo-poderoso que submete seus alvos a uma paixão desenfreada. Sim, paixão. O amor arrebatador e incontrolável imortalizado e consagrado em inúmeras expressões culturais do Ocidente.
É preciso dizer, entretanto, que o amor moderno não trazia as mesmas relações de apetite e de valência que o amor tradicional em relação ao ciúme (bem
146
SLATER, L. A fórmula do amor. National Geographic (Brasil). São Paulo: Abril, fev. 2006, p. 36- 53.
147
como em relação a outros elementos). As melindrosas e as modernas, os almofadinhas e os flirtantes não se preocupavam muito com a quantidade de parceiros e de flirts que uns e outras já tiveram, como já dissemos anteriormente. Isto porque a forma de perceber uma atitude como traição tem valência maior. Dentro do amor tradicional, flirtar, comprar presentes para diferentes flirts ou deixar mais de um homem assinar o seu álbum são exemplos de atitudes de traição. Para o amor moderno, não. Flirtar, presentear e assinar álbuns são atitudes comuns.
Segundo Rougemont (2003) a provável origem do mito do “amor arrebatador” repousa no descontrole apresentado por muitos dos amantes, que leva-os a agir em desacordo com seus interesses (objetivos) em outras áreas (emoções). A literatura romântica está cheia de exemplos de heróis e heroínas que complicaram suas vidas em nome de um grande amor: Hermengarda e Eurico, Ivanhoe e Rowena, Julie e Saint-Preux, Tristão e Isolda – analisados por Rougemont – são exemplos de protagonistas que padeceram deste mal. Todos eles nutrem um amor que não conhece limites nem freios – a não ser aqueles impostos pelo próprio amor, que repousa quase sempre no respeito pela e no receio de desonrar a amada (a imagem da espada entre Tristão e Isolda é exemplar a este respeito). Diferente de Rougemont, não me iteressa aqui a análise da constituição do mito do amor e da paixão romântica, tampouco é nosso material privilegiado a literatura. Minha preocupação neste ponto é perceber a permanência e as formas de tratar esta relação amor-paixão no regime emocional em 1920 e 1930. Assim, continuemos.
Em 22 de janeiro de 1939, o Diário de Pernambuco publicou na sua seção