3 PRODUÇÃO DISCURSIVA DO GÊNERO E DA SEXUALIDADE NAS
3.1 Gendramentos: gêneros inteligíveis, hierarquias e performatividade de
3.1.2 Construindo e questionando identidades e hierarquias de gênero
Adrian me relatou que sua namorada o orientou a pedir ao avô dela – com quem ela morava – para que pudessem namorar. O interessante é que já estavam namorando desde antes do momento em que Adrian finalmente, em um ritual formal e tradicional, para o qual inclusive comprou um anel de compromisso, pediu que o avô autorizasse o namoro.
Que foi quando você conversou com o avô?
Adrian: Exatamente. Tipo fazendo coragem. Eu lembrei estava muito nervoso porque conversar com avô dela não [é] coisa que você faz sozinho. Toda a família vai olhar e ficar sempre do lado, ele nunca está sozinho. Porque ele está um pouco antigo. Ele sempre manda “Eu quero água; Renata, pega”; “Eu quero comida; Rose pega pra mim”. Ele nunca faz coisas sozinho.
O avô?
Avô. E tipo isso eu acho que é uma coisa antiga, isso está mudando aqui no Brasil. Na minha família eu estou olhando isso, os homens têm mais poder do que mulheres. Mas, eu acho que isso está mudando muito aqui.
O avô aparece no discurso de Renata como aquele que vai decidir se ela pode ou não namorar o intercambista, ainda que o ritual seja apenas uma encenação. O avô encarnaria a instância última de decisão dentro da família e sua relação com Renata seria de heteronomia. Renata, na situação relatada, é representada como objeto de uma negociação entre homens e encenará aceitar a decisão que um homem tomará acerca de sua vida afetiva e sexual.
Para Barbara, a mulher no contexto local estaria “abaixo do homem”. Em sua experiência na segunda família anfitriã, era o pai anfitrião a última instância de decisões, ele teria sempre a palavra final. “[...] você tem que perguntar para o pai, você se dirige ao pai e o pai decide. Se você se dirigir à mãe, a mãe se aconselha com o pai, a mãe tem que perguntar ao pai”, relatou ela.
Essa forma hierárquica de funcionamento familiar tem algumas de suas raízes históricas no período colonial brasileiro. Jurandir Costa (1999, p. 95) aponta que a família colonial fundava sua coesão sobre um sistema piramidal em cujo topo se encontrava o homem em sua polivalente função de pai, marido, chefe de empresa e comandante de tropa. Dele era exigida toda iniciativa econômica, cultural, social e sexual. Os demais membros do grupo se ligavam ao pai de modo absolutamente passivo. “O pai representava o princípio de unidade da
propriedade, da moral, da autoridade, da hierarquia, enfim, de todos os valores que mantinham a tradição e o status quo da família” [grifos do autor]. Ainda segundo o autor, esse tipo de solidariedade desestimulava todo elo afetivo que incentivasse motivações e vontades individuais. “O convívio familiar não devia nem podia ordenar-se de forma a privilegiar a escuta, a atenção e a realização de desejos e aspirações particulares. [...] O único interesse visado era o do grupo e da propriedade, expresso sempre pelo pai”.
Dessa forma, atribuía-se ao pai um direito quase natural de comando e a reação deveria ser de imediata e irrestrita obediência. Dentre outras coisas, era o pai que determinava, e supostamente em nome do grupo, as escolhas afetivas e sexuais de seus dependentes. Certamente, não pretendo com essa interpolação de natureza histórica dissimular a existência de diferentes formas de organização familiar no Brasil colonial e sugerir a ideia de que uma determinada forma de família – como a patriarcal ou a família conjugal moderna, por exemplo – seriam a única ou o fundamento da organização social mais geral. Nesse sentido, o importante trabalho de Mariza Corrêa (1981) aparece como uma referência importante, na medida em que ela busca precisamente descontruir a visão de que a família patriarcal foi a instituição fundamental do Brasil colonial substituída, com a urbanização, pela família conjugal moderna; pois tal visão excluiria do panorama das pesquisas a possibilidade de investigar formas alternativas de organização familiar. Também sugeriria a ideia de uma uniformidade na constituição das famílias, impedindo a percepção do caráter contraditório e multívoco dessas relações. Igualmente não se trata de acompanhar as teses que postulam um patriarcado universal como origem da opressão de gênero.
Ainda assim, as situações relatadas acima me parecem atualizar dentro das famílias anfitriãs uma referência discursiva historicamente constituída e significativa na dinâmica das relações familiares, segundo a qual o homem-pai é identificado como polo de autoridade e objeto de um temor emocional por parte de seus “dependentes”. E nessa conformação discursiva se percebe uma forte assimetria de gênero, bem como uma intensa inibição da individualidade pela subsunção dos interesses e desejos do indivíduo ao grupo em que ele se integra. Nessa configuração, a mulher deveria ocupar um lugar específico, de subordinação ao homem e marido e de retraimento doméstico, constituindo-se também como agente reprodutor dessa ordem normativa preponderante. Outro elemento importante dessa organização é a distância afetiva do pai na família, consolidadora de sua autoridade. Quanto menos ele necessitar falar, valendo-se da mulher como sua porta-voz para isso, mais sua autoridade se assenta. No limite, coloca-se o ideal do “basta olhar” para que se produza temor e obediência.
Ana era a pessoa que, no dia-a-dia, falava das normas, impunha os limites. André acreditava que por Joanne ser mulher, era Ana quem tinha de impor os limites diretamente. Com Amanda, também agia assim, conforme relatou. Quando via alguma coisa errada, não se dirigia diretamente a Amanda, mas sim a Ana para que esta então conversasse com a filha. Além disso, Ana também se disse muito caseira e que André era “louco por bola” (que jogava, então, três vezes por semana).
Alice relatou que era sempre a mãe anfitriã quem vinha e falava das regras e exercia mais diretamente o controle de suas idas e vindas e de sua autonomia. O pai anfitrião, assim como em outras famílias anfitriãs, mostrava-se mais silencioso, deixando à mulher o papel de efetuar esse controle e de conversar com Alice e a filha. O pai anfitrião, segundo ela, não demonstrava muito interesse por ela e muitas vezes nem sabia onde ela estava. Ela acrescentou que, em comparação, o pai europeu era mais interessado. Alice também disse que, na família anfitriã dela, as tarefas domésticas cabiam à mãe anfitriã. O pai anfitrião nunca ajudava, segundo o que ela relatou. Disse, ainda, que, em sua família na Europa, os pais dividiam o trabalho de casa (o pai também cozinhava e limpava a casa, por exemplo).
Cristina relatou que estava passando por problemas com seus irmãos, pois seu pai estava muito doente e ninguém mais na família queria cuidar dele. Os irmãos entendiam, segundo ela, que era sua a obrigação de cuidar do pai doente, porque ela era mulher. Por conta disso, ela havia se desentendido com os irmãos. Finalmente, o pai havia sido levado para sua casa. Ela também relatou que sua filha, de quase quinze anos, nunca tinha convivido com alguém da idade dela antes de Kate vir morar com elas e que era “meio sozinha também, porque ela não sai”. Cristina também contou que uma das insatisfações de Carlos para com ela é que ele queria que ela fosse dona de casa, “mãe das meninas”, que tomasse conta das meninas e que ela não tinha que estar se preocupando com outras coisas (estudo, emprego). “É pra eu me preocupar só com filhos”. George me informou que Kate lhe relatou, inconformada, que as responsabilidades de casa ficavam todas com sua mãe anfitriã, Cristina. Segundo Kate, Carlos não costumava fazer nenhuma tarefa doméstica e Kate se chateava com tal situação.
Percebemos, nessas situações, uma associação entre identidades de gênero e espaços sociais, bem como alguns eixos para a construção de identidades gendradas. O espaço doméstico, por exemplo, é construído como aquele que se destinaria às mulheres. Elas ficariam responsáveis por gerir a casa, pelas tarefas domésticas (limpar, cozinhar, lavar etc.) ou por administrar as pessoas contratadas para cuidar destas e também pelos cuidados com as/os filhas/os, incluindo sua educação. Alejandro Carson (1995, p. 209-10) aponta três eixos
que têm definido a identidade de gênero das mulheres: a maternidade (ser mãe), o matrimônio (ser esposa) e o trabalho (ser trabalhadora). Para o autor, esses três eixos conceituais não operam apenas no momento de sua aparição empírica, mas estão sempre presentes como “formas sociais” que orientam a conduta, são símbolos que descreveriam, organizariam e qualificariam o que significa “ser mulher”.
As expectativas de André e Carlos se colocam no sentido de que suas companheiras realizem esses símbolos de “mãe” e “esposa” e de que se realizem nessas vivências. Ao descrever-se como “caseira”, apesar de também trabalhar fora de casa, Ana parece falar, sem perceber, de sua localização em função de sua identidade de gênero. A mulher deve pertencer ao espaço doméstico, seu ambiente por excelência, onde, dentre outras coisas, tem de cuidar das/os filhas/os e de seu controle no dia-a-dia. É delas que se espera a realização das tarefas domésticas, como no caso da mãe anfitriã de Alice e de Cristina. Esta, que estudava e realizava atividades fora de casa, expressou a pressão que sentia de Carlos para que se dedicasse mais à casa e às filhas. Relatou que, certa vez, ao chegar em casa mais tarde – em torno das 00:30 – voltando de uma festa de aniversário com Kate, encontrou Carlos no portão esperando por ela e visivelmente chateado. “O circo estava armado”, dando a entender que Carlos estava bastante irritado por seu comportamento de mulher mais independente, que não está prioritariamente em casa e que também realiza atividades suas, permitindo-se incorporar representações que, no contexto local, estariam prioritariamente identificadas aos homens, como a autonomia e o “estar na rua”. Carlos parece se irritar porque Cristina não encarna docilmente o atributo de “mulher de casa”.
Tania Swain (2000) argumenta que as imagens da mãe e da prostituta são dois traços importantes da representação social das mulheres. A construção discursiva da maternidade atrelou historicamente a mulher ao espaço doméstico, negativando sua inserção em espaços públicos. É o que se pode perceber pela simples comparação, em nossa língua, entre expressões como “homem público” e “mulher pública” que, num caso, tem acepção positiva, enquanto, no outro, assume um sentido pejorativo. “Mãe e esposa, sexo domesticado, moralidade, espaço privado, família, reprodução do social. Prostituta, mulher pública, liberação do vício e da lascívia latentes do feminino” (p. 53). Acrescenta a autora que:
A instituição social do casamento e seu corolário, a maternidade, aparecem como elementos constitutivos do ‘ser mulher’ enquanto locus ideal do feminino.
Há cerca de 30 anos a pesquisa feminista vem indicando os mecanismos sociais produtores destas representações cristalizadas, cuja matriz, a heterossexualidade,
aparece como fundamento para corpos ‘diferentes’ e complementares (feminino/masculino) ligados de maneira inexorável pela ‘natureza’ ou pela ‘ordem divina’. A instituição da noção de “família” restrita, de núcleo familiar constituído pela mãe, pai e filhos como base do social, completa a estreita ligação entre casamento, maternidade e heterossexualidade (SWAIN, 2000, p. 54¸ grifos da autora).
A representação da mulher como esposa e mãe aparece como um ideal normativo regulador da construção das identidades de gênero. As falas das/os entrevistadas/os sobre diversas situações correlatas apontam que, para além das vivências específicas, e apesar de nenhuma mulher encarnar na totalidade esses atributos, esse ideal ainda se mostra bastante presente e ativo.
Em uma pesquisa sobre a relação entre o trabalho doméstico e o assalariado, realizada com homens e mulheres, Rafaela Cyrino (2009) fez achados que expõem as tensões entre “tradição” e “modernidade” – oposição cuja naturalização merece ser questionada – presentes no interior das famílias e que corroboram os dados desta pesquisa. Enquanto a igualdade de gênero é afirmada nas falas das/os pesquisadas/os, as práticas revelam incoerências: a existência, nos domicílios, de relações desiguais e assimétricas entre os gêneros seria antes a regra que a exceção.
No que diz respeito ao tradicionalismo, ainda presente nas relações familiares, o aspecto mais notável foi observado através da recorrente associação entre as mulheres e o cuidado com os filhos. No caso do grupo dos homens, recorreu-se, inclusive, ao discurso de especialistas em educação infantil para a afirmação de que a mulher é uma presença imprescindível e insubstituível, que deve estar efetivamente presente no âmbito doméstico, principalmente quando os filhos ainda são pequenos. No caso das mulheres, o conflito se traduz, por exemplo, em um discurso feminista a favor da igualdade de oportunidades entre homens e mulheres no que se refere ao trabalho, concomitante a um discurso favorável a um trabalho nitidamente diferenciado da mulher, com uma carga horária menor do que a do homem para que a mesma possa dedicar-se também, à conservação e cuidado do grupo familiar.
[...]
Outra questão importante observada na pesquisa se refere à maneira diferenciada pela qual homens e mulheres compreendem o que seja ‘a divisão das tarefas domésticas’. Enquanto as mulheres reclamam do pouco envolvimento masculino no trabalho doméstico, os homens possuem um discurso em que se percebem ‘dividindo efetivamente tais afazeres’ com as mulheres. Entretanto, enquanto as mulheres percebem as atividades domésticas como trabalho efetivo, alguns homens as percebem como parte do que chamam de ‘lazer’ (CYRINO, 2009, p. 87-8).
A maioria das famílias entrevistadas e/ou observadas contavam com os serviços de empregadas domésticas, todas elas mulheres. Cristina relatou que sempre contaram com uma ou duas empregadas que faziam os trabalhos domésticos em casa. Bryan
afirmou que quase ninguém tem empregada doméstica em seu país, mas que aqui nas famílias anfitriãs em que morou, sim, havia empregadas que cuidavam das tarefas domésticas. Na casa dele na Europa, ele afirmou que limpava o próprio quarto, colocava os pratos e talheres na máquina de lavar pratos, enquanto que aqui ele não fazia quase nada; “as empregadas fazem tudo; a vida aqui é melhor” [por não ter que fazer muitas tarefas domésticas]. Lara teria contado para Beatriz que, em seu país, quem fazia as tarefas de casa era o padrasto. A maioria das/os intercambistas relatou que, em suas casas, na Europa, os membros da família costumavam dividir as tarefas domésticas, dando a entender que não esperavam que a mãe fosse a pessoa originalmente responsável por elas. Natalie, intercambista da América do Norte, teria informado a George que, em certa ocasião, se manifestou contra a mãe anfitriã que acordou a ela e à irmã anfitriã para que limpassem a casa e fizessem outras tarefas domésticas, enquanto o irmão anfitrião continuou dormindo. Para ela, tal situação se configurava como “injusta”.
Percebemos no discurso das/os intercambistas que elas/es se orientam por outras possibilidades de representação das identidades de gênero. Em seus contextos culturais de origem, relatam, os homens participariam de maneira ativa da realização das tarefas domésticas, o que nos permite questionar se já teria havido um deslocamento na identificação do trabalho doméstico como eixo estruturante de identidade para as mulheres. As/os intercambistas se expressaram em desacordo ante a forma de divisão do trabalho doméstico que observavam em suas casas em São Luís, afirmando que em suas famílias de origem a divisão do trabalho doméstico era mais partilhada entre os membros da família e não se dava em razão do gênero.
Uma breve incursão por alguns acontecimentos históricos importantes do século passado nos ajuda a compreender a posição discursiva dessas/es intercambistas a esse respeito. Göran Therborn (2006), em seu abrangente estudo sociológico sobre a família no mundo no século XX, avalia os destinos do patriarcado e sua herança para o século XXI. O autor efetua suas análises com base no conceito de patriarcado, entendido como dominação do pai e do marido sobre filhas/os e mulher, respectivamente, mas admite que a discriminação e a desigualdade de gênero devem ser vistos como conceitos mais amplos, que não se reduzem ao de patriarcado. Ainda assim, os dados de seu trabalho nos ajudam a entender diferenças históricas importantes quanto ao tratamento das questões de gênero na região de onde a maioria das/os intercambistas provém.
O autor afirma, numa perspectiva que podemos considerar etnocêntrica, que, por volta de 1900, “todas as sociedades importantes do mundo” eram, sem exceção,
patriarcais, embora o poder de pais e irmãos diferisse entre culturas e classes. No final do século, no entanto, essa instituição teria se retraído mais que qualquer outra. Ao apontar os três principais momentos de mudança nas relações de gênero e geracionais, Göran Therborn (2006, p. 114) destaca o pioneirismo e prioridade que a Escandinávia teve logo no início do século XX, com a implementação de uma nova Lei do Casamento em 1915, na Suécia, e um programa escandinavo de reforma do Direito de Família redigido antes da Primeira Grande Guerra.
Os resultados das deliberações da comissão [de juristas encarregada das propostas de reforma legal], criada em 1909, consistiram em propostas a favor de uma
concepção individualista e explicitamente igualitária de casamento. O primeiro traço manifestava-se de forma mais direta no divórcio pelo consentimento mútuo e pela ausência de culpa por dano irreparável. [...] (THERBORN, 2006, p. 123, grifos meus).
Essas mudanças legais, o que implicou no reconhecimento público e em nível geral da igualdade legal entre os gêneros no casamento, prepararam evidentemente o terreno para modificações sociais importantes no sentido de um profundo abalo do poder masculino. A instituição pública de direitos funcionaria, nesse sentido, como um elemento discursivo importante nas lutas por maior igualdade. Ainda segundo o autor:
Um movimento de mulheres significativo e com algo de filiação de massa emergira nos países escandinavos e era reconhecido pelos governos como grupos a serem consultados. As mulheres finlandesas conquistaram o direito de voto em 1906 (na trilha das sublevações russas de 1905), as norueguesas em 1907, as dinamarquesas em 1915, as suecas em 1921, mas com a primeira decisão em 1919. As mulheres norueguesas e dinamarquesas tinham maior influência política, visto que estavam bem articuladas com o liberalismo de esquerda masculino, especialmente na Noruega. Mas as organizações femininas da Suécia também conseguiram ser ouvidas na preparação da nova Lei de Casamento e quatro especialistas mulheres foram oficialmente consultadas. Em 1914, as dinamarquesas tomaram a iniciativa de um encontro feminista escandinavo visando pressionar a reforma do Direito de Família e, em 1915, um membro feminino foi acrescentado a cada uma das comissões nacionais sobre Direito de Família (THERBORN, 2006, p. 126-7).
Nesses países da Europa Nórdica, muito antes que no Brasil, os sujeitos puderam se referir às normas legais estatais para reivindicar direitos igualitários entre os gêneros. No Brasil, embora as mulheres tenham obtido direito ao voto em 1932, somente com a Constituição Federal de 1988, deu-se a igualdade de direitos entre os gêneros, com a abolição da chefia masculina na família, o que implicou na elaboração de um novo Código Civil (incluindo o livro que trata do Direito de Família) em 2001. Essa distância histórica nos
parece relevante para destacar como o discurso do gênero se constitui nas duas localidades (Europa Nórdica e Brasil).
Podemos supor que as relações de gênero testemunhadas por essas/es intercambistas em suas famílias de origem, inclusive por efeito de um discurso público que há muito incorporou a exigência da igualdade de gênero, estejam mais próximas do que Tania Salem (1987) aponta como sendo a ideologia do “casal igualitário”, isto é, de uma organização social individualista fundada no princípio do igualitarismo, sobre a qual tecerei, nesse ponto, apenas comentários superficiais. Essa referência discursiva, como podemos compreendê-la, impõe como ideal normativo a igualdade entre os membros da relação conjugal, na qual o casal não derivaria sua realidade dos grupos a que cada sujeito pertencia antes do enlace, mas a construiria tomando como referência o desejo de ambos os cônjuges. Essas representações repercutem sobre as relações de gênero na medida em que o princípio do igualitarismo expressa a não existência de âmbitos ou qualidades simbólicas que fossem exclusivos de cada um dos gêneros.
Transpondo essas idéias para o plano da relação entre gêneros deve-se ter em mente que o valor da igualdade não postula que homem e mulher sejam substancialmente iguais. Ele postula, antes, uma indistinção valorativa de seus atributos, bem como de seus respectivos domínios. Decorre, justamente dessa indiferenciação valorativa do