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Construindo tempos e espaços significativos

No documento CURITIBA 2018 (páginas 41-46)

2. ABORDAGEM TEÓRICA

2.2. REVISÃO INTEGRATIVA: CONCEITUANDO A EDUCAÇÃO EM TEMPO

2.2.3. Construindo tempos e espaços significativos

Ao pensar em Educação em tempo Integral, logo se questiona os espaços

físicos necessários para atenderem a demanda de alunos e disciplinas, sendo este um fator de entrave e preocupação das instituições que desejam ofertar o programa.

A escola é o espaço formal para aprendizagem, mas não é o único espaço, outros espaços informais podem ser aproveitados sendo vinculados a projetos institucionais. Nesta perspectiva as atividades pedagógicas podem romper com os muros da escola, desenvolvendo parcerias com a comunidade escolar. Assim, todos os espaços podem tornar-se educadores.

O espaço retrata a relação pedagógica. Nele é que nosso conviver vai sendo registrado, marcando nossas descobertas, nosso crescimento, nossas dúvidas. O espaço é o retrato da relação pedagógica porque registra, concretamente, através de sua arrumação [...] e organização [...] a nossa maneira de viver esta relação (FREIRE, M., 1994, p. 96 apud PEREIRA;

VALE, 2013, p. 6).

A escola pode ser um rico ambiente de interações e trocas de conhecimentos, experiências e afetividades. É importante estabelecer vínculos entre os pares e com o ambiente escolar, principalmente, tratando-se da educação em tempo integral devido ao “tempo” que os alunos e professores convivem neste ambiente.

Todo espaço é um lugar percebido. A percepção é um processo cultural. Por isso, não percebemos espaços, senão lugares, isso é, espaços elaborados, construídos. Espaços com significados e representações de espaços.

Representações de espaços que se visualizam ou contemplam, que se rememoram ou recordam, mas que sempre levam consigo uma interpretação determinada. Uma interpretação que é o resultado não apenas da disposição material de tais espaços, como também de sua dimensão simbólica.

(FRAGO, 1998, p. 78).

Experiências e vivências evocadas pelas diferentes dimensões (física, funcional, temporal e relacional) que definem o espaço, quando articuladas às relações simbólicas de aprendizagem. Na educação integral, requer uma pluralidade de situações que legitima a necessidade de se instrumentalizar os espaços escolares aos elementos curriculares, durante o desenvolvimento do processo de ensino/aprendizagem, pois o espaço escolar nunca é neutro: se pensado pedagogicamente, torna-se estimulante; caso não, torna-se limitador, até mesmo acachapante, podando-se precocemente o aflorar de aprendizagens. (PEREIRA;

VALE, 2013).

O planejamento das disciplinas da Parte Diversificada do currículo a serem ofertadas, devem atender as necessidades da comunidade escolar e aos espaços físicos disponíveis e adequados para desenvolvimento das atividades e o documento da Série Mais Educação: Passo a Passo (2013) sugere que as escolas realizem um

mapeamento dos espaços que podem ser aproveitados, reconfigurados, reorganizados, e/ou cedidos pela comunidade escolar, sistematizando Espaços (escolares, comunidade), horários disponíveis e atividades que serão desenvolvidas.

Quando se trata de tempo escolar, nos questionamos com frequência duas situações antagônicas: “Não temos tempo para perder e temos todo tempo do mundo”, estas situações foram tema da tese de doutorado de Vivian Danise (2015), sendo elas muito oportunas diante da realidade da educação no Brasil. Por um lado temos escolas que revindicam mais tempo formal para o processo de ensino e aprendizagem, por outro temos escolas que já ofertam a educação em tempo integral, mas estão com dificuldades em otimizar este tempo em favor da aprendizagem.

Lomonaco e Silva (2013) complementam que a ampliação qualificada do tempo no qual o estudante estará exposto, ou seja, a situações intencionais de aprendizagem, deve gerar transformações sociais e intelectuais, que permitam o exercício da cidadania e do direito a uma educação de qualidade, justa e digna.

Através da educação em tempo integral o que se pretende é “oferecer novas oportunidades educativas e proporcionar aos estudantes interações em outros tempos, que não dizem respeito apenas ao tempo cronológico, mas também ao tempo subjetivo da aprendizagem”. (LOMONACO e SILVA, 2013, p.17).

Como a educação em tempo integral ainda busca consolidar-se enquanto política pública e sobre tudo de qualidade, Liblik e Branco (2009) salientam que ampliar o tempo de permanência na escola é possibilitar aos alunos realizar múltiplas experiências e poder repeti-las outras tantas vezes, até que se incorpore em suas vivências reais e incorporem-se definitivamente nas suas aprendizagens.

Refletir sobre o tempo, torna-se primordial, pois ele nos aponta importantes indicadores para avaliação da nossa prática.

Moll (2012) salienta que

além da necessária ampliação do tempo diário de escola, coloca-se o desafio da qualidade desse tempo, que, necessariamente, deverá constituir-se como um tempo reinventado que compreendendo os ciclos, as linguagens, os desejos das infâncias e juventudes que acolha, modifique assimetrias e esterilidades que ainda são encontradas na prática pedagógica escolar.

(MOLL, 2012, p.28)

Na esfera nacional temos o respaldo legal para ampliação dos tempos escolares na Lei Magna e na Lei de Diretrizes e Bases da Educação 9.394/96, entre outras já citadas na introdução desta dissertação. Para situar o Estado do Paraná

nesta proposta, será exposto algumas ações que a Secretaria de Educação vem desenvolvendo com esta finalidade.

Em algumas escolas estaduais são ofertadas atividades de contraturno como:

Xadrez, Horta escolar, Treinamento Esportivo, Aprofundamento Pedagógico, CELEM, entre outras atividades. Ficando sobre responsabilidade das escolas encaminharem aos Núcleos Regionais de Educação Projetos de Contraturno, sendo aprovado ou não pela Secretaria de Educação conforme perfil da Instituição e necessidade da comunidade Escolar. Tais atividades são de frequência facultativa conforme interesse do aluno.

É importante ressaltar que, por não se tratar de uma proposta considerada como uma política pública estadual, no ano letivo (2017), muitas escolas tiveram seus programas suspensos, sem qualquer justificativa formal para a comunidade, dificultando a consolidação destas atividades nas escolas.

Outra maneira das Instituições oferecerem horário ampliado da jornada escolar em contraturno é através dos Programas “Mais Educação” para o Ensino Fundamental e o “Ensino Médio Inovador” para o Ensino Médio, os quais recebem recursos do Governo Federal, mas que também dependem de recursos dos municípios e do estado.

A proposta do “Mais Educação” organiza-se da seguinte forma, atividades oferecidas em contraturno, sendo que a escolha destas atividades ficarão a critério das escolas, conforme interesse e necessidade da comunidade escolar. No site do MEC encontram-se orientações para escolha dos Macrocampo e Microcampos que corresponderão às atividades a serem ofertadas. Neste programa a frequência nas atividades também é facultativa, devendo a escola estimular a participação dos estudantes nas atividades, tendo em vista a importância do programa.

De acordo com o documento do MEC, para a série Mais Educação: Passo a passo (2013) um dos objetivos da ampliação da jornada escolar na perspectiva de educação integral é garantir o direito de aprender, incidindo na diminuição das desigualdades sociais. Sendo que as escolas devem atender, prioritariamente os estudantes que

estão em situação de risco e vulnerabilidade social; que congregam, lideram, incentivam e influenciam positivamente seus colegas; estudantes em defasagem ano/idade; alunos dos últimos anos iniciais (5ªs anos) e finais ( 9ºs anos) do Ensino Fundamental; estudantes de anos nos quais são detectados índices de saída extemporânea e/ ou repetência; estudantes que demonstram interesse em estar na escola por mais tempo. (MEC, Mais

Educação - Passo a Passo, 2013, p.13).

Por se tratar de atividades de Contraturno propostas no Programa Mais Educação, o documento da série Mais Educação: Texto Referência para o Debate Nacional (2013, p.36) alerta quanto ao fato da escola se restringir e limitar-se na divisão de turnos, pois isso pode significar uma diferenciação explícita entre um tempo de escolarização formal, de sala de aula, com todas as dimensões e ordenações pedagógicas, em contraposição há um contraturno sem tempo não instituído, sem compromissos educativos, ou seja, mais voltado à ocupação do que à educação”

Outro programa de educação em tempo integral é o Ensino Médio Inovador instituído pela Portaria nº 971, de 9 de outubro de 2009. No contexto da implementação das ações com o objetivo de apoiar e fortalecer os Sistemas de Ensino Estaduais e Distrital, no desenvolvimento de propostas curriculares inovadoras, nas escolas de Ensino Médio, em consonância com um currículo dinâmico e flexível, que atenda às expectativas e necessidades dos estudantes e às demandas da sociedade atual.

Deste modo, os programas federais buscam promover a formação integral dos discentes e fortalecer o protagonismo juvenil com a oferta de atividades que promovam a educação científica e humanística, a valorização da leitura, da cultura, o aprimoramento da relação teoria e prática, da utilização de novas tecnologias e do desenvolvimento de metodologias criativas e emancipadoras.

No Estado do Paraná a Educação em Tempo Integral é ofertada em sessenta e duas escolas, com proposta de ampliação do atendimento. As instituições atendem em Turno Único, mesclando disciplinas da Base Nacional Comum, Parte Diversificada e Componente Curricular nos dois turnos (manhã e tarde), não havendo diferenciação entre os turnos, sendo este fato o diferencial com relação ao Programa Mais Educação. A educação em tempo integral turno único é ofertada para o Ensino Fundamental Anos Finais e para o Ensino médio.

Ao planejar a ampliação dos tempos escolares, deve-se pensar em expandir novas oportunidades, diminuindo desigualdades sociais, através da socialização do conhecimento e da oferta de educação de qualidade. Contudo é preciso ter clareza que o mero aumento do tempo escolar não é garantia de qualidade de educação.

Segundo o documento: Caminhos para elaborar uma proposta de Educação Integral em jornada ampliada (2013), é preciso cuidar para que não seja oferecido “mais do

mesmo”, principalmente nas disciplinas de Língua Portuguesa e Matemática, pois esta prática pedagógica poderá gerar hiperescolarização, com efeitos negativos.

Ainda nesta perspectiva Arroyo (2012, p.33) afirma que “limitarmo-nos a oferecer mais tempo da mesma escola, ou mais um turno – turno extra -, ou mais educação do mesmo tipo de escolarização” corre-se o risco de perder-se de vista o real objetivo da educação integral em tempo integral.

No documento CURITIBA 2018 (páginas 41-46)