• Nenhum resultado encontrado

Construindo pontes entre teoria e prática

Discorrido sobre a construção do pensamento feminista e do pensamento descolonial, dentro do mundo jurídico e também para além dele, posso então analisar como essas ideias são aplicadas à prática. Já criticamos anteriormente a ideia de um suposto universalismo dentro do Feminismo, voltamos agora a essa questão para dizer que até os dias de hoje parcela das mulheres é afetada por essa concepção. A divisão do mundo em desenvolvidos/subdesenvolvidos afeta a realidade das mulheres que estão inseridas no contexto do subdesenvolvimento.

Nos países latino-americanos, as reformas neoliberais sobrecarregaram setores populares, entre eles as mulheres indígenas, mestiças, negras e camponesas, que já eram responsáveis pela maior parte do trabalho doméstico (não remunerado) e passaram a se ver enredadas com os novos papéis que lhe foram impostos.

Contudo, movimentos sociais feministas de resistência a essa precarização da condição feminina se fizeram presentes. É a construção de um feminismo que pode ser caracterizado como comunitário e popular. Esses feminismos superam o debate do feminismo da diferença e do feminismo da igualdade, pois assumem uma universalidade diferenciada, na qual as diversidades de raça e sexo são visibilizadas em todo seu contexto de colonialidade (BARRAGÁN, CHÁVEZ, LANG e SANTILLANA, 2016).

Além da superação do debate igualdade/diferença, esses feminismos têm atuação ativa na luta pela descolonização, tendo como protagonistas mulheres de setores populares, que irão a partir de suas experiências sociais e culturais ressignificar o que é o Feminismo. As mulheres negras, indígenas, camponesas, saem do papel de objeto, da categoria de "mulheres do terceiro mundo" e estão agora na linha de frente contra os discursos hegemônicos, a partir do diálogo que tem travado em relação ao desenvolvimento. Sobre essa questão, o trecho abaixo sintetiza:

46

mulheres, sobretudo do feminismo liberal: criou-se um grande número de instituições encarregadas do desenvolvimento das mulheres, que, no entanto, continuam sendo subalternas no tecido institucional, seja internacional ou nacional. (BARRAGÁN, CHÁVEZ, LANG e SANTILLANA, 2016).

Podemos perceber que esse feminismo das mulheres liberais de classe média nunca representou as verdadeiras demandas das mulheres do Sul. E sendo assim, essas mulheres começam a criar novos mecanismos de organização e luta (feminismo comunitário e popular), criando novas tendências e propostas.

Houve uma transformação na qual as mulheres do Sul saíram do mero papel de receptoras de programas (posição subalterna) e passaram a atuar de forma ativa, rechaçando os essencialismos de gênero ou cultural e reivindicando seus direitos como mulheres (BARRAGÁN, CHÁVEZ, LANG e SANTILLANA, 2016).

Lugones (2014) nos apontará que a crítica realizada pelas mulheres do "terceiro mundo" tem foco na reivindicação dos debates interseccionais de raça, classe, gênero e sexualidade, indo além das categorias padrões da modernidade. Essas movimentações sociais feitas por feministas são foco de resistência à modernidade capitalista.

Pensar em um feminismo descolonial, na visão de Lugones (2014), é falar de resistência e superação da colonialidade de gênero, marcada pelo racismo, colonização, exploração capitalista e heterossexualidade compulsória. Algumas vertentes que se destacaram nesse sentido, como o feminismo negro, feminismo queer e o feminismo descolonial. Essas vertentes são marcadas por discussões de raça, gênero, orientação sexual, classe, entre outras.

Entender uma as outras, sem precisar acessar um conhecimento privilegiado, é uma das tarefas do feminismo descolonial. É nas experiências das mulheres que vivem a realidade da diferença colonial19 que será feita a resistência. A colonialidade se imprime em cada aspecto da

vida, no nível do corpo, do trabalho, da legislação e assim por diante (LUGONES, 2014).

19 No entendimento de Walter Mignolo, a diferença colonial é aquele espaço, físico ou não, no qual a colonialidade do

poder opera, colocando em contraposição dois tipos de históricas locais que estão dispostas em tempo e espaço diferentes.

47

Mais importante do que reconhecer a existência da colonialidade de gênero é a resposta dada em forma de resistência. E a resistência individual tem a sua importância, contudo, não basta para modificar as estruturas existentes. É no campo da resistência coletiva que está a potencialidade do movimento e pensamento feminista. Sair do âmbito de atuação individualista é fundamental para uma prática feminista descolonizadora. Entender o movimento feminista como coletivo, e não apenas como a defesa da liberdade individual de cada mulher, é o caminho da resistência à colonialidade de gênero.

Ao falar sobre uma prática acadêmica transcultural igualitária e não colonizada, Chandra Mohanty nos esclarece que em seu texto “Bajo los ojos de Occidente”, do ano de 1984, não possuía a pretensão de colocar o feminismo ocidental e o feminismo terceiro-mundista como meros antagônicos, nem acredita na impossibilidade de práticas solidárias entre feministas do ocidente e as de terceiro mundo.

O seu compromisso intelectual, político e pessoal era pela construção de uma solidariedade feminista não colonizadora através de fronteiras, pois acreditava em um projeto feminista de maior amplitude que o feminismo colonizador, que atuava a serviço dos seus próprios interesses (MOHANTY,2008).

A solidariedade entre as mulheres, para a autora, pode ter como base as “diferenças comuns” e devemos enfrentar as desigualdades de poder entre as feministas para alcançá-la. Além disso, nos enfatiza que, apesar de ter dado foco na diferença durante seu trabalho, atualmente a sua intenção é demonstrar como as diferenças não são só “diferenças”.

Considera que ao analisar as peculiaridades e diferenças é possível compreender e teorizar os problemas universais, permitindo que sejam explicadas conexões e travessias da fronteira de maneira mais precisa (MOHANTY, 2008) e é justamente essa jogada intelectual que a interessava, pois assim as diferentes mulheres poderiam construir alianças e solidariedade.

48

1980 e a luta das mulheres ganhou uma maior visibilidade. Apesar de todos os avanços, alguns desafios se materializaram no percurso dessa luta, por exemplo o crescente fundamentalismo religioso, que afeta profundamente a liberdade e o corpo feminino (podemos pensar no debate sobre legalização do aborto) e a expansão de ódios raciais e étnicos.

Esse contexto social faz com que precisemos renovar a forma como pensamos a luta feminista, para que assim possamos evitar cair em discursos colonizadores. As posturas eurocentradas no campo das teorias feministas não desapareceu, mas a crítica a ela se faz presente, por meio das vozes das mulheres marginalizadas.

Chandra Mohanty (2008) destaca que existe uma necessidade latente em construir pontes entre as teorias acadêmicas do feminismo e a organização política do movimento de mulheres. Aponta, também, que a economia e cultura tem associações diretas com as teorias feministas, pois:

“...os processos políticos e econômicos globais se tornaram mais brutais, exacerbando as desigualdades econômicas, raciais e de gênero, necessitando, portanto, serem revelados, reexaminados e teorizados. ” (Tradução livre)20

Por mais que o foco anterior de seu estudo fosse distinguir as práticas dos feminismos do ocidente e as do terceiro mundo, agora a autora vê a necessidade de uma prática transnacional do feminismo capitalista, que gere possibilidades de solidariedade e ativismo feminista internacional contra o capitalismo.

Para Chandra Mohanty (2008), a estratégia é exemplificar como o capitalismo e suas relações de dominação podem ser analisados por meio de uma crítica feminista transnacional e anticapitalista. E essa análise deve ser feita a partir das experiências das mulheres marginalizadas, como as mulheres de cor, mulheres do Sul e dos “Dois terços do mundo”.

E isso se justifica pois é a partir dessas experiências que podemos visualizar uma comunidade mais justa, democrática, enquanto as experiências femininas em comunidades

20 “...los processos políticos y económicos globales se han vuelto más brutales, exacerbando las desigualdades

económicas, raciales y de género, y necesitan por tanto ser develados, reexaminados e teorizados. ” (MOHANTY, 2008).

49

privilegiadas possuem uma visão de justiça provavelmente de exclusão, pois o privilégio gera uma incapacidade de enxergar o outro.

As acadêmicas feministas devem se atentar ao fenômeno da globalização como uma forma de colonização da vida das mulheres, sendo necessário realizar agendas que sejam anti- imperialistas, anticapitalistas e que visibilizem das formas de subjugação da vida das mulheres (MOHANTY,2008). E para além disso, devem ser também identificadas maneiras de resistir coletivamente que se dão na vida das comunidades.

A realidade é que as mulheres marginalizadas sempre se organizaram contra os mecanismos de dominação do capital globalizado, o que fica evidenciado nas lutas antirracistas e anticoloniais dos movimentos feministas negros e descoloniais. O movimento acadêmico feminista precisa se aproximar dessa realidade para que não fique isolado no campo das ideias, sem conseguir alcançar a realidade social das mulheres.

É necessário avaliar o processo de globalização de maneira profunda, identificando quais são os efeitos dele sobre os corpos femininos, sob perspectivas de raça, nacionalidade, sexualidade, entre outras. Para Mohanty, a antiglobalização é fator chave da teoria e luta feministas.

A pedagogia feminista antiglobalização é capaz de agregar histórias de diferença, cultura, poder e agência (MOHANTY, 2008), tendo assim a possibilidade de enxergar interculturalmente as teorias sobre experiências e agências feministas, evitando o olhar colonizador. Ao definir projetos e agendas contra anticapitalistas, é mais fácil definir formas de organização e articulação do feminismo, desafiando a naturalização que ocorre dos valores patriarcais e racistas dentro do capitalismo global.

Documentos relacionados