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CONSTRUINDO UM MARCO REFERENCIAL

No documento APRESENTANDO O TEMA (páginas 88-92)

Este capítulo compreende a construção do marco referencial para o cuidado transpessoal de enfermagem ao familiar cuidador da criança com neoplasia, a partir da utilização do Processo Clinical Caritas de Watson (2004). Dessa forma, visa contribuir para que o profissional de enfermagem venha a desenvolver suas ações com o objetivo de cuidar tendo como finalidade potencializar a capacidade de

“healing” do ser cuidado.

A construção de um marco referencial em enfermagem tem sua importância determinada pela possibilidade de proporcionar um olhar ampliado sobre diversas questões relacionadas ao desenvolvimento do conhecimento da profissão, com o objetivo de consubstanciar o saber que norteia suas práticas.

Assim, sendo o cuidado a essência da enfermagem, a busca por saberes que venham a compor um corpo de conhecimentos específicos tem impulsionado diversas teoristas no sentido de contribuir para o seu redimensionamento.

Esse pulsar vem ao encontro do desejo de autonomia e novo enfoque do saber de enfermagem que tem levado diversas teoristas como Travelbee (1979), Watson (1979) e outras a desenvolver teorias que buscam embasar o cuidado de enfermagem e sua prática (GEORGE, 2000). A atenção se volta para a construção de marcos referenciais que tenham como ponto de partida uma reflexão crítica acerca das abstrações e conceitos que permeiam o desenvolvimento das ações de enfermagem indo além das tarefas e práticas e privilegiem o ser humano e suas dimensões.

Essa definição está evidenciada por Carraro (2001, p. 33), ao afirmar que

“marcos e/ou modelos, com suas diferenças e semelhanças, formam um emaranhado de conceitos inter-relacionados que servem para direcionar as ações de Enfermagem”. Acrescenta, ainda que, “podemos dizer que eles iluminam os caminhos da Enfermagem”.

Acredito que, o marco referencial tem como função servir de base para o desenvolvimento das ações, orientando e estruturando o cuidado levado a efeito por toda a equipe de enfermagem. Lacerda (1996, p.20), afirma que “o uso dos marcos referenciais no trabalho da enfermeira consolida sua prática com a teoria e assim sucessivamente, uma retro alimentando a outra”. Partindo dessa perspectiva, a

construção do marco referencial foi concebida a partir das definições e abstrações obtidas pelos sujeitos da pesquisa, quais sejam: os profissionais de enfermagem e os familiares cuidadores e, ainda, tendo como base conceitos presentes na teoria de Watson (2004). De acordo com Carraro (2001, p. 33) esse movimento “proporciona ao profissional a evidência de que ele necessita para embasar suas ações, apontando e justificando por que selecionar um determinado problema para estudo”.

Essa construção permitiu valorizar as crenças e valores dos envolvidos e ainda possibilitou a sua inter-relação com os conceitos que embasam a teoria do cuidado transpessoal de enfermagem de Watson (2004). Entendo a relevância de elaborar um marco referencial a partir da possibilidade de revelar conceitos que são percebidos dentro do contexto que mais se aproxime do real e factível. Esse fato foi determinante na minha busca por conhecer as diversas definições que permeiam o cuidado desenvolvido pelo profissional cuidador de enfermagem ao familiar cuidador da criança com neoplasia, assim como desvelar o experenciado por esse ser enquanto cuidado.

Pelo exposto, o diagrama a seguir tem como objetivo demonstrar a construção do marco referencial de cuidado de enfermagem transpessoal ao familiar cuidador da criança com neoplasia. Procurei, para tanto, representar o cuidado instrumental e expressivo, bem como ambos os envolvidos no processo de cuidado, profissional de enfermagem e familiar cuidador da criança com neoplasia, como figuras de quebra-cabeças e dessa forma ressaltar a conectividade que existe entre todos os seres do universo e ainda a necessidade de aliar um e outro cuidado para efetivar o cuidado transpessoal de enfermagem a partir da ativação dos elementos do PCC de Watson (2004). É, portanto, mediante o entendimento de que um e outro envolvido no cuidado adentre o campo fenomenológico de seu semelhante e, ainda tendo como premissa que exista uma atitude de estar autenticamente presente e com intencionalidade de cuidar, que essas peças se conectam e se encaixam fazendo emergir o cuidado de enfermagem transpessoal abordado na teoria de Watson (2004).

Figura 1 - Cuidado transpessoal de enfermagem ao familiar cuidador da criança com neoplasia: um marco referencial.

Fonte: Mathias (2007).

Incentivar a expressão de sentimentos; Ser humano em constante conexão entre si e com o cosmos; Cuidar do ser em todas as suas dimensões;

Abrir-se a novas modalidades de cuidado; Uso criativo de si;

Práticas artísticas de cuidado-reconstituição; Ajudar nas necessidades básicas com consciência intencional de cuidado; Criação de um ambiente de

reconstituição em todos os níveis; Abertura e atenção aos mistérios espirituais e dimensões existenciais da vida-morte; Práticas espirituais.

O familiar cuidador terá suas capacidades potencializadas para enfrentar a situação experenciada. Sentir-se-á confortado, apoiado, recebendo atenção, menos inseguro, com mais conhecimento, mais descansado, tendo quem o ajude, com coragem e fé.

C + D

C

A B D

A B

Maior resolutividade em suas ações;

visibilidade; reconhecimento da conexão entre todos os seres e o cosmos; descobrindo-se como um ser em evolução

O Diagrama 1 representa o cuidado transpessoal de enfermagem ao familiar cuidador da criança com neoplasia. As figuras em forma de peças de quebra-cabeças estão unidas para demonstrar a conexão entre todos os seres e, no desenho apresentado, o profissional de enfermagem se encontra conectado ao familiar cuidador, estando ambos estão envoltos pelo cuidado presente nas práticas e técnicas bem como em atitudes concretas de presença e intenção do cuidado de enfermagem.

Além disso, os círculos concêntricos trazem o significado do cosmos, o universo com todas as suas possibilidades à disposição do homem para desenvolvê-las, de forma criativa e a seu favor. É o insondável, o desconhecido que agora, ainda que incipientemente, o ser humano almeja desvendar. Essa percepção torna possível buscar não a cura da doença, mas sim a reconstituição do ser, a sua reestruturação, recomposição, capaz de promover as transformações que o levem a descobrir um sentido de vida mais profundo.

Esses círculos apresentam as cores do arco-íris e querem significar também algo que não se toca, como o ar que sabemos que existe, o respiramos, embora não possamos tocá-lo. Sentimos sua presença na nossa pele, no entanto, não conseguimos prendê-lo em nossas mãos e ter noção de sua massa, como de um objeto sólido. Penso que assim é a energia presente em tudo que é vivo e existe;

sutil, leve, maleável, moldável.

Utilizando essa energia a favor do ser cuidado e igualmente a nosso favor, poderemos promover a satisfação de necessidades básicas com consciência intencional de cuidado. Essa forma de ser e estar com e para o ser cuidado determina o ouvir conscientemente, desenvolvendo um cuidado genuíno por meio da prática constante do amor, do partilhar. O profissional de enfermagem se torna capaz de, como demonstra o diagrama, estabelecer uma verdadeira relação de ajuda-confiança e nesse ambiente criado para que aconteça o momento de cuidado, estando ambos envolvidos nessa energia, se abrem para várias modalidades de cuidado o que torna possível cuidar do ser em todas as suas dimensões. O diagrama mostra também que o profissional capacitado ao desenvolvimento dessa consciência de cuidado encontra-se comprometido em experiências pessoais de práticas espirituais sendo reconhecedor de suas próprias limitações, estando assim, preparado para promover em si e no outro, a abertura para os mistérios espirituais e dimensões existenciais da vida e da morte.

No documento APRESENTANDO O TEMA (páginas 88-92)

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