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Construindo a imagem da “Cidade Maravilhosa”

No documento Intercidades: consumos e imaginários urbanos (páginas 150-153)

É pelo imaginário do “maravilhoso” – ecoado pela marchinha de carnaval “Cidade Maravilhosa”, que terminou por se tornar um “hino

oficioso” do Rio (LESSA, 2001) –, que Pereira Passos consolidou o projeto que pretendeu transformar a então capital de República no “novo Brasil” (ABREU, 2013), “higienizando” a cidade e restaurando sua autoconfiança. Afinal, a “Paris dos Trópicos” precisava apagar seu passado de “Pequena África” (LESSA, 2001).

De 1902 a 1904, com base nas metáforas médicas de “recupe- ração” e “regeneração”, foi realizada, no Rio de Janeiro, então capital da República, a “Reforma Passos”, inspirada no maior esquema de re- desenvolvimento urbano dos tempos modernos, realizado pelo Barão Haussmann, que transformou Paris, em meados do século XIX, no sím- bolo da urbe moderna.

A Avenida Central, inspirada nos bulevares parisienses, foi o ícone máximo da “regeneração” e introduziu na capital a atmosfera cos- mopolita ansiada pela nova sociedade republicana. Dessa forma, consti- tuiu-se no ícone das profundas mudanças que marcaram a estrutura da sociedade e da cultura, o que se refletiu no restante do país, uma vez que a capital funcionava como um espelho nacional (LESSA, 2005), refle- tindo a imagem-síntese do Brasil moderno, cidade que unia beleza na- tural e modernidade urbana. A Ville Marveilleuse, batizada, em 1912, por Jeanne Catulle, jornalista francesa, filha de Victor Hugo, proporcio- nava aos brasileiros sentimentos de identidade nacional e de valorização de sua autoestima.

Logo após a Reforma Passos, o Rio de Janeiro abrigou a Exposição Nacional de 1908 que, além de celebrar o centenário de abertura dos portos e a chegada da família real à capital, pretendia mos- trar os produtos fabricados no país e também apresentar a nova cidade do Rio de Janeiro ao mundo (FREITAS, 2011). Mesmo sendo nacional, o evento inspirou-se nas grandes exposições universais e abrigou pavi- lhões temáticos construídos especialmente para a exposição – grande parte destruída após os três meses de sua duração –, que, estima-se, re- cebeu um público de um milhão de pessoas. Apesar das doenças que ainda acometiam a população, o Rio de Janeiro começava a construção de uma imagem de cidade-espetáculo, “um conceito de cidade que sabe recepcionar os estrangeiros, com grande interferência da arquitetura, dos negócios e da comunicação” (FREITAS, 2011, p. 5).

INTERCIDADES: consumos e imaginários urbanos 151 Na década de 1920, dando prosseguimento ao modelo de urbani- zação desenhado por Passos, a reforma urbana de Carlos Sampaio (1920- 1922) privilegiou obras públicas com ênfase no centro e na zona sul e deu continuidade às metáforas médicas, legitimadoras das “cirurgias urbanas”, permitindo a circulação do ar e facilitando a mobilidade urbana (LESSA, 2001). Mas, prioritariamente, a administração de Carlos Sampaio dedi- cou-se a preparar a cidade para as comemorações do 1º centenário da Independência do Brasil, que culminariam com a Exposição Internacional de 1922, espetáculo simbólico que consagrou a cidade à modernidade e inscreveu o Rio de Janeiro no cenário internacional dos grandes eventos.

Após as intervenções iniciadas com a Reforma Passos, o Rio co- meçou a ser expandido em direção à zona sul, especialmente aos bairros de Copacabana e Ipanema. Com a inauguração do hotel Copacabana Palace, em 1923, a imagem do lugar foi mudando e atraindo não só in- vestimentos, mas também a atenção da elite local, que começou a trocar suas chácaras em Botafogo ou na Tijuca por imóveis à beira da praia. A vida na “princesinha do mar” tornou-se objeto de desejo. A reboque desse fluxo à zona sul, outras obras são inauguradas, como o Museu de Arte Moderna, o aeroporto Santos Dumont, o edifício Gustavo Capanema, o hotel Glória (inaugurado um ano antes do Copacabana Palace), o túnel do Pasmado, o viaduto das Canoas e os túneis Santa Bárbara e Rebouças, e iniciada a construção dos jardins do Parque do Flamengo, que seriam finalizados em 1965. Para Andreatta (2006), essas obras consolidaram a imagem de “Cidade Maravilhosa”, conformando o arquétipo de harmonização com a natureza a ser difundido pelo mundo.

Na continuidade dessa aura desenvolvimentista, impulsionada durante a Era Vargas (1930-1945), o Brasil sediou a Copa de 1950. Na condição de capital e com o recém-inaugurado estádio do Maracanã, o Rio foi a principal sede, palco da cerimônia de abertura e da final contra o Uruguai. Porém, para além de atender aos interesses do esporte, a decisão de sediar o mundial pretendeu projetar a imagem do Brasil, especialmente da então capital da República, na esteira do processo de modernização que vinha se desenhando desde o início do século XX.

Após décadas de prosperidade, no entanto, o Rio foi perdendo paulatinamente o prestígio político, e isso se projetou diretamente na

economia local. O primeiro pilar a se romper foi a perda do status de Distrito Federal, devido à transferência da capital para Brasília, em 1960. Com o seu peso político atrofiando, um grave esvaziamento eco- nômico assolou a metrópole e alcançou, na década de 1980, o seu pior momento. Dessa forma, a “Cidade Maravilhosa”, que até então refletia as potencialidades da nação, passou a testemunhar seu desequilíbrio socioeconômico e o aprofundamento de desigualdades de toda sorte. Concomitantemente a essa retração econômica, a violência urbana passou a se impor como o principal problema da cidade, a partir da dé- cada de 1980, com o aumento do poderio bélico das facções que do- minam o tráfico de drogas local. Se, no século XIX, o Rio tinha por estigma a sujeira nas ruas, em virtude da qual graves epidemias asso- lavam os espaços urbanos, no final do século XX, a progressão da cri- minalidade urbana propiciou a alcunha de “Cidade Partida”, fazendo alusão às profundas desigualdades sociais que separam a favela do as- falto, e os subúrbios da zona sul.

No documento Intercidades: consumos e imaginários urbanos (páginas 150-153)