Capítulo II – Inserção profissional: perspectivas teóricas e demais conceitos
2.2 Sobre o músico e o seu percurso de inserção profissional
2.2.2 Constructo conceitual de percurso de inserção profissional do
Apresento agora o constructo conceitual do percurso de inserção profissional
do músico, em especial, do músico que passa por uma educação formal, apresentado após
a primeira etapa da pesquisa (Figura 1). De acordo com Martins e Pelissaro (2005, p. 83),
“para explorar empiricamente um conceito teórico, o pesquisador precisa traduzir a
assertiva genérica do conceito em uma relação com o mundo real, baseada em variáveis
e fenômenos observáveis e mensuráveis, ou seja, elaborar um constructo e
operacionalizá-lo”. Para os autores, os constructos possuem uma existência sistêmica,
podendo “ser entendidos como operacionalizações de abstrações que os cientistas sociais
consideram nas suas teorias”.
Um constructo é uma variável – conjunto de termos, de conceitos e de
variáveis –, isto é, uma definição operacional robusta que busca
representar empiricamente um conceito dentro de um quadro teórico
específico. Como se pode depreender, um constructo poderá ser um
embrião de um modelo (MARTINS; PELISSARO, 2005, p.83).
Na sequência, busco clarificar e desenvolver as ideias expostas na figura 1,
cuja proposta de constructo ainda era difusa e rudimentar. Primeiramente, pondero que
12 […] success is the achievement of a sustainable career within which intrinsic satisfaction is found and
self-identity established. This requires a fresh new look at the key elements: the musician, the cultural
industries and performance-based education and training. […] musicians are much, much more than
performers, and that success as a musician should be measured not by the number of recitals and recordings,
but by the ability to build a sustainable career with a variety of different roles that satisfy both personal and
professional needs.
os percursos de inserção profissional dos músicos ocorrem dentro de um ou mais sistemas
culturais, considerados por Rubim (2011, p. 106) como complexos conjuntos de
“momentos que se complementam e dinamizam a vida cultural”. O funcionamento desses
sistemas é fator determinante para se traçar tais percursos, tanto através dos espaços de
educação oferecidos, sendo a Formação um momento do sistema cultural essencial para
a fluidez do movimento cultural, quanto através do funcionamento dos espaços de
trabalho/emprego.
Figura 1: Percurso de inserção profissional do músico.
Uma vez que considero que o percurso possa ocorrer em sistemas culturais
diferentes, me refiro aos lugares pelos quais os músicos podem percorrer durante sua
formação e/ou trabalho/emprego, cujos sistemas culturais podem funcionar de maneira
totalmente diferente. A complexidade do sistema cultural não depende apenas do tamanho
e da população das localidades, mas também de como o Estado, os indivíduos e as
diversas instituições e setores se comportam em relação à cultura. Pensando em exemplos
práticos, das cidades que abrigam os CEM pesquisados, as três menores possuem bandas
de música. Em duas destas cidades, a presença das bandas interfere no funcionamento do
CEM, o conservatório recebe alunos formados inicialmente pela banda e vice-versa, e
muitos dos instrumentos oferecidos pelo CEM, estão contidos na formação instrumental
da banda. Porém, em uma das cidades, o funcionamento do conservatório não sofre
interferência nenhuma da banda de música da cidade. Outro exemplo diz respeito ao
egresso do CEM que opta por ficar em suas cidades ou ir para uma cidade com uma vida
cultural mais agitada, e, consequentemente, um mercado de trabalho mais amplo e uma
maior diversidade de atividades profissionais. Provavelmente, as oportunidades de
trabalho/emprego serão bastante distintas.
Como dissertado no primeiro capítulo, a inserção profissional acontece entre
os espaços de educação e trabalho/emprego, de maneira, cada vez mais, não linear. A
crise de empregos dos anos de 1970 complexifica as relações profissionais, uma vez que
diminui as oportunidades de emprego e leva os indivíduos a buscarem novas alternativas
de se manterem no mercado (ALVES, 2003). O mundo pós-moderno, globalizado e
conectado, traz uma gama de novas atividades profissionais e oportunidades de
profissionalização como nunca visto anteriormente, o que gera um “mosaico de
trajetórias” profissionais dos indivíduos (ROCHA-DE-OLIVEIRA, 2012). Isso faz com
que o indivíduo da atualidade se permita vivenciar experiências profissionais
diversificadas, como experimentar uma modalidade de formação profissional sem o
compromisso de se inserir no mercado, e recomeçar profissionalmente quantas vezes
forem necessárias.
Tanto os espaços de educação como os espaços de trabalho/emprego do
músico são influenciados pelas características de sua profissão, pelos elementos
subjetivos e pelos fatores secundários que influenciam a inserção profissional, idade, sexo
e lugar, defendidos por Alves (2003). Concebo o percurso de inserção profissional do
músico como peculiar, em comparação à inserção profissional de outros profissionais que
são dependentes primeiramente de um diploma para começar a exercer a profissão. Como
referido anteriormente, a profissão do músico se legitima pelo “saber fazer” (MORATO,
2009). Na maioria dos espaços de atuação do músico, excluindo alguns empregos da
docência que exigem licenciatura e algumas orquestras que exigem bacharelado, o que
valida a presença do músico naquele espaço é a qualidade da sua produção musical. Tal
fato faz com que as esferas do campo de inserção profissional (preparação, transição e
integração) apresentadas por Franzói (2011), sejam, em muitos percursos, mescladas,
porque diferentemente dos percursos de outras profissões, a esfera de preparação, ligada
à educação formal, não precisa, necessariamente, ser a primeira. Existem casos de
músicos que já atuavam profissionalmente quando foram buscar educação formal. Isso
acentua a não linearidade do percurso de inserção profissional do músico e complexifica
o mosaico de trajetórias na área.
Pondero que a não linearidade no percurso de inserção profissional do
músico é histórica e acontece desde muito antes da inserção profissional ser considerada
um problema social, nos anos de 1970. O músico convive com a precarização e
flexibilização do seu trabalho, características comuns ao mercado de trabalho geral da
atualidade, desde os primórdios da profissão. No decorrer da história, o músico já foi
escravo, foi servo, viveu à mercê do patrocínio de nobres e família abastadas, trabalhando
para atender os seus gostos e vontades, sendo que, hoje, vive de cachê, envolvendo-se em
múltiplas atividades profissionais, em sua maioria casuais, contingentes e descontínuas.
O histórico de precarização e flexibilização da profissão impulsiona uma desvalorização
do trabalho do músico, que, muitas vezes, não é considerada uma atividade profissional
como as demais, pelos vários segmentos da sociedade.
Busquei resumir os elementos subjetivos, que influenciam todo o percurso de
inserção profissional do músico, em cinco pontos, elencados a partir da análise do meu
percurso de inserção profissional: a subjetividade do indivíduo, ou seja, como ele se
posiciona e se comunica com o mundo e a sociedade, acreditando que esse
posicionamento e comunicação são frutos da soma de fatores biológicos com o meio
(família, escola, religião, amigos, crenças, cultura); as motivações e expectativas que
movem os indivíduos; as oportunidades que surgem no seu percurso; a rede de
relacionamentos que é formada e que pode influenciar nos rumos do seu percurso; e as
escolhas que o indivíduo vai fazendo ao longo do caminho.
Os últimos fatores que aponto como influenciadores do percurso de inserção
profissional do músico são os fatores secundários já indicados por Alves (2003): idade,
uma vez que a preparação e profissionalização do músico acontece normalmente de
maneira muito precoce; sexo, considerando que o mercado do músico é, essencialmente,
masculino e, paradoxalmente, percebe-se uma procura maior de mulheres pela formação
profissional em música, o que demonstra, dentre outros motivos, uma relação com a
música ainda diletante por parte das mulheres; e lugar, porque é determinante para as
oportunidades e escolhas que o músico faz no decorrer do seu percurso.
Abordando especificamente a esfera da educação em música, classifico-a, de
acordo com a literatura estudada, como precoce, o que proporciona uma fusão das
identidades pessoal e artística do músico (WELLER, 2014), heterogênea, contínua,
permanente (SEGNINI, 2014), ou seja, uma formação ao longo da vida que contempla
espaços de aprendizagem formais, não-formais e informais. Tais características, atreladas
à legitimização da profissão através do “saber fazer”, provocam uma profissionalização
precoce do músico. Julgo necessário apontar também que a formação profissional
direcionada aos músicos ainda é muito voltada para a formação do performer e, já
abordando o trabalho/emprego do músico, é sabido que o músico atualmente se envolve
em várias atividades profissionais, em momentos distintos do sistema cultural.
Como nos aponta Segnini (2011), o mercado de trabalho do músico é
predominantemente masculino, autônomo e sem vínculo empregatício, sendo que as
melhores oportunidades de empregos formais muitas vezes estão na área da docência e
não na área da performance, como egressos de cursos técnicos de canto e instrumento e
bacharéis anseiam. Em contraposição, como constatam alguns autores, o principal foco
da formação profissional ainda é o treinamento musical, numa época em que os músicos
exercem atividades que vão além do tocar e cantar (BENNETT; FREER, 2012;
HUHTANEN, 2010; LANCASTER, 2008; REQUIÃO, 2004; SMITH, 1996), e a
formação erudita e solística (DRUMMOND, 1998; LANCASTER, 2008; LEHMAN,
1996; SCHIPPERS, 2004; SMITH, 1996). Tal fato gera uma incompatibilidade entre as
expectativas dos alunos, das instituições (CARRUTHERS, 2010) e, acrescento, do
mercado de trabalho. Isso, a meu ver, pode gerar uma crise de identidade no músico que
foi formado para ter sucesso e atuar como performer, e que, em muitos casos, foi levado
a acreditar que a docência ou outra atividade da área de música são atividades menores
que a atividade do performer, como considera Bennett (2016). A mesma autora pondera
que todas as atividades profissionais da área são importantes e, como reafirma Rubim
(2011), sem a harmonia dos seus vários momentos, o sistema cultural não funciona.
Nesse cenário, seria significativa uma formação profissional em música que
preze pela identidade do músico a ser formado (BENNETT; FREER, 2012;
HUHTANEN, 2006; REID; BENNETT, 2014) e que cultive uma cultura de
profissionalização. Uma formação profissional que superioriza as atividades de
performance, perde na formação do ser humano e do profissional, provocando grandes
danos à própria área, pois não contribui para a formação e manutenção de uma classe
profissional com plena conscientização política e atenta às questões burocráticas e
administrativas (PUCCI, 2014), fatores também essenciais para o bom funcionamento do
sistema. As políticas públicas que visionam a área também contribuem para as condições
de trabalho instáveis e intermitentes do músico (SEGNINI, 2012), mas para que algo
possa ser mudado, a área de música precisa reagir, pois somente uma reação iniciada de
dentro para fora da área pode dar resultados capazes de modificar a maneira como a
sociedade nos enxerga e pensa as políticas da nossa área. Para isso, a formação
profissional pode contribuir bastante.
Entre as esferas da educação e formação ao longo da vida e do
trabalho/emprego dos músicos estão suas inter-relações, que serão aprofundadas nesta
tese. O próximo capítulo apresenta as bases metodológicas da pesquisa que propus para
atestar o constructo conceitual proposto.
No documento
UNIVERSIDADE FEDERAL DA PARAÍBA
(páginas 98-104)