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2.3 Revisão dos Estudos Empíricos

2.3.2 Constructos com Origem na Teoria Institucional

O pressuposto que norteia esta pesquisa da Teoria Institucional é que as instituições se constituem como regras de um jogo na sociedade que condicionam o comportamento humano (NORTH, 1990, com base em VEBLEN, 1898, 1971; COMMONS, 1931). Da mesma forma, entendendo-se que as regras formais e informais se constituem de rotinas e práticas que são aceitas e seguidas por grupos de indivíduos, conforme o modelo teórico de Burns e Scapens (2000), postula-se que as regras formais e informais estão contidas na elaboração de informações em sistemas de informações contábeis. A partir do exposto, para identificar as regras institucionais formais e informais, apresentam-se as definições dos construtos.

Nesse sentido, em relação à Teoria Institucional, analisando regras, rotinas, práticas, hábitos e ações nos processos da contabilidade, Burns e Scapens (2000) exploram o modelo institucional da contabilidade como uma estrutura que auxilia no entendimento da dinâmica dos processos de mudança. A dinâmica dos processos de mudança contábil, ao longo do tempo, e em um ambiente organizacional único, com uma abordagem processual, facilita a investigação sobre novas práticas contábeis, rotinas, instituições, poder e política.

Burns e Scapens (2000) argumentam que podem ser impostas regras e que elas se tornam implementadas através do estabelecimento de rotinas ou pode ocorrer o inverso, isto é, as regras podem surgir das rotinas estabelecidas. Em ambos os casos, a aprovação e a reprodução de normas e rotinas irão continuar ao longo do tempo e nesse processo, as rotinas podem ser alteradas. Em síntese, Burns e Scapens (2000, p. 11) concluem que

a aplicação das novas regras e o surgimento de novas rotinas será influenciada tanto pela codificação das propriedades estruturais das instituições em curso e a reprodução de rotinas existentes.

A maioria das rotinas, de todo o processo serão moldadas pelas instituições vigentes. As instituições existem sempre antes de qualquer tentativa por parte dos indivíduos para introduzir mudanças, e, portanto, moldam os processos de mudança. Os processos de mudança podem resultar em novas rotinas ao longo do tempo e tornarem institucionalizadas: no campo institucional, no campo da ação as rotinas que estão em curso são um processo cumulativo de mudanças.

Considerando este contexto, os estudos empíricos de Siti-Nabiha e Scapens (2005), Busco, Riccaboni e Scapens (2006), Lavarda, Ripoll Feliu e Barrachina Palanca (2009), Rocha e Guerreiro (2010), Van der Steen (2011) e Angonese e Lavarda (2014) aplicam o modelo de Burns e Scapens (2000) para o desenvolvimento de suas pesquisas de estudo de casos, a partir de entrevistas com análise qualitativa. Assim, parte-se dos construtos usados em suas pesquisas para a definição do modelo deste estudo, conforme Quadro 7 a seguir:

Quadro 7 – Constructos com abordagem na Teoria Institucional (continua)

Categorias de Construtos Definição Autores

- Intituições Vigentes

Regras Formais - Regras do sistema de contabilidade gerencial vigente. - Normas existentes tomadas como certas premissas e valores, expressa em termos de orientação de produção, codificada nas regras existentes.

Siti-Nabiha e Scapens

(2005, p. 62-66). - Regras Informais - Rotinas do sistema de contabilidade gerencial

vigente;

- Rotinas usadas como um instrumento para a fixação dos meios de produção.

- Novas

Instituições: - Novas Regras Formais:

- Novas regras de contabilidade associadas ao novo sistema de gestão.

- Novos sistemas de contabilidade com base nas normas existentes e valores dos membros da organização;

Quadro 7 - Construtos com abordagem na Teoria Institucional (continuação)

Categorias de Construtos Definição Autores

- Novas Instituições:

- Novas Regras Formais:

- Novos procedimentos contábeis com orientação mais financeira para as operações da empresa do novo sistema

de contabilidade gerencial. Siti-Nabiha e Scapens (2005, p.

62-66). - Novas Regras

Informais: - Rotinas usadas como um mecanismo para controle financeiro; - Orientação mais estratégica com vistas a maximizar o valor da empresa.

- Instituições

Vigentes: - Regras Formais Vigentes: - Conjunto de regras do sistema de contabilidade gerencial atual; - Declarações formais de procedimentos da contabilidade gerencial. Busco, Riccaboni e Scapens (2006, p. 32-35). - Regras Informais Vigentes:

- Comportamento rotineiro orientado pelos pressupostos de conhecimento e culturas.

- Práticas da contabilidade gerencial habitualmente em uso.

- Novas

Instituições: - Novas Regras Formais: - Conjunto de regras do novo sistema de contabilidade gerencial (MAS); - Declarações formais de novos procedimentos da contabilidade gerencial.

- Novas Regras

Informais: - Novas práticas da contabilidade gerencial.

- Instituições Vigentes:

- Regras Formais

Vigentes: - Regras codificadas em controle de produção da organização; - Procedimentos em uso de controle de produção.

Lavarda, Ripoll Feliu e Barrachina Palanca (2009, p. 106-113). - Regras Informais

Vigentes: - Rotinas e tarefas dos operadores de produção; - Procedimentos com base em conhecimentos e habilidades das pessoas (não formalizados).

- Novas Instituições:

- Novas Regras

Formais: - Regras do sistema gerencial de controle de produção; - Novos procedimentos de controle de produção para o sistema de contabilidade gerencial.

- Novas Regras

Informais: - Rotinas diárias com base no novo controle de produção da organização para o sistema gerencial; - Rotinas usadas como um instrumento para a fixação dos meios de produção para o sistema de contabilidade gerencial.

- Instituições Vigentes:

- Regras Formais

Vigentes: - Regras do sistema atual, em sintonia com as diretrizes do campo institucional da organização.

Rocha e Guerreiro

(2010, p. 40-41). - Regras Informais

Vigentes: - Crenças e valores que permeiam a organização que fazem parte do campo institucional; - Rotinas do sistema atual em sintonia com as diretrizes do campo institucional da organização;

- Rotinas coerentes com os princípios institucionais compartilhados pelos executivos do banco.

- Novas Instituições:

- Novas Regras

Formais: - Princípios institucionais do processo de codificação do novo sistema que foram definidos com base nos conceitos e rotinas coerentes com os princípios institucionais do banco;

- Lógica institucional dos conceitos do novo sistema que codificou as novas regras e rotinas orientadas pelas crenças e valores presentes no campo institucional vigente na empresa.

- Novas Regras

Informais: - Rotinas do novo sistema em sintonia com as diretrizes do campo institucional da organização; - Rotinas do novo sistema sintonizadas com os princípios institucionais compartilhados pelos executivos do banco.

Quadro 7 - Construtos com abordagem na Teoria Institucional (conclusão)

Categorias de Construtos Definição Autores

- Instituições Vigentes:

- Regras Formais Vigentes:

- Regras formais observadas que foram instrumentos para implantação da rotina do novo sistema de planejamento e controle;

- Procedimentos de contabilidade gerencial.

Van der Steen (2011, p. 532-533). - Regras Informais

Vigentes: - Rotinas reproduzidas ao longo do tempo de contabilidade gerencial. -

Novas Instituições:

- Novas Regras Formais:

- Regras do novo programa de gestão orientado para resultados (ROM);

- Regras formais de gestão do Manual ROM. - Novas Regras

Informais: - Nova rotina de planejamento e controle.

- Instituições Vigentes:

- Regras Formais

Vigentes: - Regras do sistema de contabilidade gerencial; - Regras atuais do sistema de gestão; - Regras dos processos operacionais.

Angonese e Lavarda (2014, p. 220-223). - Regras Informais

Vigentes: - Rotinas das práticas e procedimentos atuais.

- Novas Instituições:

- Novas Regras

Formais: - Regras do novo sistema integrado de gestão; - Regras do projeto de implementação do novo sistema integrado de gestão.

- Novas Regras Informais:

- Rotinas das práticas dos novos procedimentos.

Fonte: Elaborado pela autora (2017).

Os autores citados no Quadro 7 anterior, em geral, identificaram os construtos em Instituições Vigentes e Novas Instituições, sendo que o que diferencia a definição e as categorias dos construtos é o ambiente de aplicação da pesquisa.

Nesse contexto, verifica-se em Burns e Scapens (2000) que, à luz da abordagem institucional, o processo de codificação requer que os princípios institucionais sejam codificados, detalhados e especificados em rotinas e regras: “O processo de codificação é influenciado (i) pelas rotinas e instituições vigentes, (ii) pelas intenções (racionais) dos agentes de mudanças e (iii) por outras instituições fora da organização” (BURNS; SCAPENS, 2000, p. 11). As novas regras e rotinas codificadas são influenciadas pelas regras e rotinas vigentes e, nesse sentido, elas terão mais chance de ser implementadas à medida que forem mais consistentes com as regras e rotinas amplamente aceitas no âmbito da organização.

Por outro lado, o processo de codificação também é fortemente influenciado pela intenção consciente e racional dos agentes de mudança. Rotinas são hábitos formalizados e institucionalizados que incorporam comportamentos orientados por regras, fortalecendo-se pelo processo de repetição de ações para o atendimento das regras. Rotinas são formas de pensar e de agir, habitualmente adotadas por um grupo de indivíduos de forma inquestionável. As regras e rotinas proporcionam uma memória da organização e se constituem na base para a evolução do comportamento organizacional (BURNS; SCAPENS, 2000).

Rocha e Guerreiro (2010, p. 28), partindo do modelo de Burns e Scapens (2000), aplicaram os conceitos de hábitos, rotinas e instituições e explicaram que “as práticas contábeis podem se tornar rotineiras e, através do tempo, passar a fazer parte do conjunto das pressuposições e crenças inquestionáveis da organização (taken-for-granted)”. Essas pressuposições e crenças são instaladas na cultura do grupo social e aceitas de tal forma que as pessoas não questionam sobre tais práticas. Assim “as práticas contábeis e rotinas emergentes podem ser caracterizadas como institucionalizadas quando se tornam amplamente aceitas na organização e são vistas como formas inquestionáveis de controle gerencial” (ROCHA; GUERREIRO, 2010, p. 28).

Dessa forma, “a contabilidade gerencial é uma instituição que corresponde a um conjunto de rotinas institucionalizadas e aceitas na organização e tanto impacta outras instituições no âmbito da organização como é moldada por elas”. De forma geral, os sistemas de contabilidade gerencial podem ser “um conjunto estruturado de rotinas, que estabelecem as diretrizes para as ações (alocação de recursos, decisões operacionais, decisões de preços etc.) e fornecem os meios para representar o desempenho dos diversos atores” (ROCHA; GUERREIRO, 2010, p. 28).

Diante do contexto, segue-se o pressuposto de que “as instituições se constituem de regras formais e informais, condicionando o comportamento humano e consequentemente a evolução econômica”. (NORTH, 1990, p. 3). Na mesma linha, aplicando o modelo teórico de Burns e Scapens (2000, p. 11), ao considerar que:

Instituições são as propriedades estruturais que compreendem os pressupostos sobre a maneira de fazer as coisas, que formam e restringem as regras e rotinas, e determinam os significados, valores e também os poderes dos agentes individuais. Aplicação das novas regras e o surgimento de novas rotinas será influenciada tanto pela codificação das propriedades estruturais das instituições em curso e a reprodução de rotinas existentes.

Assim, no Quadro 8 estão apresentados os constructos, as definições e as respectivas fontes:

Quadro 8 – Constructos aplicados à pesquisa empírica: Teoria Institucional (continua) Categorias e Subcategorias

de Construtos Definição Autores

- Instituições

- Regras

Formais - Regras formalizadas da contabilidade como leis e regulamentos contábeis e fiscais. Adaptado de Siti-Nabiha e Scapens (2005, p. 62- 66).

- Declarações formais de procedimentos da contabilidade.

Adaptado de Busco, Riccaboni e Scapens (2006, p. 32-35).

Quadro 8 - Construtos aplicados à pesquisa empírica: Teoria Institucional (conclusão) Categorias e Subcategorias de Construtos Definição Autores - Instituições - Regras Formais

- Regras formalizadas do sistema, em sintonia com as diretrizes do campo institucional da organização.

Adaptado de Rocha e Guerreiro (2010, p. 40-

41). - Regras formalizadas dos processos

operacionais. Adaptado de Angonese e Lavarda (2014, p. 220- 223).

- Normas contábeis e práticas existentes formalizadas tomadas como certas premissas, expressa em termos de orientação, codificada nas regras existentes;

- Procedimentos formalizados de sistemas contábeis integrados.

Adaptado de Siti-Nabiha e Scapens (2005, p. 62-

66).

- Procedimentos formalizados contábeis. Adaptado de Van der Steen (2011, p. 532-533).

- Regras Informais

- Normas contábeis que não estão formalizadas; - Procedimentos de sistemas contábeis integrados e não integrados que não estão formalizados.

Adaptado de Siti-Nabiha e Scapens (2005, p. 62-

66). - Comportamento rotineiro de contabilidade e

sistemas contábeis orientados pelos pressupostos de conhecimento e culturas. - Práticas da contabilidade habitualmente em uso.

Adaptado de Busco, Riccaboni e Scapens (2006, p. 32-35). - Procedimentos contábeis com base em

conhecimentos e habilidades das pessoas (não formalizados).

Adaptado de Lavarda, Ripoll Feliu e Barrachina

Palanca (2009, p. 106- 113). - Crenças e valores que permeiam a

contabilidade que faz parte do campo institucional.

Adaptado de Rocha e Guerreiro (2010, p. 40-

41). - Rotinas das práticas e procedimentos contábeis

que não estão formalizados. Adaptado de Angonese e Lavarda (2014, p. 220- 223).

Fonte: Elaborado pela autora (2017).

Considerando o representado no Quadro 8, parte-se dos construtos de instituições identificadas nos estudos empíricos de Siti-Nabiha e Scapens (2005), Busco, Riccaboni e Scapens (2006), Lavarda, Ripoll Feliu e Barrachina Palanca (2009), Rocha e Guerreiro (2010), Van der Steen (2011) e Angonese e Lavarda (2014).

Dando continuidade à análise dos estudos empíricos que norteiam este estudo, na subseção a seguir apresentam-se os estudos empíricos que são a base para a identificação dos constructos com origem na Teoria do Comportamento Planejado (TCP).